15 Setembro 2021
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Conforme o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) divulgou em 2019, 41% dos estudantes brasileiros não alcançaram o menor nível de proficiência – seis ao todo – em Matemática. No Rio de Janeiro, segundo os resultados divulgados em 2020, os alunos da Rede Municipal ficaram abaixo da meta (média seis) do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb). Como reverter esse quadro? Como melhorar a educação matemática entre os alunos das escolas públicas do Rio de Janeiro? Por que a aprendizagem deste componente curricular costuma ser tão difícil para a maioria dos alunos? Esta é uma pergunta que a Secretaria Municipal de Educação (SME) está fazendo.

Segundo Guilherme Cintra, assessor do Gabinete da SME, inúmeros fatores corroboram para o baixo rendimento dos alunos: “O problema não passa apenas pela falta de mão de obra qualificada. A cidade tem muitas complexidades sociais e educacionais, a forma de ensinar precisa ser revisada... Inúmeras questões contribuem com a atual situação do ensino de Matemática, mas estamos em busca de soluções”.

Uma delas parte do diagnóstico de que o Rio tem vocações inexploradas na área. Na avaliação da SME, a Rede Municipal construiu, ao longo da história, poucas parcerias com as grandes universidades sediadas na cidade, como o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), que é referência mundial, ou como o Coppe da UFRJ, um dos maiores centros de ensino e pesquisa em Engenharia da América Latina. “Precisamos explorar melhor essa infraestrutura do município, estamos em busca de cooperações”, explica Guilherme Cintra.

Foi da parceria com o Impa que surgiu a iniciativa da Olimpíada Carioca de Matemática (OCM). A universidade realiza a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) há mais de 15 anos e essa experiência resultou em aprendizagens e diagnósticos que podem servir como caminho para a iniciativa no Rio de Janeiro.

Questão comunitária e círculo virtuoso

Após a realização de algumas Obmep, o Impa começou a constatar que algumas pequenas cidades do país tinham sempre vários alunos premiados com as medalhas de ouro, prata e bronze, além de inúmeras menções honrosas. É o caso de Cocal dos Alves, município com pouco mais de seis mil habitantes localizado no Nordeste do Piauí, responsável por cerca de 50% das premiações dadas aos estudantes do estado.

O que estava acontecendo? Qual a fórmula do sucesso dessas pequeninas cidades? O Impa foi atrás das respostas. Segundo Guilherme Cintra, os organizadores da Obmep constataram que, por trás dos recorrentes bons resultados, residia não só uma escola pública de qualidade, mas também uma grande mobilização dos moradores desses municípios para que seus alunos fossem bem na Olimpíada de Matemática.

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Cocal dos Alves (PI), a "Capital Brasileira da Matemática". Videocaptura, Canal IPHB Drones, YT

No caso de Cocal dos Alves, seus habitantes ficaram tão orgulhosos com a performance de seus estudantes, que a Prefeitura passou a adotar o epíteto de “Capital Brasileira da Matemática”. O que foi criado, na verdade, foi um círculo virtuoso de comprometimento com a Obmep. E isso impactou todo o ensino do município, pois a cidade também aumentou, expressivamente, o número de alunos aprovados no Enem para as melhores universidades do estado, inclusive para cursos concorridos como o de Medicina.

Inspirando-se nessa experiência do município piauiense, a SME busca produzir uma grande mobilização das comunidades escolares e contar com o amplo apoio dos professores de Matemática e das escolas da Rede. A ideia é criar um círculo virtuoso e o primeiro passo foi o lançamento, em 11 de agosto, da Olimpíada Carioca de Matemática, em evento realizado na E.M. Gonçalves Dias (1ª CRE), em São Cristóvão, pela Prefeitura do Rio e SME.

Questão de gênero

Não é por acaso que estimular o gosto das meninas pela Matemática está no rol de objetivos da OCM. Segundo dados da Obmep, menos de 30% dos estudantes que conquistam medalhas de ouro, prata e bronze são mulheres, embora a participação delas seja próxima a 50%.

Quando se leva em conta a questão de gênero, a diferença de performance só encontra justificativa na questão cultural. Inúmeras pesquisas das Neurociências constataram que a atividade cerebral dos meninos e das meninas é a mesma, quando se trata de desenvolver habilidades matemáticas.

Por outro lado, psicólogos também ligados às Neurociências afirmam que os estereótipos culturais são absorvidos na infância, bem mais cedo do que se imaginava. A ideia de que “Matemática é coisa para meninos” já pode estar presente nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.

O conceito equivocado de que “Matemática não é para meninas” rebate não só no ensino, mas também na construção das carreiras. Homens continuam sendo maioria absoluta na área científica, de forma que a Olimpíada Carioca pode se constituir em um ótimo momento para escolas, professores e comunidades debaterem as ideias culturais acerca da Matemática.

Formação de talentos

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Guilherme Cintra, assessor do Gabinete da SME. Divulgação

A Matemática ocupa posição estratégica no desenvolvimento científico e tecnológico de qualquer país. Descobrir jovens talentos na área é importante para o futuro. Mas conforme consta no Portal do Impa, para o coordenador-geral da Obmep, Cláudio Landim, o papel da competição não deve se restringir apenas à identificação de jovens talentos. É também preciso focar na sua formação.

Segundo Guilherme Cintra, a ideia da SME é exatamente essa. Por isso, a Secretaria está desenvolvendo um projeto que visa a criação de 22 ginásios experimentais voltados para a área científica e tecnológica, a fim de acolher e formar estudantes talentosos, entre eles os descobertos pela OCM. “O objetivo mais amplo é transformar o Rio em uma cidade-referência no campo da Matemática. Mas o foco do momento é na realização da Olimpíada Carioca de Matemática com mobilização das comunidades”, esclarece o assessor do Gabinete da Secretaria.

Olimpíada Carioca de Matemática: inscrições abertas

As inscrições da Olimpíada Carioca de Matemática estão abertas até 1º de outubro pelo aplicativo Rioeduca em Casa, acessando a opção "Olimpíada Carioca de Matemática" na área Outros do app. Podem participar da Olimpíada Carioca de Matemática os estudantes do 2º ao 9º ano da Rede Pública Municipal de Ensino do Rio de Janeiro. Mais detalhes estão no regulamento, disponível no app Rioeduca em Casa, na mesma área da inscrição.

 

conjunto de avaliações externas em larga escala que permite ao Inep realizar um diagnóstico da educação básica brasileira
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