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MCE Reportagens
01 Julho 2020
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Apresentação virtual de alunos do projeto Orquestra nas Escolas. Divulgação

Desde a Antiga Grécia, a música tem sido objeto privilegiado do interesse pedagógico. No século VI a.C., Pitágoras já havia descoberto as relações matemáticas entre os sons musicais e, cerca de dois séculos depois, Sócrates, Platão e Aristóteles debatiam a pertinência de a música integrar a Educação. Se, de um lado, sua execução requeria racionalidade e domínio técnico, de outro, acionava os mecanismos irracionais, sensíveis e afetivos do espírito (que poderiam ser edificantes ou não, nas preocupações de Platão).

Essas duas facetas levaram a música a ir ganhando diferentes contornos no campo educacional, ao longo dos séculos: do ensino da Música propriamente dita – cujas teorias buscam a relação entre técnica, razão e mundo sensível –, à prática pedagógica cotidiana, que utiliza o caráter cultural, lúdico e empático dos ritmos, das harmonias e das melodias para desenvolver habilidades motoras, numéricas, mnemônicas, linguísticas e muitas outras.

É importante ressaltar que, nos dias atuais, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe que a música seja trabalhada nessas duas dimensões, ao longo do processo de formação do aluno, com aprofundamento e especialização crescente, conforme avançam a idade dos estudantes e os anos de escolaridade. A Rede Pública Municipal do Rio de Janeiro vem, inclusive, buscando consolidar esta perspectiva de trabalho há alguns anos, desenvolvendo projetos, como o Orquestra nas Escolas, e inserindo, cada vez mais, nas unidades de Ensino – da Educação Infantil ao 9º ano – professores especialistas, com formação acadêmica em Música.

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Frame de vídeo sobre instrumentos da bateria das escolas de samba, produzido pela C.M. Homero José dos Santos

Caminhos

As diversas atividades desenvolvidas na Rede Municipal do Rio espelham as múltiplas maneiras como a música vem sendo apropriada pelas escolas e como os componentes curriculares e os projetos desenvolvidos pela Secretaria Municipal de Educação (SME) ganham diversos contornos conforme as estratégias adotadas por cada professor e unidade de ensino. Na Educação Infantil, por exemplo, a C.M. Homero José dos Santos (1ª CRE), conectada com as propostas da BNCC, tem aproveitado as raízes do samba fincadas na comunidade onde está localizada, para realizar atividades remotas com suas crianças, durante o período em que professores e alunos estão em casa por causa da covid-19.

A história do patrono da creche, Mestre Tinguinha, que exerceu papel importante na organização e construção da identidade da bateria da Escola de Samba Mangueira, é o pretexto para apresentar breves características dos instrumentos de percussão. As atividades, apresentadas pelas professoras, por meio de vídeo, costumam ser acompanhadas de um desafio, como construir, com materiais reciclados e a ajuda da família, um dos instrumentos apresentados.

Ainda na Educação Infantil, as crianças do EDI Tenente Pedro de Lima Mendes (11ª CRE) têm sido brindadas com videoaulas do professor de Música Frederico Moreira, que abriu um canal no Youtube para postar atividades em vídeo, durante a pandemia. Em gravações pelo celular, quase sempre sem cortes e sem edição, toca instrumentos, conversa e apresenta componentes curriculares já trabalhados presencialmente, em uma performance musicada que encanta os que assistem. Em um de seus vídeos, trabalha de forma tão lúdica os conceitos de ritmo e de tempo (e, por consequência, a coordenação motora) que, mesmo para um adulto, é quase impossível não cantar piu-piu, co-có, ou au-au, nos momentos certos da música, quando ele pede para quem o assiste emitir o som dos animais.

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Frame de videoaula do professor Frederico Moreira

O trabalho remoto desenvolvido por Frederico Moreira, tanto na Educação Infantil como no Ensino Fundamental – ele também dá aula para o 1º, 2º, 3º e 6º anos do Ciep João Mangabeira (11ª CRE) – não deixa dúvidas sobre como o conhecimento técnico e teórico do professor enriquece e amplia a formação dos alunos neste componente curricular e potencializa o desenvolvimento de diversas outras habilidades.  Em vídeo publicado pela MultiRio  em 2018, ele fala sobre isso. Defende que a música, além de propiciar uma formação estética e musical, contribui, de forma lúdica, para o desenvolvimento de habilidades com as palavras e os números, produz efeitos na disciplina e na capacidade de concentração e apura a coordenação motora, só para citar alguns exemplos das inúmeras possibilidades.

No encontro da música com a educação, na Rede Municipal do Rio de Janeiro, também estão os professores do programa Orquestra nas Escolas, que têm, como principal tarefa, o aprofundamento do conhecimento musical dos alunos. Mesmo remotamente, continuam a promover atividades que envolvem teoria e técnicas de execução de instrumentos, a exemplo de Luís Felipe Gomes, maestro assistente e professor de violino do polo Santa Cruz da Orquestra Sinfônica Juvenil Carioca (OSJC). Ele tem aproveitado a pandemia para aperfeiçoar os conhecimentos já trabalhados, dando aulas coletivas por meio de vídeos ou videoconferências. Para os que têm mais dificuldade, atende individualmente pela internet, tentando explicar como podem superar falhas técnicas e aperfeiçoar a execução do instrumento.

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Aula remota da professora Alessandra Alexandroff

Luís Felipe Gomes explica que suas aulas, remotas ou presenciais, são sempre muito técnicas, embora frise que não seja tecnicista, pois a execução do instrumento também pertence ao território do sensível. Trabalha, por exemplo, os conceitos de detaché e gran legato, que dizem respeito à maneira como se extrai o som do violino, lembrando sempre aos alunos que esse som é linguagem musical e deve expressar o sentimento e a “voz” de quem o executa.

A regente da Orquestra de Flautas Rivadávia Corrêa, Alessandra Alexandroff, também construiu estratégias para corrigir as falhas técnicas de seus alunos, durante a pandemia: “Na flauta doce, as dificuldades costumam estar relacionadas à articulação, à sonoridade e à passagem de notas específicas. Então, peço para treinarem trechos de música e, depois, dou o feedback por meio de áudio ou vídeo individual”, detalha.

Conexões e subjetividades

Segundo Moana Martins, coordenadora geral do Orquestra nas Escolas, em fevereiro deste ano, mais de 12 mil alunos da Rede estavam inscritos nos diversos projetos do programa. Com a suspensão das aulas em função da pandemia de covid-19, só cerca de 30% a 40% conseguem acompanhar, de forma efetiva, as atividades desenvolvidas. “Muitos alunos desejosos de participar das atividades foram tolhidos por questões estruturais”, lamenta.

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Moana Martins. Divulgação

Mas o percentual citado por Moana Martins não é linear. Entre os 42 alunos do professor Luís Felipe Gomes, por exemplo, 21 estão acompanhando as aulas remotas. Segundo ele, as dificuldades de participação dos pupilos passam por inúmeras variantes. “Alguns têm sinal de internet muito precário. Outros têm bom sinal, mas só têm acesso ao celular quando o pai chega do trabalho. Além disso, há questões subjetivas envolvidas, principalmente entre os adolescentes. Muitas alunas não se sentem à vontade no ambiente doméstico, outras não querem participar das aulas interativas porque estão com espinha ou alguma mancha no rosto, outros tantos não querem interagir sequer por áudio, porque acham que não conseguem se expressar direito...”, relata.

Já a regente da Orquestra de Flautas Rivadávia Corrêa afirma que todos os seus 12 alunos estão acompanhando as aulas e atividades comandadas por ela, durante a pandemia. “Sempre tive um contato muito ativo com eles pela internet”, explica. Isto não significa que esses 100% de adesão não lhe tenham exigido a elaboração de estratégias e o uso de ferramentas digitais que nunca havia utilizado antes, como aplicativos de edição de áudio e vídeo e plataformas interativas como o Zoom, o Teams e o Google Meets. “Para não cansá-los nem consumir muito o pacote de dados de internet deles, também vario as atividades. Ora faço videoaulas pelo Whatsapp, ora faço atividades de áudio, ora faço videoconferência...”, diz.

Som e tecnologia

Numa lista de possíveis legados da pandemia para a área de Educação, um ponto, provavelmente, faria parte do consenso entre todos: a maior familiaridade dos professores com as ferramentas digitais. Muitos, inclusive, têm se encantado com os novos recursos e as novas possibilidades que estão descobrindo. Encaixando-se nesse contexto, está o projeto Sinta o Som, desenvolvido pela SME e pelo programa Orquestra nas Escolas, bem antes da covid-19 assolar o planeta.

Moana Martins explica que o Sinta o Som tem o objetivo de contribuir para a maior presença da expressão artística, em especial a música, nas atividades cotidianas do universo da alfabetização. Trata-se de um aplicativo com vários cadernos digitais, além de um kit impresso, que oferecem vídeos, animações, partituras, cifras, playbacks, jogos e vários outros recursos pré-formatados para os professores adaptarem às suas necessidades e objetivos.

A formação dos professores para o uso desses recursos foi iniciada em fevereiro, antes do início da suspensão das aulas. E, por meio de videoconferência, continua durante a pandemia. A demanda tem sido tão grande que nem todos conseguem participar das aulas, em função dos limites de acessos impostos pelas plataformas digitais. No grupo Comunidade de Experiência do Sinta o Som, no Facebook, os professores que participam da formação virtual têm publicado vídeos com suas experiências, feitas a partir dos recursos oferecidos pelo aplicativo e pelo kit impresso, ampliando o universo de possibilidades contido no encontro entre a Música e a Educação.

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