01 Outubro 2019
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“Deus me deu muitos dons: bordar, costurar, fazer crochê. Faço de tudo, mas faltou o dom de ler e escrever. Até já leio um pouco, mas falta escrever. Na escola, todos os profissionais nos tratam muito bem. A professora ensina bem e é bom fazer amigos. Aqui, ninguém se desfaz da gente. Difícil é na hora de ler, que dá um branco. Isso é muito difícil.”

O depoimento é de Cirley da Silva Girard, 65 anos, aluna do Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos (Creja) que, depois de formar os filhos e os netos, voltou a estudar pelo prazer de aprender a ler e a escrever. Assim como ela, Maria Eunice Lourenço da Silva, 62 anos, viu a oportunidade de estudar após os filhos tornarem-se adultos. “Estou amando vir à escola. É bom estar com amigos e a professora tem paciência, sabe ensinar. A mente fica mais aberta. Sinto isso agora que voltei a estudar. Tenho dificuldade para ler, por causa da memória; esqueço... Mas quero ler e escrever corretamente”, conta.

Segundo dados da Gerência de Educação de Jovens e Adultos (Geja) da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME-Rio), 1.528 alunos acima de 60 anos de idade estão matriculados no Programa de Educação de Jovens e Adultos (Peja). O número corresponde a aproximadamente 5,5% do total de estudantes no Peja, que é de 27.481.

“Devemos considerar que o idoso retorna à escola para efetivar o direito à educação que foi negado, em geral, no período da infância, por ter tido que trabalhar, porque morava longe da escola, porque nasceu em um tempo em que a escola não era obrigatória, entre outros. Estudos demonstram, hoje, que esse retorno é uma dupla libertação: do passado e também do presente, que diz para o idoso que ele não pode, fazendo-o questionar ‘quem disse que eu não posso?’”, destaca Marta Souza, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre e doutora em Educação e especialista na área de EJA.

Segundo a docente, os idosos buscam a escola por diversas razões. “Porque querem acertar as contas com o passado; por indicação médica, para auxiliar em questões referentes à saúde; por incentivo dos filhos; porque querem ler para os netos... No caso de mulheres, porque ficaram viúvas e, antes, o marido dizia não ser necessário estudar; porque a maternidade impediu ou, ainda, porque apenas na década de 1930 as mulheres começaram a ter acesso à educação formal”, exemplifica.

As percepções e estratégias dos professores

“Eles chegam inseguros, com medo de mostrar o que não sabem e achando que, por não escrever ou ler com domínio, não possuem conhecimento algum. Mas trazem suas experiências de vida, grandes saberes e um enorme desejo de aprender. Sentem prazer em estar na escola e isso é muito legal. Como professora, busco fazer com que se sintam acolhidos, valorizo a fala de cada um, demonstro que senti a falta deles e pergunto o que houve quando não vão à aula”, conta Neyla Tafakgi, professora do Peja I (referente ao Ensino Fundamental I) no Creja, comentando que muitos idosos vão à escola motivados a ler a Bíblia e, assim, acompanhar melhor as atividades da igreja que frequentam.

Neyla busca trabalhar os conteúdos a partir de temas do cotidiano, que façam parte da realidade de seus alunos. No início do período letivo, segundo ela, são levantadas as demandas dos alunos, para que o planejamento possa ser construído a partir do que eles consideram importante aprender. “Certa vez, um aluno disse que gostaria de pedir um Uber, mas que não sabia usar o aplicativo. Então, fizemos uma aula sobre isso. Também me aproprio do WhatsApp para incentivar a escrita, propondo que eles não enviem apenas áudios. Em outro projeto, pedi que eles pensassem em práticas sustentáveis para suas casas, enviassem fotografias e explicassem o que fizeram para todos no grupo criado no aplicativo”, relata.

Paula Izidoro Ferreira com Manuel Simão da Rocha, 71 anos, seu aluno à época (2017), na E.M. Lourenço Filho
A professora Paula Izidoro Ferreira com Manuel Simão da Rocha, 71 anos, seu aluno à época (2017), na E.M. Lourenço Filho (Foto: Arquivo pessoal da professora)

Professora da E.M. Lourenço Filho (2ª CRE), no Grajaú, Paula Izidoro Ferreira destaca a alegria e a determinação dos alunos acima de 60 anos. “Eles são participativos, respeitam muito o professor e não aceitam a forma como os jovens tratam os professores ou o fato de se atrasarem para a aula, por exemplo. Na maioria das vezes, chegam felizes, com um sorriso no rosto e muita garra para estudar. Diferente do que se pode pensar, não apresentam dificuldade em receber o que é novo, como uma aula extraclasse, por exemplo. Eles chegam à escola sabendo tudo, só não sabem ler e escrever”, ressalta Paula, que trabalhou mais de 15 anos no primeiro bloco do Peja I e, neste semestre, está à frente da sala de leitura da escola.

Na opinião da docente, o professor do Peja deve ser uma pessoa aberta a novas aprendizagens. “Não há um livro didático que oriente na forma de ensino. É preciso pesquisar sobre cada indivíduo. São pessoas com uma bagagem de conhecimento muito grande e não se pode simplesmente partir do zero, como se faz com crianças. A ideia é adaptar o conteúdo das orientações curriculares ao interesse do aluno e sempre é diferente com cada turma. Uns querem escrever o nome, outros querem tirar a carteira de motorista, então, o professor tem que sair do ‘comum’. Além disso, às vezes, o aluno fica na sua turma por dois ou três anos. Ou seja, não é possível dar a mesma aula, ter o mesmo caderno de planejamento.”

De acordo com Paula, no Peja II (correspondente ao Ensino Fundamental II), quando passam a ser lecionadas várias disciplinas, com diferentes professores, o cenário muda consideravelmente para os estudantes da terceira idade.“Muitos estão ali para aprender a ler e a escrever e, quando conquistam isso, já se sentem satisfeitos. Outros acabam saindo da escola por não haver oportunidade maior de criar um vínculo afetivo com cada docente. Para evitar essa evasão, sempre busquei fazer parcerias entre o Peja I e o Peja II, para que os alunos tivessem mais contato e conhecessem melhor outros professores. A questão emocional pesa bastante, há certo apego e eles têm medo de avançar.”

As histórias de vida

O trabalho com idosos na EJA demanda um intenso e cuidadoso trabalho de escuta por parte do professor, segundo Marta Souza. “É interessante explorar a oralidade, as recordações que o indivíduo traz da escola – caso ele tenha vivenciado –, para pensar o projeto de escolarização hoje. A memória é constituída de forma individual, mas também é coletiva, pessoas viveram situações semelhantes. Entretanto, as lembranças do passado podem levar sofrimento para esse público. Costumam relatar que eram impedidos ou não iam à escola porque precisavam ajudar a sustentar as famílias, muitas vezes na agricultura rural. Então, é preciso cuidado. Falar sobre a infância pode ser doloroso e até gerar certa resistência ao estudo, como se negarem a ler e a escrever, com receio de demonstrar as lacunas da ausência da educação ou dizerem que não sabem”, diz a professora da UFRJ, acrescentando que, ao retomarem os estudos, os idosos ressignificam a escola. “Poderiam estar em casa e negar a escola, mas querem dar conta de um hiato em suas histórias. E isso é uma grande potencialidade: eles querem aprender, têm interesse, reconhecem a importância da instituição e respeitam o professor”, complementa.

Uma dessas histórias de vida que remontam a um passado de não acesso à educação marcou a trajetória pessoal e profissional da professora Paula, na época em que ela ainda trabalhava em Bangu, na 8ª CRE. “O senhor José tinha 84 anos e nunca havia frequentado uma escola. Queria aprender a escrever o próprio nome, mas tinha muita dificuldade na questão motora, não conseguia fechar as mãos para segurar o lápis. Dizia que só havia aprendido a segurar uma enxada. Então, adaptei o lápis para que ele conseguisse segurar e fiz atividades usando massinha, nunca de forma infantilizada. Apesar de não saber ler e escrever, ele tinha uma memória impecável e decorava as poesias e letras de música que compunha”, relembra a professora, que, na época, durante um projeto, buscou colocar melodia em uma das composições do aluno e cantou na escola. “O Peja promove um resgate social intenso. Como professora, aprendi muito mais do que ensinei”, emociona-se Paula.

Convivência intergeracional e dificuldades relacionadas à saúde

Reunir, em uma mesma sala, jovens e idosos tem suas potencialidades, mas também pode levar a conflitos geracionais. Na opinião de Marta Souza, o desafio do professor é propiciar um diálogo entre visões diferenciadas do mundo. “Os idosos trazem pontos de vista diferenciados sobre o mundo, muito arraigados, e precisamos saber dialogar. Eles vêm de outra formação, que se choca com a cultura dos alunos mais jovens da turma e até do professor”, diz a docente da UFRJ.

Por haver muitos adultos e idosos no primeiro bloco do Peja I, onde costumava atuar, Paula Ferreira diz não ter tido muitos problemas nesse sentido, mas destaca o relato de outras colegas docentes do Peja. “Elas enfatizam que. quando o aluno mais jovem se depara com a dificuldade dos mais velhos, não tem paciência. É uma geração impaciente, confrontada por outra que está tranquila e sabe o que quer”, diz a professora da E.M. Lourenço Filho.

Mas essa convivência nem sempre gera atritos. “Os jovens muitas vezes chegam com mais agilidade e facilidade e ajudam os mais velhos no processo de aprendizagem. Por outro lado, com toda sabedoria, os mais velhos falam sobre a importância do estudo, daqueles momentos em sala de aula”, pontua Neyla Tafakgi.

Segundo as professoras, a maior dificuldade no trabalho com idosos, em geral, refere-se à questão da memória e a problemas de saúde – que fazem com que eles faltem e impedem a continuidade no trabalho.

“Há questões de saúde, como a visão prejudicada por uma catarata ou pela necessidade de óculos, por exemplo; e, ainda, um cansaço proveniente da idade, ainda que sejam bastante ativos. A memória sofre com o impacto da idade, fazendo com que o professor precise repetir várias vezes a mesma orientação para que eles entendam. É outro tempo, precisamos ter paciência, encaminhar as perguntas de formas diferenciadas e esperar que eles respondam, sem atropelar suas falas. Estamos em uma sociedade corrida e, às vezes, não damos tempo para o aluno pensar. Ele não vai responder na mesma velocidade de um jovem, mas é necessário estimulá-los com muito afeto e cuidado na condução”, diz Marta.

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