13 Novembro 2017
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A fachada da escola, localizada no bairro de Bangu (Foto: Alberto Jacob Filho)

Não é de hoje que uma série de iniciativas demonstra e reafirma o poder transformador da arte. A E.M. Henrique de Magalhães (8ª CRE), em Bangu, passou por isso. A unidade é uma das 26 da Rede Pública Municipal de Ensino do Rio que tiveram a oportunidade de se transformar por meio do projeto Ocupa Escola, parceria entre a SME-Rio e a Casa da Arte de Educar que converte escolas municipais em equipamentos culturais públicos.

Diretora da Henrique de Magalhães, Marília Melo de Lucas trabalha na Rede há mais de 30 anos, está à frente da escola desde 2013 e afirma que o projeto foi o que de mais importante já aconteceu na unidade.

“Conseguimos levar certa autonomia aos alunos fora das disciplinas do dia a dia escolar, mostrar que eles têm condição de ir muito além. Descobrimos crianças e jovens que cantam, que interpretam, que jogam. Alguns extremamente tímidos começaram a se soltar, se desenvolver. A escola não é só o momento da sala de aula. É quando o aluno mostra quem ele é e o que pode fazer”, relata a diretora.

O que é e como funciona o Ocupa Escola

O projeto visa capacitar escolas para atuarem como equipamentos culturais, com programação artística gratuita duas vezes por mês: uma focada no público escolar, durante a semana; e outra aberta à comunidade, no final de semana. Ambas são construídas de modo participativo com os alunos e a comunidade.

As escolas tornam-se, também, espaços para a residência de grupos artísticos locais, que ministram oficinas para os estudantes.

As unidades selecionadas para integrar o projeto foram definidas a partir de avaliações dos organizadores e da SME-Rio. Elas estão localizadas nas zonas Oeste, Norte e Centro, em áreas de risco social e reduzido acesso à cultura.

Atualmente, o Ocupa Escola atinge 26 escolas municipais. Desse total, 11 são as chamadas escolas matrizes (uma por Coordenadoria Regional de Educação), que funcionam como centro cultural, abrigando a Ocupação Aberta à comunidade. As outras 15 são escolas parceiras, que também recebem oficinas ministradas pelos grupos artísticos, mas sediam apenas a Ocupação Interna. 

Lista de espaços e escolas atendidas e os respectivos grupos de artistas residentes

 

 O histórico da E.M. Henrique de Magalhães

Fundada em 1966, a escola já viveu momentos maravilhosos no passado, segundo o professor de Educação Física e ex-diretor Cléber Barros da Silva. “Por três décadas, a Henrique de Magalhães foi top de linha de Bangu e de toda a Zona Oeste, teve seu momento áureo. Mas com mudanças na Direção e no sistema de educação, passou por problemas e foi ao fundo do poço”, conta Cléber, que está há 33 anos na unidade. 

Cléber Barros da Silva, professor de Educação Física e ex-diretor da escola, relembra trajetória da Henrique de Magalhães (Foto: Alberto Jacob Filho)

“Houve um processo de ‘derrubada’ e o alunado sofria muito com questões de autoestima. A escola começou a ser malvista pela região e esvaziou, perdemos alunos. Por surgirem tantas vagas, começamos a receber estudantes que não eram ‘tão bons’ na visão de outras escolas, como se aqui fosse um ‘depósito de alunos com problemas’. Tivemos o trabalho dificultado. Não é fácil lidar com alunos ‘dispensados’, mas a gente recebia da melhor maneira possível. Considero nossos professores heróis”, relembra.

Foi então que, em 2015, o Ocupa Escola chegou de maneira definitiva à E.M. Henrique de Magalhães e, na opinião de Cléber, representou um divisor de águas. “Foi um fator preponderante para a retomada da boa escola que sempre fomos. O material cultural do projeto é sensacional. Aproximou os alunos, permitiu-lhes perceber que aqui eles estão bem, acolhidos, que essa é a casa deles e que a linguagem da escola é a linguagem deles.”

Na visão do professor, houve uma mudança no comportamento e na autoestima dos estudantes. “Eles começaram a ter outras perspectivas. Perceberam que Matemática pode não ‘ser a praia’ deles, mas conseguem fazer um rap ou dançar bem, por exemplo. Deixaram de pichar e quebrar a escola. Sentem-se felizes com o projeto e multiplicam a ideia, levando outros colegas a participar.”

Evolução em sala de aula

Michelle Valadão, professora de Inglês e de turmas de correção de fluxo escolar – proposta de reforço a alunos com defasagem idade/série –, conta que, desde o início, buscou uma parceria com o Ocupa Escola. Sempre que trabalhava com uma música ou um poema, por exemplo, compartilhava a temática com o pessoal do projeto e perguntava se era possível trilharem o mesmo caminho. 

Michelle Valadão, professora de Inglês, destaca evolução dos alunos na área de linguagens (Foto: Alberto Jacob Filho)

“O primeiro exemplo de mudança é no ambiente de sala de aula. O fato de o aluno ter sido exposto à arte anteriormente, ter uma vivência, faz com que ele esteja mais preparado para receber a minha aula. Se trabalho Ariano Suassuna, percebo como o aluno que já teve uma experiência em teatro tem um desempenho muito melhor em sala de aula, na leitura e na participação. Se exploro uma música, o aluno integrante de uma oficina nessa área interage mais, se coloca. Em linguagens, percebi uma evolução muito grande”, explica a professora. 

“O diferencial do Ocupa Escola é a lógica de parceria no processo ensino-aprendizagem. Essa complementação é essencial para o trabalho pedagógico. Nós, professores, tentamos levar inovação e criatividade para a sala de aula, mas a estrutura é mais rígida, mais presa à questão disciplinar, com menos liberdade. Então, ter um projeto no contraturno no qual o aluno consiga se soltar, se mostrar e fortalecer sua identidade, se reconhecer como sujeito, é essencial para qualquer escola. Nesse sentido, a valorização da arte auxilia no processo de construção de criatividade e inovação dentro da escola.”

Para Michelle Valadão, apoiar o projeto é abraçar uma área de extrema importância e que é pouco valorizada na nossa estrutura social: a cultura.

“Se você une educação – essa força transformadora – à cultura, como não dar certo? A escola do futuro é a que vai abraçar todas as áreas e reunir todos os atores da sociedade – artistas, professores, alunos e seus responsáveis. Acredito que esse projeto nasce da ideia de ocupar poucas escolas, mas tem um potencial muito grande de abraçar toda a Rede e, aos poucos, transformar a nossa realidade.”

A sensação de pertencimento e a união da comunidade escolar

Diretora da Henrique de Magalhães, Marília Melo de Lucas conta o quanto sempre quis que os alunos gostassem de estar na escola; que, quando desse o horário de ir embora, eles não fossem correndo. “Hoje, eles saem devagar, perguntam se vai haver ocupação, se podem ficar mais tempo para ensaiar. É muito lindo ver um aluno pedindo para ficar no auditório, dizendo que vai cuidar do local e que não haverá sujeira. Isso para mim é emocionante”, diz, comovida. 

Leidimar Alvez Machado, articuladora do Ocupa Escola na E.M. Henrique de Magalhães (Foto: Alberto Jacob Filho)

Outra conquista, segundo ela, é a união entre as turmas do Programa de Educação de Jovens e Adultos (Peja) e as do Ensino Fundamental. “É algo que eu nunca havia conseguido. A turma do Peja do turno da tarde, por exemplo, ficava muito isolada. Pareciam duas escolas em uma. Mas o Ocupa trouxe a oportunidade de unir esses grupos, que interagem de forma muito amistosa. E durante as ocupações, é uma escola única, alunos participam juntos!”

Leidimar Alvez Machado, articuladora do Ocupa Escola na E.M. Henrique de Magalhães, cujo papel é facilitar a comunicação entre os docentes, alunos, artistas e comunidade, aponta, também, a união dos dois turnos da escola como um dos triunfos do projeto. “Havia uma rivalidade muito grande. No início do trabalho, uma aluna da manhã, que estava à tarde na escola, queria ir ao banheiro, mas disse não poder porque estudava de manhã e, se fosse, as meninas da tarde iriam zombar dela. Isso não acontece mais. Um movimento da própria Direção e dos professores conseguiu quebrar a barreira e unir os turnos”, relata Leidimar.

E a aproximação não foi apenas entre os alunos. A partir do projeto, os responsáveis passaram a participar mais das atividades na escola, segundo Marília. “Eles acompanham e se impressionam com o que os filhos fazem. A presença nas reuniões era bem pequena, mesmo sendo realizadas nos finais de semana. Com o Ocupa, pais passaram a me parar até na rua para perguntar sobre as ocupações, sobre ‘o que aconteceu sábado na escola’ e por que o filho não participou”, expõe Marília, que explica aos responsáveis que as atividades acontecem no contraturno e que o aluno precisa se inscrever.

Hábitos culturais e a importância da arte

Observar o grafite feito em uma parede da escola a partir de uma foto do padre Henrique de Magalhães (1884-1964) também diz muito sobre o “novo” comportamento dos alunos, de acordo com a diretora da unidade, que desde 2013 sonhava ver a figura do patrono em destaque, por sua importância e empenho em ajudar os doentes e estimular a educação. 

Marília Melo de Lucas, diretora da unidade, à frente do grafite feito em homenagem ao patrono da escola (Foto: Alberto Jacob Filho)

“Por iniciativa do Ocupa Escola, temos um grafite belíssimo! E o mais importante é que não há pichações ou um bigodinho!”, orgulha-se Marília, destacando essa e outras intervenções artísticas feitas nos muros da escola, inclusive por alunos.

A diretora também lembra como, em seu primeiro ano na escola, o barulho pelos corredores era insuportável e era nítida – e desanimadora – a falta de hábito dos alunos de se manterem em silêncio para assistir a uma peça ou acompanhar uma apresentação poética. “Explicamos que para trabalharmos com teatro, por exemplo, era preciso a colaboração de todos. Hoje, eles ouvem e participam interagindo, aplaudem na hora certa, desenvolveram esse ‘aspecto cultural’.”

Nesse sentido, as oficinas oferecidas pelo Depois do Ensaio (DDE), grupo artístico residente da escola, têm importante papel. Segundo Fabricio Neri, um dos integrantes, as aulas exploram exercícios básicos de concentração, improviso e coordenação motora; conversas e reflexões sobre a sociedade contemporânea; e atividades que estimulam a imaginação e a criatividade.

O artista conta que, no início, os alunos tinham ideias muito distantes de como de fato seriam as aulas. “Eles associavam a interpretação a novelas, cinema, beijo cênico e a enxergavam com olhar machista e preconceituoso”, relembra Fabricio. Mesmo entendendo que não seria fácil, ele apostou que o DDE conseguiria deixar uma mensagem profunda sobre as artes cênicas e afastar as crianças de uma visão negativa da sensibilidade sobre a arte.

Hoje, além da evolução cênica na riqueza de detalhes mostrada em cada aula, o Depois do Ensaio percebe outras mudanças positivas nos alunos, como o comportamento mais participativo em sala de aula – a partir de relatos de professores – e a sensibilidade por meio da arte.

“Sempre deixamos clara a importância do amor na sociedade e o papel da arte como porta-voz disso. A arte nunca volta vazia. O progresso na sensibilidade chega à vida de cada um que tenha passado por esses laboratórios. E é com essa certeza que nós, do grupo, caminhamos. Vi e vejo alunos olhando com profundidade e dando seu melhor em cada cena. E é bom que não seja diferente na vida; afinal, o que fazemos na vida senão compor um espaço com nossa personalidade?”, provoca Fabricio.

“Vejo estudantes com inúmeros e gravíssimos problemas familiares, psicológicos, sexuais, depressivos, criminais, gestantes precoces, que se permitiram viver um momento que não o seu. Atrás de uma personagem, está o aluno: chorando em cena, se expressando com graça, se divertindo.”

A palavra dos alunos

Confira, abaixo, o depoimento de Yago Alonso e Júlia Bispo, dois ex-alunos da E.M. Henrique de Magalhães: 

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