Heitor Villa-Lobos

Compositor, maestro e instrumentista carioca de renome internacional, Villa-Lobos uniu a música popular à erudita em um período no qual a sociedade desprezava a cultura da rua. Entre tantas outras proezas, imprimiu brasilidade às suas composições, quando o padrão era a música estrangeira.

Para homenageá-lo, o Dia Nacional da Música Clássica é comemorado em 5 de março – mesma data do seu nascimento, há 130 anos.

Tuhú, como era conhecido na infância, nasceu em 1887, na Rua Ipiranga, bairro de Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro. O pai, músico amador, trabalhava na Biblioteca Nacional e era autor de livros didáticos. A mãe cuidava da casa e dos sete filhos, mas também trazia consigo uma tradição musical – o avô de Villa tinha o hábito de frequentar festas na companhia de músicos populares. Não à toa, as noites de sábado na casa da Rua Ipiranga reuniam artistas conhecidos para tocar até altas horas.

Heitor aprendeu violoncelo com o pai, aos 6 anos e, logo depois, clarineta. Nessa mesma época, uma tia apresentou-lhe as composições de Johann Sebastian Bach (compositor alemão que serviu de inspiração para a posterior criação de uma de suas obras mais importantes – as nove Bachianas Brasileiras, entre 1927 e 1930). Ainda durante a infância, mudou-se temporariamente com a família para o interior de Minas Gerais e, lá, conheceu as modas caipiras.

Ao voltar para o Rio de Janeiro, interessou-se pelo choro, gênero musical que artistas populares tocavam nas ruas e praças da cidade. Seus pais não aprovavam essa aproximação porque consideravam essas pessoas marginais à sociedade. Mesmo assim, ele treinava o violão – instrumento muito usado nesse estilo musical. Com a morte do pai, o garoto começou a fugir de casa para frequentar as rodas de choro, onde fazia acompanhamento com o violão. Tinha, nessa época, apenas 12 anos. Com o tempo, tornou-se amigo de “chorões”, como João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense.

Ainda na adolescência, Villa-Lobos estudou composição com os professores Frederico Nascimento e Agnelo França, mas tinha como característica contrariar as regras aprendidas.

Em busca do Brasil

Aos 18 anos (1905), viajou pelos estados do Espírito Santo, da Bahia e de Pernambuco, passando temporadas em engenhos e fazendas, buscando conhecer o folclore local. Após essa temporada, repetiu a experiência em outros estados do Norte e do Nordeste durante três anos.

Em 1913, casou-se com a pianista Lucília Guimarães e começou a apresentar as próprias composições no Rio de Janeiro, sendo mal recebido pelos críticos. Anos mais tarde, falou sobre o assunto:

“Não escrevo dissonante para ser moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo é consequência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil. Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras e procurei um ponto de apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas ideias.”

Na década de 1920, compôs 14 obras intituladas Choros, nas quais misturava música urbana com modernas técnicas de composição, e participou da Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. Logo depois, viajou a Paris e, com a ajuda de artistas europeus, divulgou suas composições em diversos países. Durante essa viagem, o compositor ficou extremamente tocado pela Sagração da Primavera, de Stravinsky. Disse ao poeta Manuel Bandeira que ouvi-la tinha sido a “maior emoção musical de sua vida”. Em 1927, em uma segunda temporada parisiense, muitos artistas renomados frequentaram a feijoada que oferecia em sua casa aos domingos.

Educação musical

Villa-Lobos acreditava na necessidade do ensino da música como parte integrante da educação. E não ficou apenas na teoria. Em 1930, apresentou e implantou um projeto de educação musical na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Dois anos depois, Anísio Teixeira, Secretário de Educação e Cultura do Distrito Federal (Rio de Janeiro), convidou-o para dirigir a Superintendência de Educação Musical e Artística, que introduziu o ensino da música e do canto coral nas escolas públicas. Nesse período, separou-se de Lucília para casar-se com Arminda Neves de Almeida, uma ex-aluna. Nunca teve filhos.

Com Arminda, com quem se casou no final da década de 1940

Com o apoio de Getúlio Vargas durante a ditadura do Estado Novo, organizou diversas concentrações orfeônicas (eventos de canto coletivo amador), que chegaram a reunir até 40 mil estudantes sob sua regência.

Hermínio Bello de Carvalho, compositor e produtor musical, tem memórias pessoais dessa fase: “No campo do Vasco, num dia 7 de setembro (e me lembro como se fosse agora), apareceu a figura do maestro no meio do campo, sobre um palanque improvisado. Vi-o tão longe! Eu era um entre milhares de outros meninos e toda aquela balbúrdia cessou como por encanto quando o maestro ergueu os braços. Não, eu ainda me recusava a acreditar, ele não conseguiria, éramos muitos. Um coro magnífico, como um estrondo, ecoou no estádio. Eu mesmo me surpreendi cantando, atônito, e para mim não havia mais ninguém ali senão aquele feiticeiro de tantas lendas, um deus com o visível milagre exposto e presenciado por milhares de crianças além de mim. Lembro que meus olhos de menino ficaram turvos e dourados.”

Heitor Villa-Lobos criou também o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, que tinha como um de seus objetivos formar candidatos ao magistério nas escolas primárias e secundárias.

A convite do maestro Werner Janssen, realizou uma turnê pelos EUA em 1944. A partir daí, retornou várias vezes ao país, consolidando sua consagração internacional, a ponto de ser objeto de um editorial elogioso no jornal The New York Times ao fazer 70 anos.

Em 1959, Villa-Lobos morreu no Rio de Janeiro em decorrência de um câncer. Um acervo com cerca de 1.500 composições, filmes, fotos e outros materiais referentes a sua vida e obra encontra-se reunido no Museu Villa-Lobos, um sobrado do século XIX, na Rua Sorocaba, 200, em Botafogo.

O nome de Heitor Villa-Lobos foi incluído no Livro de Heróis e Heroínas da Cidade do Rio de Janeiro, uma homenagem às personalidades históricas que contribuíram para a formação e o desenvolvimento da cidade.