26 Julho 2018
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Imagem: GEA/ MultiRio

Na fila, na chamada, no mural de aniversariantes ou de ajudante do dia, na escolha sobre quem realizará cada atividade ou tarefa na escola, não é incomum a divisão entre meninos e meninas. Para brincar, ainda é habitual que sejam oferecidas bonecas e miniaturas de utensílios domésticos a elas e jogos de montar a eles. Frases como “comporte-se como uma mocinha” ou “menino não chora” podem ser corriqueiras em uma sala de aula da Educação Infantil. 

Diariamente, a escola ensina sobre as relações de gênero. E, infelizmente, essas relações acabam por “ensinar” desigualdades. A distinção entre “coisas de menino” e “coisas de menina” e a associação de valores e comportamentos por gênero expressam preconceitos, discriminações, violências e privilégios, também nas escolas. Além disso, o reforço de estereótipos pode limitar as crianças e impedi-las de desenvolver todo o seu potencial. 

A construção de um mundo mais igualitário é um exercício diário, materializado em pequenos gestos, e que pode, sim, começar na escola. Dessa forma, o professor tem papel fundamental para que meninos e meninas possam relacionar-se de forma livre, sem cobranças ou expectativas quanto a um papel predeterminado.

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Não é incomum que, ao demonstrarem comportamentos “não apropriados” para seu sexo, os alunos causem preocupação e sejam motivo de incômodo e dúvidas para os professores. Mas, por que isso acontece? Quais os sentimentos causados, por exemplo, quando um menino pede ou pega uma boneca para brincar? 

“Estudos na área de psicologia já demonstraram que não é possível construir um gênero a partir de estímulos, e que isso é fruto de um processo muito mais complexo da subjetividade. O brincar permite que a criança exercite uma série de aspectos de sua vida. Então, um menino brincar de boneca pode ser um ‘exercício’ de sua atuação como cuidador, como pai; assim como uma menina brincar de bola pode estar relacionado a seus interesses por esporte, por exemplo. O importante é fomentar na criança o acesso a uma multiplicidade de estímulos que permitam a construção de si e a desconstrução de um mundo binário e sexista”, defende a equipe da Superintendência de Promoção da Saúde da Secretaria Municipal de Saúde do Rio.

Meigas e sensíveis, corajosos e fortes

De acordo com os profissionais da SMS, comentários como “meninos não choram” e “isso não é coisa de menina”, e expectativas de comportamento criadas a partir de estereótipos de gênero, como as de que elas são mais dóceis, disciplinadas e caprichosas e eles são mais fortes e corajosos, podem acabar oprimindo a criança. 

O livro infantil Chutando Pedrinhas, do Instituto Promundo, trata da relação de um pai com sua filha e de como alguns padrões de gênero limitam os sonhos da menina por reservarem papéis específicos para homens e mulheres (Imagem: Reprodução)

“Proibir a expressão de um sentimento ou exigir um determinado comportamento baseado numa suposta natureza masculina ou feminina – que comprovadamente foi forjada no século XIX – pode, ao invés de ‘formar’ uma criança, promover sofrimento psíquico e trazer sentimentos de menos valia à mesma. O que devemos problematizar hoje são, justamente, os parâmetros que definem feminino e masculino, bem como o que tem valor na formação de um sujeito. É importante lembrar que frases como ‘homem não chora’ e ‘meninas são caprichosas’ demonstram como o machismo vitimiza os homens e desqualifica mulheres que não se enquadram em uma norma social, o que tem efeitos extremamente nocivos”, argumenta o grupo. 

Assim, é importante que se estimule valores como inteligência, coragem e espírito científico nas meninas; e que se destaque o valor da afetividade, da sensibilidade artística e da organização nos meninos.

A pesquisa Por Ser Menina no Brasil: Crescendo entre Direitos e Violências (Plan International Brasil), realizada em 2013 com meninas de 6 a 14 anos das 5 regiões do país, levantou que enquanto 81,4% das meninas arrumam sua própria cama, 76,8% lavam louça e 65,6% limpam a casa, apenas 11,6%, 12,5% e 11,4% dos seus irmãos, respectivamente, realizam essas tarefas. Ou seja, mesmo em casa há uma divisão sexista, que precisa ser combatida.

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É preciso ressaltar que a diferença entre homens e mulheres não é o problema. O problema é quando se valoriza as características masculinas mais do que as femininas. Por exemplo, se um menino chora ou escolhe um brinquedo dito “de menina”, ouve-se em casa ou na escola: “você está parecendo uma ‘mulherzinha’”, como algo pejorativo. Por outro lado, se ele fizer algo que mereça elogio, é “um homem com H maiúsculo”.

Outra situação não tão rara, até mesmo na Educação Infantil, é quando um aluno tenta beijar uma menina à força. Muitas vezes, isso é levado na brincadeira e ainda há quem ache “bonitinho”. No entanto, o fato deve ser problematizado junto com as crianças, para que elas saibam que essa não é uma atitude natural, e sim um tipo de violência; e não levem esse tipo de comportamento para suas futuras relações.

Divisão dos alunos em sala de aula

A classificação e divisão da turma por sexo apenas reforça os estereótipos e suas consequências, segundo a equipe de profissionais da SMS.

“Reconhecer a diversidade entre meninos e meninas é importante, mas essa diversidade precisa ser reconhecida inclusive entre cada grupo. A naturalização da opressão e da agressividade em função do gênero e os sentimentos de que ‘a mulher é inferior’ podem começar a ser forjados nesse momento. Os critérios da divisão de uma turma em grupos devem ser analisados a partir dos objetivos propostos para a atividade, entendendo as motivações que levam a essa divisão.” 

Imagem: Reprodução da publicação Por Ser Menina no Brasil: Crescendo entre Direitos e Violências, da Plan International Brasil.

 

Assim, os professores vão estimular brincadeiras e jogos em conjunto, combatendo sentimentos de competição e rivalidade entre os sexos, e mostrando que ambos são capazes de realizar as mesmas tarefas e funções. Da mesma forma, os alunos serão expostos a uma ampla variedade brinquedos e a modelos contrários ao estereótipo, como homens que cuidam da casa ou enfermeiros; e mulheres cientistas ou motoristas de caminhão.

“Ao buscar modelos diversos de escolhas e trajetórias de vida, é possível acolher a diversidade dos sujeitos e abrir espaço para que os mesmos trilhem caminhos de acordo com seus desejos”, reforça o grupo da Superintendência de Promoção da Saúde.

O que mais pode ser feito?

- Não repreenda as crianças ou entre em pânico se elas aparecerem com algum acessório “atribuído a outro sexo". Afinal, a identidade sexual não se mede por um brinco ou um prendedor de cabelo;

- Tente expressar-se tanto no masculino quanto no feminino quando estiver se referindo a grupos mistos, para, assim, não contribuir com a invisibilidade feminina;

- Questione preconceitos e estereótipos de gênero das crianças, a fim de que isso não promova comportamentos e atitudes negativas contra o gênero oposto. A passividade acaba reforçando o estereótipo.

E lembre-se: a prática é sempre mais forte do que o discurso.

 


Fontes:

Site da Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância.
Por uma educação não sexista. Alaiane de Fátima dos Santos Silva, Daiana da Silva, Iara Amora dos Santos. Rio de Janeiro: Camtra, 2009.
Educação não sexista. Elaine Barros Cunha. Conselho Estadual da Mulher – Conem, de Goiás.
Por que discutir gênero na escola. Jadig – Jovens Agentes pela igualdade de gênero na escola e Ação Educativa.
Meninas e meninos na Educação Infantil: uma questão de gênero e poder. Claudia Vianna; Daniela Finco.
http://promundo.org.br/wp-content/uploads/sites/2/2015/01/Livro-Infantil-Chutando-Pedrinhas.pdf

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