09 Setembro 2015
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femininoCarioca tem alma de peladeiro. Quem gosta de assistir às partidas ou, de preferência, entra em campo, conhece bem o roteiro dos endereços consagrados pela tradição. Na Zona Norte, um lugar onde o futebol reúne aficionados diariamente é a Praça Manet, em Del Castilho. Perto do Centro, outro local bem conhecido é o Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, onde o líder comunitário Orlando Dato organiza jogos desde os anos 1980. Na Zona Oeste, uma referência é o clube fundado por Chico Buarque, o Polytheama, com sede no Recreio dos Bandeirantes há quase 40 anos. Mas o grande templo da pelada na cidade é mesmo o Parque do Flamengo, no trecho entre o Museu da República e o Hotel Glória, onde se localizam oito quadras, ocupadas 24 horas por dia, 365 dias por ano, há exatos 50 anos.

Paixão difícil de definir

A pelada é uma espécie de futebol que se joga, apesar do chão. Na crônica O Moleque e a Bola, Chico Buarque de Hollanda oferece não apenas este, mas o restante dos requisitos definidores do conceito, ao afirmar que as linhas são imaginárias, o próprio gol é coisa abstrata e, travessamente, insinuar que, diante de qualquer objeto que lembre uma bola, o jogador vira moleque.

carregalMas existem definições menos poéticas de pelada. Partida amadora (ou ruim), realizada em um campo de terra batida, por meninos descalços e com os chinelos servindo como balizas do gol, sem arbitragem nem uniformes. Futebol soçaite jogado em espaços pagos de clubes privados. Em comum, contudo, fica a falta de compromisso, isca irresistível para quem já tem, no cotidiano, estresse que baste.

Segundo o professor de Língua Portuguesa Ari Riboldi, existem três versões etimológicas para o termo pelada. Ele viria, simplesmente, da palavra pé, em referência aos pés que disputam a bola de forma atabalhoada no futebol de rua. Ou, então, do verbo pelar, da época em que se jogava com bolas de borracha que arrancavam (pelavam) a pele dos pés. Ou, por fim, as próprias canchas sem gramado, ou seja, “peladas”, em que principiou a prática.

Na origem, uma bola dividida

Para todos os efeitos, o futebol chegou ao Brasil por obra de Charles Miller, organizador da primeira partida, realizada em 15 de abril de 1895. De um lado do campo, estavam os funcionários da Companhia de Gás; do outro, os da Companhia Ferroviária São Paulo Railway, na qual o filho de imigrantes trabalhava. No entanto, fontes historiográficas recentes garantem que a primeira pelada teria acontecido bem antes, no subúrbio do Rio, mais precisamente entre os empregados da Fábrica de Tecidos Bangu, então com o nome Companhia Progresso Industrial do Brasil. O responsável pelo feito se chamava Thomas Donohoe – um técnico escocês da firma inglesa Platt Brothers and Co., de Southampton, que levou meses para conseguir trazer a primeira bola, uma bomba de encher, alguns pares de chuteiras e um livro com as regras, a fim de ensinar o esporte aos brasileiros.

chuteiras2“Cada time jogou com apenas cinco players, mas foi o suficiente para garantir a diversão. Para Donohoe isso pouco importava, pois o fato principal é que ele havia matado as suas saudades do football e conseguido realizar a sua primeira partida. Não houve preocupação com o uniforme, com as anotações dos gols marcados, com a cronometragem e tampouco se pensou em anotar o nome dos jogadores: o importante era matar a fome de bola. Por esta falta de dados palpáveis é que se prefere creditar a Charles Miller a introdução do futebol no Brasil, em outubro de 1894; e a realização da primeira partida em abril de 1895, um ano após o jogo do Sr. Donohoe”, garante o jornalista e historiador Carlos Molinari, no livro Nós É Que Somos Banguenses.

Disputas de autoria à parte, em paralelo ao desenvolvimento dos clubes aristocráticos, inspirados no formalismo europeu – nos quais quem fazia trabalho braçal ou não tinha fonte de renda fixa era naturalmente excluído –, em 17 de abril de 1904 foi fundado o primeiro clube de futebol proletário do Brasil: o Bangu Atlético Clube, pioneiro na admissão de operários e negros em seus quadros. Pelo menos no Rio de Janeiro, esses times nasciam espontaneamente, a partir dos jogos improvisados na rua ou no pátio das fábricas.

Exemplos não faltam. O gênio de pernas tortas, mundialmente conhecido como Garrincha, iniciou sua carreira como operário jogador em 1949, no time do Sport Club Pau Grande, organizado pelos operários da tecelagem Companhia América Fabril, onde trabalhava desde menino. O Diamante Negro Leônidas da Silva, por sua vez, integrou o time de funcionários da Light & Power do Rio de Janeiro. O jeito “despachado”, criativo e improvisado de jogar da classe menos abastada teria sido, assim, um fator decisivo na transformação cultural pela qual passou o futebol no país.

Peladas no Aterro, um capítulo à parte

miramar 300São oito os campos de futebol com dimensões propositadamente menores do que o tamanho oficial, uma vez que nem todo amador tem preparo de atleta. Seis deles têm 30 x 60 m e dois medem 80 x 40 m. A iluminação fica ligada a noite inteira, porque é habitual a disputa entre times de porteiros e garçons no fim do expediente. De 1h às 6h da manhã, o uso dos campos é livre. No restante do dia, no entanto, existe a necessidade de agendar um horário junto à administração do parque, sendo que a prioridade na reserva é das escolinhas de futebol. Para jogar, só descalço ou calçando tênis: chuteiras danificam a grama sintética. Algumas ligas amadoras foram incorporadas ao espaço, como Ellite Futebol Clube, Ajax Futebol Clube, Juventude do Aterro ou Dínamo do Aterro. Mas quem não chega a esse grau sofisticado de organização continua apelando para a divisão consagrada dos casados contra os solteiros.

As peladas que congregam gente vinda de todos os cantos da cidade estão presentes desde a inauguração do Aterro do Flamengo, em 1965. O ponto alto da festa aconteceu num jogo capitaneado por dois campeões mundiais de 1958: o goleiro Castilho e o lateral-esquerdo Nílton Santos, que representavam, respectivamente, os times do Fundo de Assistência ao Atleta Profissional e da Administração dos Estádios da Guanabara, atual Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj). A caracterização da área privilegiada para esta atividade de lazer está relacionada a um evento, criado pelo jornalista Mário Filho e promovido pelo jornal dele, o Jornal dos Sports, no ano de 1966: o I Torneio de Peladas.

zagalloEmbora o campeonato tenha se iniciado em 30 de abril, entre 13 de março e 26 de agosto o jornal publicou matérias em todas as edições, promovendo uma verdadeira campanha em prol da pelada como oportunidade para a revelação de novos talentos. Numa época em que ainda não existiam as escolinhas de futebol no Brasil, a estratégia surtiu efeito: no dia seguinte à abertura, 147 equipes oriundas de clubes, colégios e estabelecimentos comerciais já haviam realizado a inscrição, que era gratuita. Ao todo, 1.109 times com 16.635 jogadores estiveram na disputa. Das 830 entidades participantes, 270 tiveram, simultaneamente, times na categoria infantojuvenil e na adulta.

A promoção ajudou a efetivar melhorias no parque, que ganhou mais segurança, replantio da grama, construção de muretas e calçamento de pedras portuguesas ao redor das quadras. Serviu, também, como uma chance para que o público assistisse jogarem, bem de pertinho, os mais diversos tipos de craques, dos consagrados aos anônimos, conforme publicado na revista Placar, em março de 1971. Uma mesma partida podia contar com Jairzinho, Nílton Santos e Zizinho jogando pelo time da loja Moreira Leite Esportes, de um lado, contra o time do Cordão da Bola Preta ou do Morrone (Movimento de Oito Rapazes que Riem Onde Ninguém se Entende) de outro. Irreverentes tempos...

Fontes:
ALMEIDA, Ana Letícia Canegal de. Entrando em campo: a “pelada organizada” no Aterro do Flamengo. Rio de Janeiro: Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais da Puc-Rio, 2012.
HOLLANDA, Chico Buarque de. O Moleque e a Bola. In: O Globo. Rio de Janeiro: 21 de junho de 1998.
Site de Educação do UOL
www.memoriajs.blogspot.com.br

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