11 Agosto 2017
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Marc Prensky afirma que não se deve subestimar a garotada de hoje em dia (Foto: Divulgação)

Compaixão, experimentação, raciocínio financeiro. A convergência entre noções tão distintas faz todo o sentido na fala de Marc Prensky, para quem o estímulo a essas e outras habilidades deve ser o real papel da escola, uma vez que tudo o mais, em termos de conteúdo, há tempos já está acessível a partir de uns poucos cliques de navegação on-line. Adotando a expressão cunhada pela educadora e compatriota Zoe Weil, o pesquisador norte-americano chama a nova geração de “os solucionários”, afirmando que somente com uma visão atualizada da Educação será possível contribuir para a formação de uma sociedade capacitada a enfrentar os desafios do terceiro milênio. Prensky, que se define como um observador, compartilhou inúmeros estudos de caso com o público de uma concorrida palestra magna, concedida durante o evento Educação 360 Tecnologia, realizado em 7 de agosto no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. 

Caso suas previsões se concretizem, não terá sido a primeira vez que Marc Prensky confirma seu pensamento de vanguarda: vinte anos atrás, foi ele quem forjou o conceito de “nativos digitais”, rapidamente disseminado pelo mundo inteiro. “Não se trata de consertar a educação de hoje, adicionando tecnologia, criatividade e competências socioemocionais. É necessária uma mudança no nível civilizatório”, afirma. Embora saiba que o processo vai ocorrer muito devagar, ele acredita que cabe aos pais e professores auxiliar os que estão nascendo hoje a ser tudo aquilo que desejam. “Eles farão coisas com que nem sequer sonhamos!” 

Capa do novo livro do escritor (Foto: Divulgação)

O educador, que iniciou a carreira como professor no bairro nova-iorquino do Harlem, sugere não pensar mais apenas em termos de uma grade curricular rígida, que hoje deveria abrir espaço à aprendizagem de “competências para toda a vida”, com destaque para a capacidade de realização, que tanto eleva a autoestima. Prensky acredita que as crianças e os adolescentes têm um cérebro estendido e conectado, o que faz com que sejam mais empoderados e consigam colaborar entre si de uma maneira até então impossível. “Não adianta tentar imitar a Finlândia, ou criar turmas menores, nem aumentar o contato com a tecnologia ou estimular as competências socioemocionais, porque existe uma muralha entre a visão da escola tradicional e esta nova visão, que está emergindo.” 

Apóstata dos rankings internacionais de aferição, Marc Prensky afirma que não existe correlação entre ter boas notas na escola e sucesso profissional na vida adulta: o que conta, inclusive para o mercado de trabalho, são os projetos realizados. “Os garotos já estão fazendo isso e cabe a nós ajudar”. Nesse sentido, recomenda que, ao menos uma vez por semana, seja ofertada a experiência de conectar o aluno com um projeto comum, para depois mensurar o efeito positivo sobre a realidade.

Inspiração é o que não falta no banco de dados reunido ao longo dos últimos anos e disponível na página de Prensky na internet, que, inclusive, aceita contribuições em forma de novos relatos. No projeto Color My World, estudantes recolhem os lápis de cera usados por crianças nos restaurantes – quem nunca pintou ou ajudou a pintar um forro de bandeja? – e doam a escolas com poucos recursos. Aos 12 anos de idade, um grupo de meninas não apenas quis fazer uma prótese de mão com uma impressora 3D como, também, localizou o menino amputado beneficiado utilizando o Facebook. Para combater o bullying, que Prensky descreve como alarmante nos Estados Unidos, uma turma criou o aplicativo Sit With Us, no qual qualquer aluno pode fazer a reserva de uma mesa segura pré-identificada em sua escola. Três irmãos de uma família negra que sofreu abordagem abusiva da polícia dentro de casa desenvolveram o aplicativo Five-O, que já está no Google Play, por meio do qual é possível dar nota a policiais. Outro grupo inventou um programa para celulares e smartphones no qual sensores sonoros são acionados automaticamente diante de situações de violência doméstica, ligando para a polícia.

“Isso é só o começo”, garante Prensky. “Não estou sozinho, mas só reunindo ideias que surgem de todas as partes. Educar é estimular a fazer algo para melhorar o mundo agora, na vizinhança e na sociedade em que se vive. Essa deveria ser a meta da Educação. Existe mais de uma tradição de transmissão de conhecimento, como aquela que estabelece o vínculo entre mestre e aprendiz, presente até hoje nos locais de trabalho, por exemplo. Pensar não é o suficiente. Precisamos de ações efetivas”, finaliza.

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