10 Julho 2015
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artigo privacidadeA privacidade é uma conquista pessoal de um espaço íntimo, reservado e particular. Trata-se do resultado do difícil trabalho de separar-se dos pais na infância. Em pequeno, vivemos uma grande dependência e nos diferenciamos pouco daqueles que nos cuidam. Com o tempo, e a partir de certas conquistas subjetivas, nos diferenciamos e desenvolvemos a capacidade de estar só. De certa forma, a privacidade tem alguma relação com a capacidade de estar consigo mesmo.

A intimidade, o “infinito particular”, é tesouro que partilho por escolha. Meu bem e meu mal, o melhor e o pior de mim serão acessíveis para aqueles que souberem ver e que tiverem a permissão de entrar em meus espaços mais secretos.

Por outro lado, a dimensão pública é de todos, é exposição, é partilhamento e convívio mais anônimos e com menos escolhas. A separação entre público e privado tem demarcações claras; mas, volta e meia, as bordas apagam-se, e torna-se público o que deveria ficar na intimidade, ou utiliza-se como particular e pessoal um bem ou um espaço público, que deveria ser de todos.

Quando público e privado misturam-se, é hora de reorganizar os limites e de construir barreiras para os transbordamentos. Sentimos desconforto pelas invasões não autorizadas. E as justificativas para controlar a vida do outro são discutíveis e merecem atenção. Há um risco grande ao desrespeitar tanto a dimensão da coisa pública quanto a esfera da privacidade. E há um perigo ainda maior de tudo parecer normal e natural, deixando de surpreender fatos que não condizem com o convívio respeitoso e civilizado.

As revistas de fofocas supervendidas e o sucesso de programas que exploram a intimidade das pessoas apontam para o gozo voyeur e exibicionista, próprio do homem. Quais, então, os limites entre aquilo que deve ser mantido em segredo e aquilo que, ao ser revelado, contribui para o avanço do ser?

Maridos, amores, filhos, pais, políticos: quais os critérios para a invasão da privacidade? Essa entrada forçada e sem convite na intimidade de alguém é autorizada pela necessidade de cuidados ou, mesmo, de informações pertinentes a interesses afetivos ou políticos.

Onde está o limite?

O livro de George Orwell 1984, ficção aterrorizante, denunciava as invasões do olhar do “grande irmão”, controle paradigmático de tempos de extremismo ideológico. A necessidade de tudo saber sobre o outro e o controle sobre eventuais desvios da linha permitida pelo poder oficial desencadeavam medos, perseguições e angústias que tornavam impossível existir com tranquilidade, do jeito que cada um escolhesse. Nenhuma liberdade; uma figura de poder absoluto determinava o possível.

Essa ameaça de um olho que tudo vê torna-se escolha e, hoje, em tempos de reality shows, a própria pessoa oferece-se aos olhares dos outros. Para o bem e para o mal, cada um tem sua intimidade devassada para o gozo do próximo. Claro que existe toda uma diferença quando há escolha individual: quero e ofereço-me para esse olhar. E, também, sou eu mesmo quem liga a TV e assiste ao programa ou procura outros interesses. Nem por isso, deixa de ser surpreendente.

Se a curiosidade infantil, parte importante do aprender sobre si mesmo, sobre o outro e sobre o mundo, é abertura para a descoberta de si e anúncio da vontade de saber, existem espaços a serem preservados.

Big Brother, paparazzi, celulares, Nextel: os gadgets variam, mas é sempre possível olhar por dentro de vidas alheias, ou ser olhado. Em tempos de blogs, Twitter, Facebook, será que a dimensão da privacidade se perdeu? Ou, assim como nos diários de antigamente, os atuais diários virtuais também permitem que o autor tenha a chave que os abre? A chave do cofre pessoal é bem a ser preservado no mais íntimo de cada um.

Marci Dória Passos, psicanalista
Texto do livro A Escola Entre Mídias, escrito por Erika Werneck e Marinete D’Angelo, e publicado pela MultiRio em 2011

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