20 Agosto 2016
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Sandra Pires e Jacqueline Silva, do vôlei de praia: primeiro ouro olímpico feminino (Foto: Joel Robine / AFP)

Nas quadras, nos gramados, nas pistas, é cada vez mais difícil negar: lugar de mulher é no pódio. Se, na Antiguidade, já foram proibidas de praticar – ou até de assistir – competições, hoje elas tornaram-se protagonistas no esporte. Há 20 anos, em 30 de julho de 1996, nos Jogos de Atlanta (Estados Unidos), Sandra Pires e Jacqueline Silva celebravam o então maior feito feminino do Brasil na competição: a conquista do ouro olímpico, em uma final inédita entre duplas brasileiras no vôlei de praia. Uma data que remete à bela trajetória feminina nos Jogos.

A conquista de 1996 representou uma grande mudança na conjuntura da mulher no esporte brasileiro. Em 64 anos de participação nos Jogos Olímpicos, desde as primeiras braçadas da nadadora paulista Maria Lenk nos Jogos de Los Angeles (Estados Unidos), nenhuma brasileira havia ainda conquistado qualquer medalha.
Com o triunfo inédito, como constatou o historiador Paulo Nascimento, essas mulheres contribuíram para que, no Brasil, o sexo feminino também fosse considerado digno da prática esportiva, contrariando um preconceito que vinha de longa data.

Atualmente, as mulheres são destaque em diversas modalidades, têm seus nomes completamente associados aos esportes que praticam e tornaram-se grandes ídolos.

Histórico

Nos tempos da Grécia Antiga, apenas homens podiam competir nos Jogos Olímpicos. Naquela época, pensava-se que as mulheres deveriam andar cobertas dos pés à cabeça, para não serem vistas, e, por isso, não poderiam participar das competições porque teriam que se expor. Acreditava-se, ainda, que o corpo feminino era condicionado para a maternidade, que a mulher era muito delicada e frágil e deveria restringir-se à vida doméstica.

Foto: Adrian Dennis / AFP

Mais de 1.500 anos depois, em 1896, na primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, idealizada pelo francês Pierre de Coubertin (conhecido como Barão de Coubertin), na Grécia, as mulheres ainda eram proibidas de participar das disputas. De acordo com Coubertin, contrário à participação feminina, “a glória de uma mulher viria através do número e da qualidade dos filhos que produzisse. Até onde concerne o esporte o papel da mulher é de encorajar seus filhos para vencer. A ela não cabe bater recordes”. O francês afirmou ainda que uma “olimpíada feminina seria impraticável, desinteressante, antiestética e incorreta”.

Apesar disso, em 1900, em Paris, as mulheres faziam sua primeira participação nos Jogos, nos torneios de golfe e de tênis. Na ocasião, eram 22 mulheres para 975 homens.

Maria Lenk, a primeira mulher a representar o Brasil

O Brasil estreou na competição em 1920, nos Jogos de Antuérpia (Bélgica), mas foi apenas em 1932, em Los Angeles (Estados Unidos), que a primeira atleta do sexo feminino participou dos Jogos: a nadadora paulista Maria Emma Lenk.

Apesar de não conseguir medalhas, a participação de Maria Lenk foi memorável. Além de ter sido a primeira mulher brasileira, ela foi também a primeira sul-americana a participar do torneio.

Em 1936, outra nadadora, a carioca Piedade Coutinho, representou o Brasil. Ela também disputou a competição nos anos de 1948 e 1952, e, apesar de não ser tão reconhecida como a atleta paulista, é um dos grandes nomes da natação feminina brasileira.

Time de basquete: bronze em Sidney no ano de 2000 (Foto: Timothy A. Clary / AFP)

Assim como Maria Lenk, outras três esportistas também foram as únicas representantes femininas em delegações brasileiras em Jogos Olímpicos: Mary Dalva Proença, nos saltos ornamentais, em Melbourne (1956); Wanda dos Santos, representante do atletismo em Roma (1960); e Aída dos Santos, também do atletismo, em Tóquio (1964).

Naqueles tempos, algumas modalidades eram proibidas de ser praticadas por mulheres. Um dos fatores determinantes para o crescimento da presença feminina nos Jogos foi a introdução de novas disputas, com separação por gênero, nas modalidades esportivas que integravam o evento. O basquete, por exemplo, presente desde Berlim (1936), abriu espaço para as mulheres somente nos Jogos de Montreal, em 1976. Outro exemplo é o judô, que deixou de ser uma competição olímpica exclusivamente masculina a partir de 1992, em Barcelona.

A participação feminina brasileira aumentou, principalmente, a partir dos anos 1980, com a presença da equipe de vôlei, e cresceu expressivamente na década de 1990, com a classificação inédita das equipes de basquete e handebol.

Atlanta (1996) e a primeira medalha olímpica feminina

Os Jogos de Atlanta (Estados Unidos) foram marcantes para a trajetória das mulheres do Brasil na competição. Uma final inédita entre duplas brasileiras no vôlei de praia, em que Sandra Pires e Jacqueline Silva conquistaram o primeiro ouro olímpico feminino. A prata ficou com Adriana Samuel e Mônica Rodrigues.

Naquele mesmo ano, as medalhas femininas vieram em todas as cores. O time de basquete, liderado por “Magic” Paula, Hortência e Janeth, levou a prata; e a equipe de vôlei, de atletas como Ana Moser, Virna e Fernanda Venturini, conquistou o bronze.

Fernanda Oliveira e Isabel Swan celebram o bronze em Pequim (Foto: Don Emmert / AFP)

E era apenas o começo de uma história de superação e vitórias femininas nos Jogos. Se em esportes de duplas ou coletivos o Brasil já havia subido ao pódio, foi apenas em Pequim (2008) que as primeiras medalhas individuais vieram, com Ketleyn Quadros – bronze no judô; Maurren Maggi – ouro no salto em distância; e Natália Falavigna – que garantiu o bronze no taekwondo.

Ainda em Pequim, somaram-se a essas conquistas o ouro no vôlei, a prata no futebol e o bronze para Isabel Swan e Fernanda Oliveira, na vela. As mulheres foram responsáveis por duas das três medalhas de ouro, e seis das 15 totais.

Em Londres (2012), pode-se destacar entre as conquistas brasileiras o ouro inédito feminino no judô, com Sarah Menezes, e a medalha também inédita no pentatlo moderno – o bronze da pernambucana Yane Marques.

Destaques femininos nos Jogos Paralímpicos

Adria Santos: maior medalhista feminina paralímpica do Brasil (Foto: Jeff Haynes / AFP)

Os Jogos Paralímpicos aconteceram pela primeira vez na cidade italiana de Roma, em 1960. O Brasil fez sua estreia em 1972, em Heidelberg (Alemanha), mas as mulheres só integraram a delegação brasileira na edição seguinte, em Toronto (Canadá). Beatriz Siqueira, que competiu na natação e no lawn bowls (um tipo de bocha sobre grama), e Maria Alvares, no tênis de mesa e no atletismo, foram as primeiras representantes brasileiras nos Jogos.

As primeiras medalhas conquistadas por mulheres vieram em 1984, quando os Jogos foram disputados em duas cidades-sede, Nova York (Estados Unidos) e Stoke Mandeville (Inglaterra). A atuação feminina foi um sucesso. Márcia Malsar (200 metros rasos), Amintas Piedade (arremesso de peso e lançamento de dardo 1C), Maria Jussara Mattos (natação) e Miracema Ferraz (arremesso de peso 1A) garantiram o ouro para o Brasil. Com mais cinco medalhas de prata conquistadas em provas de natação e no slalom, Miracema foi a primeira atleta brasileira a conquistar seis medalhas em uma edição dos Jogos Paralímpicos.

Ao todo, nessa edição, o Brasil obteve 28 medalhas, das quais 23 foram conquistadas por mulheres. De um total de sete ouros, cinco vieram por mãos femininas. Até então, a participação do Brasil nos Jogos só havia rendido uma prata, em 1976, no lawn bowls, por Robson Almeida e Luiz Carlos Costa.

Ao longo dos anos, outras mulheres brasileiras ganharam destaque mundial por seus feitos paralímpicos. Um exemplo é a velocista Ádria Santos, que até hoje tem seu nome na história do esporte paralímpico brasileiro como a maior medalhista feminina do país, com um total de 13 medalhas conquistadas em seis edições dos Jogos, de Seul (1988) até Pequim (2008).

Novas conquistas e a luta pela igualdade

A edição dos Jogos Olímpicos de Londres (2012) trouxe dados e números memoráveis da participação feminina no torneio. Naquele ano, de maneira inédita, todas as 205 delegações tinham mulheres em sua composição. Além disso, todas as modalidades olímpicas foram disputadas por mulheres.

Outro dado interessante é que duas das maiores potências esportivas, Estados Unidos e China, tiveram superioridade feminina em suas delegações.

Sarah Menezes comemora após vencer a romena Alina Dumitru e conquistar o ouro em Londres (Foto: Adrian Dennis / AFP)

Ficou evidente que as mulheres ganharam notoriedade e já são protagonistas no esporte, mas elas ainda lutam para conquistar e consolidar a igualdade – de direitos, oportunidades, tratamento e até mesmo de salários e gratificações.

Segundo Ana Miragaya, doutora em Estudos Olímpicos, em As Mulheres nos Jogos Olímpicos: Participação e Inclusão Social, o patrocínio sempre foi um fator decisivo para a participação da mulher atleta nos Jogos Olímpicos. De acordo com ela, “nem todas as mulheres tiveram ou têm a credibilidade e o apoio dos comitês locais e dos patrocinadores”, diferentemente dos atletas masculinos, que “têm mais credibilidade devido à tradição, portanto, conseguem mais oportunidades”.

Em 2016, os Jogos Olímpicos contam com 306 provas com medalhas, sendo 136 femininas, 161 masculinas e 9 mistas, em 42 modalidades. Nos Paralímpicos, são disputadas 528 medalhas, sendo 226 femininas, 264 masculinas e 38 mistas, em 23 modalidades esportivas.

Ainda há um número maior de vagas para homens, que, no caso olímpico, por exemplo, têm mais categorias no boxe (dez a três), mais equipes no futebol (16 a 12), entre outros.

O cenário parece está melhorando, mudanças estão sendo vistas – e comemoradas! –, mas ainda há um caminho longo a percorrer.

 

 

Fontes: 

MIRAGAYA, Ana. As mulheres nos Jogos Olímpicos: participação e inclusão social. In: RUBIO, K. Megaeventos esportivos, legado e responsabilidade social. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007. p. 229-231.

Oliveira, G.; Cherem, E.H.L.; Tubino, M.J.G. A inserção histórica da mulher no esporte. Revista Brasileira de Ciência & Movimento, Rio de Janeiro, n. 2, v. 16, p. 117-125, 2008.

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