09 Agosto 2019
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Imagem: Alicja/ Pixabay

A discalculia, ou discalculia do desenvolvimento (DD), é um transtorno específico de aprendizagem que afeta a capacidade de adquirir e desenvolver habilidades matemáticas. “Um aluno com discalculia pode ter dificuldade em processos ou tarefas que envolvam conceitos de números simples – pois muitas vezes não possuem uma compreensão intuitiva sobre eles –, estimativas, tempo, espaço e os procedimentos que os relacionam. Mesmo que o estudante produza uma resposta correta ou use um método correto, pode fazê-lo mecanicamente e sem confiança”, explica Daniela Carrilho, bacharel e licenciada em Matemática, especialista em discalculia do desenvolvimento e integrante do Projeto ELO: escrita, leitura e oralidade, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Discalculia: como identificar sinais de alerta

De acordo com Daniela Carrilho, os sinais de alerta podem ser notados quando a criança inicia os processos de contagem intuitiva e, posteriormente, de contagem biunívoca, quando relaciona números a objetos. “Às vezes, uma criança que conta até vinte pode estar apenas recitando os números, pois não estabelece relação com o objeto. Ela pode contar até 15, mas, se você der 15 objetos, ela não fará a correspondência de pegar um e contar um; pegar dois e contar dois, e assim sucessivamente. Ou seja, a criança não correlaciona o que está recitando com o que de fato está contando. Se isso acontece, deve ser acompanhado e investigado”, orienta a especialista.

“Deve-se ter em mente que a Matemática também demanda um processo de alfabetização; e é neste momento que devemos analisar qualquer dificuldade, a fim de distingui-la de um transtorno.”

De acordo com Daniela, sob consenso internacional, a discalculia pode ser considerada primária – pura ou isolada, quando o transtorno aparece única e exclusivamente nas habilidades matemáticas (o que é menos frequente) – ou secundária, quando aparece acompanhada de déficit “não numérico”, ou seja, quando o indivíduo também apresenta diagnóstico de dislexia ou de outro transtorno.

“Há muita sobreposição entre dislexia e discalculia, já que ambos trabalham memória de curto prazo, sequenciamento e utilização de símbolos. Mas, embora existam casos de comorbidades, uma criança que tem dislexia não necessariamente tem discalculia, ou vice-versa”, pontua, acrescentando que não há estudos sobre DD que comprovem prevalência maior em meninos ou meninas.

Graus de discalculia  Segundo o professor Mahesh Sharma, da Cambridge College, nos Estados Unidos, os graus de discalculia do desenvolvimento consideram o tipo e a intensidade da dificuldade, podendo ser classificados como:   Extremo: dificuldade em ordenar e comparar números inteiros, tempo e direção.  Sério: dificuldade em tarefas diárias envolvendo cálculos de tempo e dinheiro, mesmo com o uso de uma calculadora.  Moderado: dificuldade em compreender o conceito de números e frações decimais e como eles são escritos; além de conceitos ligeiramente mais abstratos, como área, volume e peso.  Suave: dificuldade em compreender os conceitos de números negativos e variáveis algébricas; e em comparações de tamanho.

O que fazer quando o aluno apresenta sinais de discalculia

“Professores e familiares podem auxiliar uma criança com discalculia desenvolvendo atividades lúdicas que envolvam modelos mentais dos algarismos, como: dominó, jogos de tabuleiro que usem dados e cartas; conceitos musicais/ritmo; jogos esportivos com instruções, regras, sequenciamento, controle e comparação de tempo e pontuação (placar)”, orienta Daniela Carrilho.

Nesse sentido, a especialista destaca a importância da disciplina de Educação Física, que pode ser uma grande aliada no trabalho com questões espaciais e numéricas. 

Discalculia: como interagir com um aluno discálculo  1) Explique a matéria por meio de objetos concretos e situações do cotidiano. Isso facilitará a compreensão dos conceitos matemáticos. Por exemplo, a partir da partilha de uma pizza desenvolver o conceito de fração e os procedimentos da divisão.   2) Se for identificada uma falha no sistema verbal de números, leia os problemas matemáticos em voz alta, pelo menos duas vezes, para que, então, a criança responda.   3) Se a limitação for relacionada ao sistema arábico de números, auxilie na montagem das contas, conforme a disposição adequada, sempre reforçando os sinais aritméticos (+, -, x, ÷) e o que significam; sempre convém utilizar sinônimos como mais/soma/adição”.   4) Não peça que o aluno responda tarefas escolares em voz alta ou no quadro. O professor deve auxiliar a criança individualmente em sua carteira e, somente depois que ela compreendeu o exercício e acertou em seu caderno, deve encorajá-la a resolver um problema na frente da turma. Assim, evitam-se constrangimentos, e até que a criança desenvolva aversão em relação à Matemática.   5) Incentive que o aluno procure o próprio erro e encoraje-o refazer o exercício. Lembre-se de esclarecer de forma objetiva quais aspectos específicos precisam ser alterados no cálculo a ser executado, para evitar que os erros ocorram novamente e para facilitar que a criança memorize a sequência correta de procedimentos requeridos no exercício. À medida que a criança adquire domínio dessas etapas, as pistas devem ser progressivamente retiradas, para estimular a autonomia.  6) Elogie sempre os acertos do aluno. Isso desenvolverá nele uma autoconfiança. Compreenda, também, que esse estudante poderá executar as tarefas mais lentamente que os demais, não devendo ser pressionado ou depreciado por seu desempenho e lentidão. Evite, ainda, revelar a nota da prova na frente de toda a turma.   Fonte: Adaptação do artigo Recomendações para professores sobre o “transtorno da matemática”, publicado na Revista Sinpro-Rio – O Desafio de educar (maio 2010).

O diagnóstico e o tratamento da discalculia

Segundo Daniela, o diagnóstico é dado por um médico, mas o ideal é que passe por uma análise conjunta de profissionais nos casos em que uma pessoa experimenta a maioria dos itens de uma lista de indicadores, o tempo todo.

Em manuais médicos, a discalculia aparece como transtorno específico da habilidade em aritmética (CID-10) e transtorno específico da aprendizagem com prejuízo na matemática (Diagnostic and Statistical Manual, em português Manual de Diagnóstico e Estatística, 5ª edição – DSM-5).

“Como o assunto é muito novo, o ideal é buscar um profissional experiente na área. Normalmente, o tratamento psicológico é um ótimo aliado do trabalho de um professor ou pedagogo especializado no assunto”, comenta.

De acordo com a especialista, o tratamento consiste num trabalho que busca desenvolver modelos mentais significativos para os numerais ou algarismos que compõem um número, estabelecendo relações entre eles, espaço e tempo.

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