04 Maio 2018
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Karl Marx, 1882

Considerado, atualmente, um dos fundadores da sociologia, Karl Marx, nascido em 5 de maio de 1818, deixou-nos conceitos, teorias e narrativas sobre a sociedade moderna e seus dilemas. Sua obra também está presente nos espaços que estudam a economia e nos currículos de universidades em todo o mundo.

Em 2018, o filósofo está sendo lembrado e festejado de muitas maneiras. Entre elas, a Boitempo Editorial lançou uma história em quadrinhos para apresentá-lo às crianças. A Universidade Federal do Rio de Janeiro dedicará uma edição da revista Praia Vermelha (publicação semestral do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UFRJ) ao tema. A tradicional livraria Leonardo da Vinci, no centro do Rio, está promovendo encontros mensais com acadêmicos; Angelo Segrillo, professor de História Contemporânea da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, lançou, em março, a primeira biografia brasileira sobre ele.

O Portal MultiRio entrevistou Luciano Ximenes Aragão, doutor em Geografia Humana pela USP e professor da Uerj e da PUC-Rio, sobre a atualidade da obra de Karl Marx.

Portal MultiRio: Por que Karl Marx é importante para o século XXI, mesmo para quem não é comunista ou socialista?

Luciano Ximenes Aragão: A obra de Marx é aberta, segundo grande parte de seus estudiosos. Apresenta grande coerência interna com a formulação do materialismo histórico e dialético. Marx, assim como Engels, problematizava as condições do presente, ou seja, a ênfase de suas problematizações era o real, mas este não se reduzia à contemplação ou mera constatação dos conflitos que perscrutavam o momento em que ambos viviam. Estavam postas orientações metodológicas de que a realidade não pode ser autonomizada, e as condições para seu desvendamento absorviam contornos mais expressivos. Ao mesmo tempo, acentua-se a restituição do movimento ao pensamento, a um modo de conhecer particular para aceder à universalidade.

Devemos lembrar que o método materialista histórico e dialético não se desdobra apenas para os pesquisadores e militantes de esquerda, nem mesmo necessariamente “ser marxista é ser comunista ou socialista”. Também não se deve atribuir uma relação automática de “causa e efeito”, atribuindo certa linearidade ao pensamento segundo o qual a dimensão econômica se põe como determinação absoluta, sob pena de empobrecer o legado de Marx e Engels, já que, em alguns momentos, emergem interpretações de que essa concepção de mundo orienta a luta de classes.

Uma abordagem como a desses pensadores é mais ampla: apresenta um caráter que ultrapassa o parcelamento dos saberes: durante muito tempo orientou as pesquisas de antropólogos, cientistas sociais, cientistas políticos, geógrafos, arquitetos, urbanistas etc. Acrescente-se, também, que se trata de uma abordagem que orienta um movimento crítico nas ciências, na forma de conhecer, e ainda tem seus desdobramentos sobre os estudos culturais e em novos campos disciplinares, destacadamente a ecologia política e alguns segmentos da geopolítica contemporânea.

O Capital é a principal obra escrita por Karl Marx

Existe uma certa imprecisão teórica e conceitual de quem atribui a Marx certa determinação sobre o econômico, do qual adviria a luta de classes e a revolução se estabeleceria, cujos modelos utilizados, invariavelmente de forma pejorativa, são aqueles vinculados ao chamado “socialismo real”, do qual os exemplos eram a Rússia e suas repúblicas satélites. Ambas, às quais acrescentaríamos Cuba, são destacadas como exemplos de países em que há um domínio absoluto de governos ditatoriais, como se no restante do mundo reinassem democracias, o que é muito discutível.

PM: Trata-se, então, de um modo de conhecer?

LXA: Sim, por essa razão, deve ser destacada sua contribuição ao ensino e à pesquisa em educação. A título de metodologia de ensino, na qual elejamos o materialismo histórico dialético, necessário se faz pôr relevo, inicialmente, na problematização das contradições, a qual é seguida pela escolha de conceitos e categorias para seu desvendamento. Isto culmina na apreciação e nos questionamentos da realidade, ampliando-se o grau de reflexão, pois voltamos ao real posto no início, agora enriquecido com sua compreensão mediada por conceitos e com novas questões.

Ou seja, o real é o ponto de partida, mas também de chegada, acrescido da ideia de que se deve restituir um movimento ao conhecimento. Isto quer dizer que este não pode ser autonomizado. O real problematizado emerge como materialidade a ser debatida, de modo a pôr em confronto diferentes perspectivas sobre esta materialidade, portanto, momento em que se inicia o movimento dialético. Problematizar esse real é ir em busca de sua gênese, sendo o recurso usado, a história. Eis, assim, como se constitui o movimento colocado no materialismo histórico e dialético.

No que diz respeito à pesquisa em educação, o materialismo histórico de Marx (e de Engels) orientou uma corrente pedagógica, na qual se destacaram, entre muitos outros, Paulo Freire e Demerval Saviani, os quais, em certa medida, partiram da crítica à pedagogia tradicional. Essa corrente foi identificada como pedagogia histórico-crítica. Durante um tempo considerável, a partir do final da década de 1970, essa corrente serviu de matriz para aqueles que se debruçavam sobre a educação.

PM: Quais conceitos elaborados por Marx ajudam a entender o mundo em que vivemos?

LXA: Os escritos de Marx são abertos e não poderia ser diferente, pois a primeira ideia que se deve ter clareza é a de contingência da história. Acreditar na restituição do humanismo, na emancipação da humanidade no sentido lato, é acreditar na liberdade do homem e que qualquer concepção responsável de mundo deve assumir isso como horizonte. Essa era a ênfase colocada nos escritos de juventude de Marx, embora seja temerário apontar um corte epistemológico entre as suas concepções juvenis e as da sua maturidade, pois são os movimentos do real vivido por Marx (e por Engels) que irão marcar a concepção de filosofia da história formulada em seus escritos.

Entre as muitas contribuições teóricas e conceituais elaboradas por Marx, cabe destacar a teoria das crises cíclicas do capitalismo, às quais se adiciona a questão das contradições. Assim, escapamos de recorrentes concepções lineares atribuídas a ele. As contradições do capitalismo levam a crises periódicas, apontando o caráter desumano que é imposto ao homem. Um momento de grande crescimento econômico é sucedido pelo seu limite, portanto, de crise, destacando forte estagnação, sendo alguns dos seus sinais, aumento do desemprego, crescimento da miséria e aumento da forte concentração de riqueza. As paisagens urbanas contemporâneas consistem na expressão fenomênica desta crise contemporânea: segregação urbana de um lado e condomínios de luxo e sofisticados de outro, muito próximo da ideia de fortalezas urbanas, dado o aparato técnico de segurança ali presentes. Poder-se-ia acrescentar a existência de indivíduos que acumulam superfortunas, correspondentes ao PIB de alguns países da periferia. Tudo isso é exemplo terrível das contradições que se estabelecem no capitalismo.

É importante, contudo, lembrar que não é tarefa simples destacar um trecho ou momento da obra de Marx para apontar sua contribuição ao presente, mas os destaques acima – a teoria das crises e as contradições do capitalismo – remetem a uma outra concepção, que estaria ligada à ideia de que, num primeiro momento, a história é contingente, isto é, não nos cabe fazer previsões, pois suas “determinações não são determinantes”. Explicando melhor, não escolhemos a forma como vivemos nossas vidas, mas as vivemos sob as determinações da história. Por isso, é recorrente uma célebre frase de Marx: “os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diariamente”.

PM: Sob quais determinações da história nós estamos vivendo?

LXA: As contradições que vivemos se impõem como exterioridade, nós não escolhemos vivê-las. Elas apresentam forte vinculação com um modo de produção cuja primazia é a produção de mercadorias. Guardada aqui sua excessiva simplificação, esta se estabelece como finalidade última. Transformar a natureza, aquilo que esta oferece em mercadorias que possam ser trocadas por dinheiro. Todo o tempo da vida é dispendido, hoje, trabalhando ou consumindo, inclusive o tempo livre. Com isso, chegamos a um outro conceito marxista: o de fetiche. A mercadoria, seu consumo e sua produção escondem as contradições que disso tudo decorre.

PM: O fato de o comunismo real ter acabado na URSS, na Alemanha, e ter constituído ditaduras na China e em Cuba, depõe contra a obra de Marx? É possível separar as duas coisas: comunismo real e conceitos marxistas para pensar a sociedade capitalista?

LXA: Houve muita confusão envolvendo o termo socialismo real, sobretudo em momentos para demonstrar a falência desse sistema onde ele existiu. Isso resultou, grosso modo, num maniqueísmo tosco. Marx, se tivesse vivido nesse tempo e assistido a ascensão e manutenção dessas ditaduras, certamente, teria dito: “não sou marxista!”.

Primeiro devido ao aspecto doutrinário onde esse socialismo real vigorou e, segundo, pela negação da liberdade do homem. Marx tinha idealizado um momento em que os homens livres se disporiam em associação e assim poderiam definir seu destino. Isso seria sucedido após o aprofundamento das crises do capitalismo. Esse momento coincide com a restauração da unidade entre humanidade e política. Mas é necessário lembrar, não é a política do estado moderno e nem a política partidária. São os homens de carne e osso negociando seu destino, sem mediações do Estado ou de partidos políticos.

O fato de esses sistemas ditatoriais terem se associado ao nome de Marx (e de Lenin!) está ligado à deturpação das suas ideias. Num momento em que se colocam polarizações ideológicas, é inevitável a recorrência de menções acusatórias envolvendo seu nome nesse embate.

Mas, considerando a situação de crise do mundo, hoje, nota-se a crise do trabalho, representada por um contingente cada vez mais crescente de desempregados; a crise urbana, marcada pela segregação e pelo crescimento de periferias onde habitam milhões de pessoas com dificuldades de acesso a bens culturais e de infraestrutura e de escassez de equipamentos urbanos; a crise ecológica, na qual se observa grandes desastres ambientais (o exemplo da Samarco aqui no Brasil foi emblemático); e um crescimento da pobreza e da miséria no mundo paralela a uma concentração da renda jamais vista na história. Então, será que o capitalismo deu certo? É este o modo de sociabilidade ideal para a humanidade que se contrapõe ao socialismo?


Da Prússia a Londres – uma longa jornada

Karl Heinrich Marx nasceu em 5 de maio de 1818, em Trier, Prússia (atualmente, Alemanha). Descendia de uma linhagem de rabinos, tanto pelo lado materno, quanto pelo paterno. Filho de advogado, era o mais velho entre nove irmãos. Estudou por um ano na universidade de Bonn (Grego, Mitologia Romana e História da Arte). Depois, fez Direito e Filosofia na Universidade de Berlim. Tornou-se PhD, em 1841, com a tese A diferença entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro, na Universidade de Jena. Duas outras influências teóricas importantes em sua formação foram os filósofos alemães Hegel e Ludwig Faeurbach.

Marx participou ativamente do movimento dos Jovens Hegelianos, que fazia uma crítica radical do cristianismo e também uma oposição liberal à autocracia prussiana. O governo da Prússia vedou a Marx o acesso à carreira universitária. Ele, então, começou a trabalhar com jornalismo, em janeiro de1842, no recém-fundado Rheinische Zeitung, em Colônia. A Gazeta Renana era uma publicação democrática liberal, cujos donos eram comerciantes, banqueiros e industriais. Em poucos meses, Marx se tornou editor da Gazeta e fez com que se tornasse um dos principais jornais da região. As autoridades prussianas fecharam-na porque defendia posições como a substituição da monarquia prussiana pela democracia. Marx passou a coeditar o Deutsch-franzosische Jahrbucher, os Anais Franco-Alemães, publicados em Paris.

 

Karl Marx e a esposa, Jenny

Casou-se com Jenny von Westphalen, contra a vontade de ambas as famílias, ainda em 1843, depois de um namoro de sete anos. Ao longo da vida em comum, tiveram sete filhos (quatro falecidos ainda crianças). Recém-casados, mudaram-se para Paris, onde Marx conheceu Friedrich Engels, que escrevia para os Anais Franco-Alemães. Foram amigos até o fim da vida. Engels, cujo pai possuía uma indústria de fiação de algodão em Manchester, o ajudou, inclusive, financeiramente, diversas vezes ao longo da vida.

Em Paris, esteve em contato com grupos organizados de trabalhadores alemães emigrados e com diversos grupos socialistas franceses. Em 1845, foi expulso da França, a pedido do governo da Prússia, indo para Bruxelas, na Bélgica, onde renunciou à nacionalidade prussiana.

Em parceria com Engels, escreveu A ideologia alemã, livro no qual articularam as categorias essenciais da chamada dialética marxista: trabalho, modo de produção, forças produtivas, alienação e consciência – constituindo um novo corpo teórico para as Ciências Humanas. Marx não conseguiu publicar esse livro, como muitos outros, antes de morrer, o que foi feito por Engels.

O filósofo teve intensa participação na fundação do Comitê de Correspondência Comunista de Bruxelas (1846), que possuía duas metas principais: "liquidar o espírito sectário e dogmático" e "desembaraçar o movimento operário das limitações nacionais". Participou ativamente também da Liga Comunista, para a qual escreveu, em 1848, em conjunto com Engels, O manifesto comunista, divulgando os ideais da organização entre a população. No ano seguinte, foi expulso da Bélgica, retornando à França, de onde também foi deportado. Passou a viver em Londres (1849), apesar de não conseguir a cidadania inglesa.

Em Londres, fundou a Sociedade Educacional dos Trabalhadores Alemães, a nova sede para a Liga Comunista e continuou escrevendo artigos para jornal, como o New York Daily Tribune, dos EUA, que publicava seus artigos sobre acontecimentos na Europa entre 1852 e 1862. Esses artigos eram frequentemente reproduzidos por diversas outras publicações.

O primeiro volume de O capital, a principal obra de Marx, que contém sua elaboração sobre o funcionamento do capitalismo, é de 1867. Os dois volumes restantes foram reunidos e publicados postumamente por Engels. Karl Marx morreu em 14 de março de 1883, em Londres, na Inglaterra.

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