Traje completo, apenas para pedalar (Fonte: modadesubculturas.com.br)

Levou tempo para que as mulheres tivessem direito a se exercitar e praticar esportes no Rio de Janeiro. Apesar da vocação vanguardista da cidade, que já foi capital federal, e do clima propício a atividades ao ar livre, muitas convenções e preconceitos precisaram ser derrubados ao longo dos séculos XIX e XX. A partir de fontes consultadas em jornais e revistas da época, além de livros de memorialistas, historiadores conseguem reconstituir as tensões que, embora sem líderes de movimento, culminaram com a garantia de igualdade entre homens e mulheres no direito à saúde, ao esporte e ao lazer. Mas ainda falta muito a ser feito. No esporte profissional, nem sempre elas são reconhecidas e remuneradas tão bem quanto eles. O futebol é um bom exemplo disso.

Mulheres na arquibancada

O primeiro esporte a fazer sucesso no Rio de Janeiro foi o turfe. Entre 1810 e 1840, já existiam corridas de cavalos na Praia de Botafogo, com boa afluência de público e presença de autoridades. O marco fundamental foi a criação do Club de Corridas, em 1849, depois do que a cidade chegou a ter cinco hipódromos em funcionamento simultaneamente. Até hoje, o Grande Prêmio Brasil, criado em 1933, é realizado no Hipódromo da Gávea como um evento da alta sociedade. Sendo o turfe considerado uma prática aristocrática e familiar, no começo as mulheres eram admitidas apenas para assistir aos páreos, mas há registros de que algumas, consideradas excêntricas, chegaram a disputar provas como jóqueis no Prado Fluminense e no Derby Clube.

Mulheres esgrimistas (Fonte: stagecombat.com)

A questão do pudor se complicou quando o olhar feminino se voltou para a praia, um espaço mais democrático e que muito interessava à classe burguesa em formação. Uma esparsa imprensa feminista fazia circular temas como o direito ao voto, à educação profissional e à liberdade de decisão sobre o próprio corpo. Mesmo na Europa, referência de tendências socioculturais inovadoras, o banho de mar era cercado de tabus. Diz o historiador Victor Andrade de Melo: “No Brasil dos anos 1860-1880, as mulheres ‘de respeito’ deveriam tomar banho de madrugada, ainda sem sol, em separado dos homens e usando uma indumentária muito pesada e rigorosa”. 

Na virada do século, no entanto, as mais ousadas já se banhavam no mesmo horário que os homens, nas praias da moda – Boqueirão do Passeio (Centro), Glória, Russel e Flamengo. A exceção suprema era a atriz de teatro Hermínia Adelaide, que, para comoção geral, usava roupas coladas ao corpo. Quando os costumes começaram a mudar, ao fim da primeira década do século XX, revistas populares, como O Malho e Fon Fon, passaram a estampar em suas páginas também imagens de mulheres em trajes de banho.

A nova sociabilidade que crescia nas praias cariocas se estendeu, ainda, para a prática do remo. De início, os nomes femininos se restringiam ao batismo das baleeiras, como eram conhecidos os barcos utilizados nas provas masculinas. A insistência dos clubes de remo em banir as apostas na realização das regatas colaborou para a aceitação das mulheres no círculo dos remadores. Algumas chegaram, inclusive, a ocupar cargos de direção. De qualquer forma, ainda nos anos 1880, umas poucas remadoras estrangeiras se atreviam a se divertir na Baía de Guanabara. Três francesas remavam por puro hobby saindo de Niterói – mademoiselles Massiere, Tribouillet e Vianna –, enquanto as irmãs inglesas de sobrenome Fox preferiam São Cristóvão, que mais tarde teve a praia aterrada.

Uma iniciativa que deu grande impulso ao esporte foi a criação, em 1901, do Grupo de Regatas Feminino da Ilha de Pombeba, situado em frente à Praia de São Cristóvão. Embora de curta existência, o clube chegou a disputar contra as remadoras do Grupo de Regatas Cajuense, que depois se tornou o Clube de Regatas São Cristóvão. Mas, assim como no turfe, as provas aconteciam muito esporadicamente. O mais impressionante é que, ainda na década de 1950, a Confederação Brasileira de Desportos chegou a proibir a realização de provas femininas de remo, alegando o risco implicado na enorme exaustão das participantes ao fim das competições.

Menor resistência

Estranhamente, esgrima, hipismo e tiro ao alvo jamais foram considerados esportes impróprios para mulheres pela alta sociedade carioca. Ao contrário, eram tidos como ingredientes para a boa educação das moças e como símbolo de distinção social. Existente nas escolas militares desde os primeiros anos do século XIX, a esgrima passou a ser oferecida também às mulheres nas agremiações esportivas como o Clube Ginástico Português, fundado em 1868. No entanto, as atletas não podiam participar de disputas em público. Diferentemente do hipismo, que admitia mulheres nas provas de equitação e já dispunha de três centros dedicados ao esporte na virada do século. Quanto ao tiro, havia provas exclusivas para mulheres e bastante valorizadas na imprensa, que considerava o esporte valioso instrumento de autodefesa.

Rio Cricket Club, em 1908, e escudo do clube (Fonte: cidadesportiva.wordpress.com)

Três outras modalidades estiveram ligadas à comunidade britânica: “jogos atléticos” e “corridas a pé” – que deram origem ao atletismo – e críquete. Para incentivar sua prática, foi importante a fundação do Rio Cricket Club, em Botafogo, em 1872, que oito anos mais tarde se transferiu para a Rua Payssandu, no Flamengo, e mantinha instalações para que todos esses esportes estivessem acessíveis também para o público feminino. Até membros da família real brasileira aderiram ao clube. Competições de natação – que só começou a ter mulheres em destaque a partir dos anos 1920 – e de ciclismo, contudo, ficavam restritas aos homens.

O alto custo de importar de Paris um “cavalo de ferro” ou um “velocípede”, como eram conhecidas as bicicletas, fazia do lazer sobre duas rodas uma exclusividade para os mais abastados na década de 1860. O Clube de Regatas Vasco da Gama, aliás, foi fundado em 1898 por um grupo de comerciários interessados, a princípio, no ciclismo, mas que acabou optando pelo remo, dado o preço das bicicletas. Mesmo antes da fundação de clubes específicos, torneios ciclísticos já eram disputados nas dependências de locais destinados à patinação, como o Boat Club ou o Rink Club. Tirando as corridas exclusivas para crianças, no entanto, não há registro de competições femininas no Velódromo Nacional , que ficava na Rua do Lavradio, inaugurado em 1896 pelo Velo Club do Rio de Janeiro.

Dama no Hipódromo da Gávea, em 1945 (Foto: Kurt Klagsbrunn/obrasdarte.com)

Na sequência surgiram o Velódromo Guanabara, na Praia de Botafogo; o do Touring Club, na Rua do Catete; e o Club Athletico Fluminense, na Tijuca. Outra agremiação, chamada Frontão Velocipédico Fluminense, inovava em termos de provas ciclísticas, com páreos em tandens, ou bicicletas de dois assentos, que eram mistas, das quais as senhoritas participavam “elegantemente vestidas” diante de um público que podia superar seis mil pessoas.

Nessas ocasiões, e também nos passeios, as moças deviam usar os chamados “costumes de biciclistas”, que eram os modelos de roupas utilizados pelas parisienses e recomendados nas colunas de moda cariocas. Afinal, os passeios deviam ser entendidos como uma ocasião de expressar a beleza, a elegância e a delicadeza. Apesar do consenso sobre as limitações do papel da mulher na sociedade carioca do século passado, alguns visionários foram precursores em relação à mudança dos tempos. No dia 1º de janeiro de 1913, o Jornal do Brasil publicou uma matéria com o título O que serão as moças em 1913, na qual afirmava que a prática de algumas modalidades poderia mesmo “aperfeiçoar as suas belezas físicas, apurando-lhes as linhas esbeltas e vigorosas”.

Para voltar ao futebol, os primeiros clubes femininos – Cassino Realengo, SC Brasileiro e o Eva Futebol Clube – só vieram a ser fundados no Rio de Janeiro na década de 1940. O Canarinhos Futebol Clube, que se formou na Ilha do Governador, em 1965, chegou a ser proibido pela Confederação Nacional de Desportos em 1968, no auge da ditadura militar. A liberação oficial para o exercício da atividade demorou bastante e as mulheres só foram autorizadas a voltar a jogar bola em 1979.

Fontes:

MELO, Victor Andrade de Melo. Mulheres em Movimento: a Presença Feminina nos Primórdios do Esporte na Cidade do Rio de Janeiro (até 1910). In: Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 27, nr. 54, p. 127-152, 2007.

MELO, Victor Andrade de Melo; SCHETINO, André Maia. A Bicicleta, o Ciclismo e as Mulheres na Transição dos Séculos XIX e XX. In: Estudos Feministas. Florianópolis, 17(1): 296, jan-abr/2009.

SCHETINO, André Maia. O Rio dos Cavalos de Ferro. In: Revista de História.com.br. 2/6/2008

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