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Ruas do Rio
26 Outubro 2017
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Praça Floriano, mais conhecida como Cinelândia. Foto Cláudio Lara, Flickr, Creative Commons

Com um cenário de rara beleza arquitetônica, repleto de imponentes edificações em estilo eclético e art deco, a Praça Floriano tem sido, desde a década de 1930, palco de importantes manifestações políticas do Rio de Janeiro. É também o logradouro com o maior número de instituições culturais da cidade: o Museu Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional, o Centro Cultural Justiça Federal, o Theatro Municipal e, é claro, os cinemas – ali já foram tantos! – que acabaram rebatizando, informalmente, a praça com o nome pelo qual ela é mais conhecida: Cinelândia.

Cinelândia, aliás, não é a única designação informal que o lugar já teve. No último quarto do século XVIII, a área era popularmente chamada de Largo da Mãe do Bispo, por ser onde morava dona Ana Teodora, mãe de D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco, bispo do Rio de Janeiro entre 1775 e 1805. O apelido pegou tanto que, em meados do século XX, ainda havia quem se referisse assim à Praça Floriano. Nos idos dos anos 1920, 1930 e 1940, também era comum se referir à Cinelândia e seu entorno como Bairro Serrador, em alusão ao sobrenome do empresário que inaugurou, na região, várias salas de cinema, além de hotel, teatros e casas noturnas.

Da série Esse Lugar Tem História

O primeiro nome oficial da área onde fica, hoje, a Praça Floriano foi Campo (ou Largo) da Ajuda, assim chamado devido à ermida em louvor à Nossa Senhora da Conceição da Ajuda, erguida ali logo após a expulsão dos franceses da Baía de Guanabara.

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O grande prédio que se vê à esquerda do Morro do Castelo é o Convento da Ajuda. Richard Bates, 1809, domínio público

Até o primeiro quarto dos anos 1700, era um lugar deserto e distante da cidade, pois o centro urbano havia crescido no sentido oposto, para o lado da Rua Direita (atual Primeiro de Março). Mas, com a construção, em 1739, do Seminário Episcopal de São José, nos fundos da Capela da Ajuda, e a inauguração, em 1750, do Convento da Ajuda, transformações no cenário do Largo começaram a acontecer.

Transformações

Nessa época, o Rio de Janeiro crescia aceleradamente por ser o porto de escoamento do ouro mineiro. Discussões sobre o saneamento se tornaram pauta permanente em razão das pestes que assolavam a população. A Lagoa do Boqueirão, que começava nas proximidades do Largo da Ajuda e se estendia até a Lapa, era considerada a maior fonte de transmissão de doenças da cidade, e seu aterro, na última década do século XVIII, mudou a feição do lugar.

Sobre uma parte do aterro da lagoa foi construído o Passeio Público, o primeiro espaço de lazer do Brasil. Com vastos jardins projetados por Mestre Valentim, logo se transformou na área de recreação predileta da “boa sociedade” carioca. Ainda na década de 1790, no pátio do Convento da Ajuda, foi instalado o Chafariz das Saracuras, também de Valentim. Com o aterro, o Passeio e o acesso fácil à água potável, o Largo se transformou numa área privilegiada da cidade.

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A Rua da Ajuda, também chamada de Ladeira do Seminário. Foto Augusto Malta, BN Digital, domínio público

A Rua da Ajuda, que margeava o Morro do Castelo pela encosta voltada para atual Avenida Rio Branco, também exerceu papel importante na trajetória do lugar. Por desaguar no largo de mesmo nome, confundia-se com ele e emprestava-lhe seu movimento e suas características. Além da presença do Seminário de SãoJosé, nessa rua moraram vários artistas – como o francês Jean-Baptiste Debret – e vários políticos – como o capitão-mor José Joaquim da Rocha, em cuja residência foi arquitetado o movimento que culminou no Dia do Fico. Aliás, na mesma via também ficava a casa do deputado Padre Custódio Dias, uma espécie de quartel-general da oposição exaltada, que pregava a abdicação de D. Pedro I.

Na segunda metade do século XIX, a Rua da Ajuda ainda abrigava escolas importantes, como a Sociedade Amante da Instrução – voltada para o ensino de crianças de baixa renda – e o Colégio Aquino, onde estudou o escritor e engenheiro Euclides da Cunha. Era também endereço do Hotel Brisson e o seu Teatro Jardim da Flora, depois rebatizado de Phênix Dramática, um dos mais populares da época, por oferecer repertório de operetas e cançonetas cantadas em português, e colocar em cena personagens carnavalescos, como o Zé Pereira.

Suntuosidade francesa

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A Avenida Central após sua inauguração, ainda com o Convento da Ajuda, demolido em 1911. Álbum do Rio de Janeiro, BN Digital, domínio público

Com a inauguração da Avenida Central, em dezembro de 1905, via aberta para ser o principal cartão-postal do Rio de Janeiro, o Campo da Ajuda virou Praça Floriano e ganhou os ares afrancesados tão almejados pela jovem república brasileira. A abertura da via implicou a demolição de parte do Morro do Castelo – e de quase toda a Rua da Ajuda –, além da construção de novos prédios capazes de dar à cidade feições de uma Paris tropical.

A primeira edificação ali instalada foi o Palácio Monroe, uma bela estrutura metálica desmontável, feita para sediar o Pavilhão Brasil na Exposição Mundial de Saint Louis, ocorrida em 1904, no Missouri, EUA. Após vencer o principal prêmio de arquitetura da feira, a estrutura foi desmontada e reinstalada na  confluência das praças Floriano e Mahatma Ghandi, em 1906, para sediar a Conferência Pan-Americana. Foi nesse evento que a “teteia de açúcar branco” – apelido dado pelo Jornal do Commercio – ganhou o nome de Monroe para homenagear o antigo presidente dos Estados Unidos que pregava “a América para os americanos”. O palácio teve muitas missões até sua demolição, na década de 1970, entre elas a de Câmara dos Deputados e a de Senado Federal.

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O Monroe, um palácio em estrutura metálica desmontável, premiado na Feira de Saint Louis (EUA), em 1904. Reinstalado na Cinelândia, teve vários usos, entre eles o de sede do Senado Federal. Álbum de fotografias do Distrito Federal, BN Digital

Em 1908, a Praça Floriano ganhou mais um prédio: o da Escola Nacional de Belas Artes (transformada em museu em 1937). Em 1909, foi inaugurado o suntuoso Supremo Tribunal Federal (que, com a transferência da capital para Brasília, passou a funcionar como Centro Cultural da Justiça). Ainda em 1909, com projeto arquitetônico inspirado na Ópera de Paris, o luxuoso Theatro Municipal do Rio de Janeiro abriu suas portas para o público. No ano seguinte, foi a vez da Biblioteca Nacional.

No início da década de 1910, a Praça Floriano estava, enfim, transformada no mais nobre logradouro da capital federal. O cenário de construções suntuosas seria completado em 1923, com a inauguração da sede da Câmara Municipal – na época apelidada de Gaiola de Ouro, devido ao luxo excessivo de suas instalações.

Mudança de paradigma

Na década de 1920, o visionário empresário espanhol Francisco Serrador, que já havia construído uma rede de parques e estabelecimentos de diversão no Paraná e em São Paulo, aliou-se a alguns empresários do Rio de Janeiro. O objetivo era levar a cabo o projeto do Quarteirão Serrador em meio a todos aqueles suntuosos prédios da Praça Floriano. Segundo Paulo Antonio Paranaguá, autor de vários livros e ensaios sobre o cinema latino-americano, tratava-se de um ambicioso empreendimento com a visão utópica de integrar a comunidade urbana por meio da diversão e da convivência. Só que não mais a partir de uma visão de cultura europeizada, mas seguindo o modelo da nova-iorquina Broadway.

Entre os empresários aliados estavam os irmãos Vivaldi e Ademar Leite Ribeiro, que compraram o terreno do Convento da Ajuda para construir modernos edifícios no estilo art nouveau, dotados de infraestrutura de salas de espetáculo. O projeto se materializou com a inauguração de uma série de cinemas, como o Capitólio, o Glória, o Império, o Palácio, o Odeon e muitos outros, à exceção do Pathé, aberto em 1928 pela família Ferrez, que mantinha programação voltada para a produção europeia.

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Praça Floriano em seu período áureo, já transformada em Cinelandia. Álbum do Rio de Janeiro, c.1935, BN Digital, domínio público

Paranaguá afirma que o impacto do Quarteirão Serrador nos costumes da sociedade carioca foi notável, pois incluía cinemas, teatros, night-clubs, bares, restaurantes e até mesmo um hotel – tudo com plataforma americanizada. “A chegada do hot dog foi todo um acontecimento”, conta, em seu artigo A Cinelândia Carioca: uma Utopia Cidadã. O projeto, enfim, promoveu uma verdadeira ruptura na cultura da cidade. E, nesse contexto, a programação europeizada do Theatro Municipal e do Cine Pathé cumpriam papel importante, porque garantiam o ar cosmopolita da praça.

O fato é que os empreendimentos de Francisco Serrador colocaram a Praça Floriano no epicentro da vida cultural do Rio de Janeiro. No seu entorno, foram abertos vários outros cinemas (Rex e Metro, da MGM, entre outros), teatros (como o Rival), bares, restaurantes... Vale lembrar que, naquela época, as salas de exibição costumavam oferecer espetáculos teatrais antes de iniciar a sessão do filme, e que músicos tocavam ao vivo em suas antessalas. Toda essa movimentação fez florescer companhias teatrais, como a de Procópio Ferreira, e grupos musicais como Os Oito Batutas, de Pixinguinha.

Palco de manifestações

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Passeata dos 100 mil. Foto Hamilton Correia, CPDoc JB

Com sua polícia de costumes visando reprimir a vida noturna na região central, onde também se concentravam inúmeros cabarés e inferninhos, Getúlio Vargas deu início ao processo de transferência do polo cultural da cidade para a Zona Sul. Além disso, desde a década de 1940, os exibidores começaram a abrir dezenas de outras salas de cinema pelos mais diversos bairros cariocas. Esses fatos contribuíram para o esvaziamento da Cinelândia como epicentro da vida cultural do Rio de Janeiro, mas coincidiram com o início de grandes manifestações políticas que ali passaram a acontecer.

Em 1942, por exemplo, foi palco da campanha a favor da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, ao lado dos Aliados, contra as forças nazi-fascistas, e, entre 1947 e 1953, das manifestações em defesa da soberania nacional que criaram o slogan “O Petróleo é Nosso”. Em 1967, também foi o ponto culminante da chamada Passeata dos Cem Mil, convocada em protesto contra a ditadura militar e a morte do estudante Edson Luís. Na década de 1980, inúmeras outras manifestações pela redemocratização acabaram consolidando a Cinelândia como espaço de protesto e de expressão política da população carioca.

Apesar dos usos bastante distintos que teve no decorrer dos tempos, a Praça Floriano resguarda algo em comum com aquele momento em que o Largo da Ajuda foi recriado a partir das reformas de Pereira Passos: continua sendo um dos mais belos cartões-postais da cidade, com a diferença de que, agora, sua arquitetura conta muito mais histórias.

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