01 Setembro 2021
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Atividade realizada remotamente com crianças da Creche Municipal Elza Machado dos Santos (acervo da unidade)

Especialistas em Educação, professores, gestores e demais profissionais que atuam na Educação Infantil da Rede Pública Municipal de Ensino do Rio de Janeiro participaram da edição de 2021, transmitida pelo YouTube e pelo aplicativo Rioeduca em Casa, que teve como tema Educação Infantil em tela: refletindo possibilidades, repensando trajetórias e fortalecendo a docência. A JPEI aconteceu entre os dias 25 e 27 de agosto.

Os educadores abordaram questões como redes digitais de formação e o que é prioritário para o desenvolvimento das crianças. Profissionais das 1ª, 2ª e 8ª CREs relataram suas experiências junto às suas equipes e crianças nesses tempos de alternância entre o presencial e o remoto.

O tema do primeiro dia foi Formação e ações docentes, com os sentidos e os sentimentos, nas múltiplas redes educativas. Para Nilda Alves, professora e pesquisadora na Faculdade de Educação da UERJ, “ação e formação são interligadas nas múltiplas redes práticas e teóricas às quais os docentes estejam ligados, como a formação acadêmico-escolar, as políticas de governo (documentos norteadores, propostas curriculares e formação em mídias), movimentos sociais (uso do cinema na escola ou religião dentro da laicidade da escola são exemplos), uso das artes e de mídias, pesquisa em educação”. Ou seja, a pesquisadora enfatizou que a formação docente não se dá apenas em cursos, mas em complexas relações que os profissionais têm ao longo de sua vida cotidiana.

O que é necessário em tempos híbridos?

Alessandra Caldas, doutora em Educação pela Uerj e diretora-adjunta do EDI Professora Simone Sousa Pimentel (1ª CRE), no Rio Comprido, disse que, durante a pandemia, a equipe da unidade escolar onde trabalha utilizou o WhatsApp e, depois, a página da escola no Facebook para manter o vínculo com as crianças e seus responsáveis, compartilhando atividades com músicas, histórias, entre outros recursos. As famílias compartilharam vídeos e fotos mostrando o desenvolvimento das propostas oferecidas. A diretora-adjunta acredita que estamos vivendo um período em que se precisa de escuta, tecnologias e movimentação em redes.

Usar a cibercultura a favor

O tema do segundo dia foi Ambiências formativas em tempo de novas educações: o que aprendemos com a pandemia. Rosemary Santos, professora do Departamento de Formação de Professores da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF-UERJ) e líder do EduCiber (Grupo de Pesquisa Educação e Cibercultura), falou sobre as ambiências formativas em situações de aprendizagem, ou seja, todas as articulações feitas por meio de celulares, redes sociais etc., sendo o encontro virtual da JPEI um exemplo prático disso.

A JPEI contou com a presença de Rosemary Santos, do grupo de pesquisa EduCiber (no centro, acima); e Rosane Tesh, diretora da Creche Municipal Elza Machado dos Santos (à direita, acima). A Jornada foi apresentada pela jornalista Patrícia Costa (à esquerda); e mediada, no segundo dia, por Simone Monteiro (abaixo, na tela), assessora da MultiRio (YouTube)

A pesquisadora ressaltou que a falta de infraestrutura de acesso à internet é um problema, assim como a multiplicidade de demandas dentro de casa. Ela disse também que o corpo da criança é fundamental no aprendizado e isso não pode ser esquecido nas atividades com elas. “A tela cansa, mesmo os adultos conseguem ficar no máximo até 2 horas sentados em frente a um computador”.

Outra questão levantada por Rosemary foi em relação às plataformas privadas que estamos utilizando – “como ficam a privacidade dos dados? De quem é o conhecimento produzido em plataformas como Facebook, Instagram e Zoom?”, perguntou ela.

Rosemary salientou que a sociedade em que vivemos é estruturada pelas redes. “Precisamos olhar para os lados e trocar com nossos pares, pois é daí que vêm muitas soluções para os problemas cotidianos da profissão de professor”, assegurou ela.

Tempo de aprendizagem

Rosane Tesh, diretora da Creche Municipal Elza Machado dos Santos (2º CRE), em Copacabana, exibiu um vídeo com atividades realizadas remotamente com as crianças e seus responsáveis, usando materiais caseiros como gelo, caixa de ovos, frutas etc. Além de formação de professores e reuniões com a equipe da creche.

Rosane disse que os dispositivos podem ser aliados da Educação. “O acesso é uma questão de política pública, mas devemos pensar o que fazer, apesar das dificuldades cotidianas e escutando as comunidades atendidas”, reforçou a gestora.

Para ela, o tempo de pandemia também foi espaço de aprendizado. “As crianças aderiram ao uso de máscara e à higienização das mãos. O distanciamento é o mais difícil a ser trabalhado porque são pequenos. Com os responsáveis, muitas vezes, temos que apresentar os números negativos, que ainda temos, relacionados à pandemia para que colaborem com as regras sanitárias”.

Rosane fez uma breve retrospectiva dos trabalhos remotos. “Em 2020, quando irrompeu a pandemia no Brasil, começamos a trabalhar remotamente com os recursos que as famílias tinham disponíveis - celulares e redes sociais. Os principais requisitos para EDI estavam lá - interações e brincadeiras. Sempre solicitando a adesão e não impondo essa nova forma de contato, porque sabemos das restrições vividas por muitas famílias”, lembrou ela.

Como lidar com as múltiplas telas do cotidiano?

O tema do último dia de JPEI foi Audiovisual, infância e Educação Infantil: articulações possíveis. Rita Ribes, professora titular da Faculdade de Educação da Uerj e coordenadora do grupo de pesquisa Infância e Cultura contemporânea, considera que as crianças e os professores estão superexpostos às telas e janelas virtuais, como todo o restante da população. “Há contextos fora dos quadradinhos virtuais. É preciso consciência de que a vida cotidiana não cabe na tela. Por outro lado, não há como fugir do reconhecimento da potência das telas, que nos possibilitam conversar mesmo em isolamento social”, resumiu.

Rita Ribes disse que “é necessário um posicionamento crítico para que as telas não nos escravizem” e refletir sobre quais sentidos construir junto com as crianças sobre as telas presentes em suas vidas.

Rita Ribes, professora titular da Faculdade de Educação da Uerj (no centro); e Felipe Rocha, professor regente no EDI Professora Maria Cecilia Ferreira (8º CRE), participaram da conversa sobre Audiovisual, infância e Educação Infantil: articulações possíveis. A mediação foi de Josele Teixeira, professora da Educação Infantil (YouTube)

A pesquisadora contou que imagens de crianças são as mais vistas na internet, viralizando com frequência. “Criança ‘vende’ e isso é ótimo para a propaganda. É preciso levar em conta que, muitas vezes, os vídeos com crianças são violentos e excessivamente expositivos de sua intimidade. Os educadores devem conversar para saber o que as crianças pensam, a que tipo de tela têm acesso, por onde circulam, quais são suas perguntas. A criança é um sujeito na sociedade. A telenovela do horário nobre e o Facebook são classificados como inadequados para crianças, mas elas assistem e participam mesmo assim”, assegurou a pesquisadora.

Rita Ribes disse que o fundamental para as crianças, remotamente ou não, é o acolhimento, a escuta, a socialização e o desenvolvimento da construção da linguagem. “Não devemos condenar as crianças a serem somente aprendizes, em uma relação de ensinamento o tempo todo. É preciso alternar isso com conversas, nas quais procuremos verdadeiramente conhecer o ponto de vista delas”, acrescentou.

Afeto e protagonismo infantil presentes

Felipe Rocha, professor regente no EDI Professora Maria Cecilia Ferreira (8º CRE), em Realengo, com formação em Educação Física, disse que desenvolve brincadeiras e interações pedagógicas com uma organização não disciplinar, levando em conta os objetivos do EDI e os projetos de organização curricular. “A própria BNCC orienta para experiências”, lembrou ele.

Durante a pandemia, Felipe usou práticas remotas síncronas e assíncronas para manter e criar vínculos. As crianças foram auxiliadas pelas famílias em atividades que estimularam o brincar, o pensar e o criar. As propostas foram construídas com as crianças, recapitulando o que faziam na escola, relembrando experiências vivenciadas em 2019, segundo a memória afetiva delas. Um exemplo foi a música A Casa do Tio Zé. “Pra entrar na casa do tio Zé é preciso bater o pé/ Mas pra entrar na casa do tio Zé, você tem que bater palmas também/ … balançar a cabeça também”. A partir da música, o professor pedia para as crianças cantarem dizendo o que precisava fazer pra entrar na casa do “tio Zé”. Os responsáveis enviaram vídeos com crianças rodando e fazendo outros movimentos ao cantar.

Segundo Felipe, as aulas síncronas eram uma festa, pois as crianças se viam e conversavam. Algumas delas, entretanto, não gostavam e pareciam obrigadas a participar. Mas o mais crítico e numeroso, segundo o professor, eram os casos de crianças ausentes por falta de acesso à internet.

Os vídeos da 12ª JPEI podem ser assistidos, na íntegra, no YouTube, no Portal MultiRio e no Assista MultiRio .

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