Da série
Patronos das Escolas Municipais
24 Julho 2020
0
0
0
s2sdefault
 
Jon TiaMaria
Tia Maria. Foto e acervo Alcinoo Giandinoto, autorização no dossiê (cedida)

“Vapor berrou na Paraíba, chora eu, chora eu vovó. Fumaça dele na Madureira e chora eu”. Esse ponto famoso nas rodas de jongo na Serrinha fala sobre o processo de migração interna pós-abolição quando os escravos, vindo de outros estados, chegavam ao Rio de Janeiro, capital do país na época. Com a família de Maria de Lourdes Mendes não foi diferente. Chamada carinhosamente por todos de Tia Maria do Jongo, era a filha de Etelvina Severo de Oliveira e Francisco José de Oliveira - o casal saiu de Minas Gerais e desembarcou na cidade do Rio em 1910.

Em 30 de dezembro de 1920, nasceu Tia Maria no Morro da Serrinha, em Madureira. Foi a sexta de nove irmãos. Seu pai, Francisco, gostava muito de música e tocava instrumentos de sopro, mas não tinha contato com o jongo. Já sua mãe, Etelvina, conhecia muitos pontos. “Ela já veio cantando jongo, falando do jongo” conta Tia Maria, afirmando que já era jongueira desde a barriga da mãe, em entrevista para a dissertação de mestrado de Aline de Oliveira Souza, apresentada à Escola de Artes, Ciências e Humanidades, da Universidade de São Paulo (USP), em 2015.

Criada na rua Balaiada, Tia Maria do Jongo mudou-se para a rua Doutor Joviano, no Morro da Serrinha, quando se casou, aos 20 anos, com Ivan Mendes. Juntos, tiveram dois filhos: Ivan Mendes Filho, que faleceu em 2006, e Ivo Mendes, jongueiro do grupo Jongo da Serrinha. Foi na primeira rua em que morou que conheceu Mestre Darcy, filho de Maria Joana, quando ainda eram crianças. As duas famílias mantinham uma amizade forte e próxima.

Tia Maria e o Jongo da Serrinha

Jon noquintal
Roda de jongo no quintal da casa de Tia Maria. Foto e acervo Alcinoo Giandinoto, autorização no dossiê (cedida)

Vovó Maria Joana, como era conhecida na Serrinha, era umbandista e rezava ladainha em dias dedicados a santos católicos. Ao final da reza, já bem tarde, colocava as crianças para dormir — porque só os mais velhos podiam participar das rodas — e dava início ao jongo. Mas nem sempre as crianças respeitavam, era comum ficarem olhando pelas frestas os mais velhos dançando e no dia seguinte imitarem o que tinham visto brincando de jongo. Entre essas crianças estava seu filho, Mestre Darcy, e Tia Maria.

Com o tempo, os jongueiros mais velhos foram morrendo, os mais novos não tinham acesso às rodas e as festas foram ficando cada vez mais raras. Na década de 1960, Vovó Maria Joana decidiu então criar um grupo profissional de Jongo para disseminar a cultura. Ela contou com a ajuda de Mestre Darcy e, entre os convidados para ingressarem no projeto, estava Tia Maria e sua irmã, Tia Eulália.

A criação do grupo teve a intenção de levar o Jongo para fora da Serrinha e também fazer com que as crianças participassem e aprendessem. Foi no quintal de Tia Maria que a vontade de Vovó Maria Joana se concretizou. Ela conta a Aline de Oliveira Souza que sua casa sempre foi muito cheia de crianças e afirma: “o jongo com as crianças nasceu aqui”. Mestre Darcy começou a levar os tambores para o quintal de Tia Maria e juntos eles cantavam e dançavam incentivando as crianças a participarem.

A relação dos dois era de muita confiança. Antes de falecer, Mestre Darcy escolheu Tia Maria para trabalhar com os pequenos e dar continuidade ao trabalho no Jongo da Serrinha. Ela ficou como guardiã do ritmo de origem Bantu, trazido pelos negros escravizados no Brasil-Colônia, que se popularizou no interior dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

O encontro do jongo com o samba

Jon casadojongo
Casa do Jongo, em Madureira. Foto e acervo Alcinoo Giandinoto, autorização no dossiê (cedida)

No Rio de Janeiro, o jongo foi uma forte influência para o nascimento do samba. O improviso encontrado nos versos do partido-alto e do samba de terreiro veio das rodas de jongo. Na Serrinha no ano de 1947, o irmão de Tia Maria, Sebastião de Oliveira — mais conhecido como Molequinho — criou a Escola de Samba Império Serrano, que atualmente é uma das escolas mais tradicionais da cidade. A família inteira se envolveu na fundação da escola e Tia Maria desfilou na Ala das Baianas durante toda a vida.

Foi homenageada pela Império Serrano no enredo “Lugar de mulher é onde ela quiser!”, no Carnaval de 2020. Tia Maria faleceu em 18 de maio de 2019. Quatro dias antes, havia recebido o prêmio Sim à Igualdade Racial — uma iniciativa do Instituto Identidades do Brasil (ID-BR) — no Copacabana Palace. Na cerimônia, convidou todos os presentes para conhecerem o Jongo da Serrinha. Também é, desde 2007, patrona da Creche Municipal Tia Maria do Jongo, em Madureira (5° CRE), que foi fundada em 2002 e atende a seis turmas formadas por 154 crianças de seis meses até três anos e 11 meses de idade.

* Estagiária com a supervisão de Carlos Fraga

Fontes:

PORTAL MULTIRIO. Jongo, cultura afro-brasileira. Rio de Janeiro: 2016:

OLIVEIRA, Aline. Tia Maria do Jongo: Memórias que ressignificam identidades das atuais lideranças jongueiras do grupo Jongo da Serrinha. 2015. 160f. Dissertação de Mestrado - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.

PRÊMIO SIM À IGUALDADE RACIAL. Tia Maria do Jongo, Rio de Janeiro, 2019.

Prêmio Sim à Igualdade racial na categoria arte em movimento: http://simaigualdaderacial.com.br/jantar/index.php/member/tia-maria-do-jongo/

 

Mídias Relacionadas
Patronos das Escolas Municipais
Mais da Série
Relacionados
Mais Recentes