em tempo_real_03Neste artigo irei demonstrar como a epistemologia genética de Jean Piaget pode nos orientar na elaboração e classificação dos projetos de jogos educacionais. Por meio desses conceitos, seu produto será apresentado com maior clareza para as escolas, que, por sua vez, poderão criar estratégias de acordo com as séries educacionais. Para isso, iniciaremos com uma breve reflexão sobre a classificação dos órgãos públicos, nos aprofundaremos nas questões específicas da epistemologia e fecharemos com um breve exercício de reflexão.

A atividade de Classificação Indicativa no Brasil para filmes, programas de televisão, jogos eletrônicos e RPG é exercida pelo Ministério da Justiça, com fundamento na Constituição Federal de 1988 e no Estatuto da Criança e do Adolescente. Desde 1990, a competência de informar sobre as faixas etárias das diversões e dos espetáculos públicos, bem como dos locais e horários adequados de sua apresentação, é do Ministério da Justiça.

Inicialmente, o MJ classificou as obras para TV como: livres, exibição em qualquer horário; 12 anos, exibição após as 20 horas; 14 anos, exibição após as 21 horas; 18 anos, exibição após as 23 horas. Em setembro de 2000, foi acrescentada a faixa etária de 16 anos, exibição após as 22 horas, e determinou-se que nos materiais de divulgação de filmes, vídeos ou espetáculos públicos deve constar a Classificação Indicativa.

Em julho de 2004, acrescentou-se a faixa de 10 anos somente para cinema, vídeo e DVD, assim como se permitiu a entrada de crianças ou adolescentes dois anos menores do que a faixa etária classificada, quando acompanhados por pais ou responsáveis, excluindo filmes inadequados para menores de 18 anos. Finalmente, devemos aqui observar que os critérios utilizados para a Classificação Indicativa pelo Ministério da Justiça referem-se somente ao uso de imagens de sexo, violência e drogas.

Por isso, é preciso entender que a definição da faixa de público-alvo vai além das questões de sexo, violência e drogas. Emissoras ou distribuidoras precisam saber exatamente a que faixa seu produto se destina. Se as empresas ou o governo só conseguem determinar por critérios de violência, drogas, sexo ou achismo, precisamos encontrar uma teoria que nos oriente – a epistemologia genética de Jean Piaget.

Jean Piaget nasceu em 1896, na Suíça, e já aos 11 anos publicou seu primeiro artigo, sobre pombos albinos. Tornou-se, então, doutor em Ciências Naturais pela Universidade de Neuchâtel. Logo no início de sua carreira acadêmica, Piaget se interessou pela psicanálise e, para colocá-la em prática, mudou-se para Paris, onde teve a oportunidade de lecionar no Colégio Grange-Aux-Belle para garotos, dirigido por Alfred Binet, que desenvolveu o teste de inteligência de Binet.

Foi durante seu trabalho com os resultados desses testes que ele percebeu regularidades nas respostas erradas das crianças de mesma faixa etária. Esses dados permitiram o lançamento da hipótese de que o pensamento infantil é qualitativamente diferente do pensamento adulto.

Piaget seguiu seus estudos de psicologia do desenvolvimento entrevistando milhares de crianças e observando como seus próprios filhos cresciam. As teorias foram divulgadas em seu livro Epistemologia Genética e logo influenciaram diversas pesquisas. Seymour Papert usou o trabalho de Piaget como fundamentação ao desenvolver a linguagem de programação; e Alan Kay, como base para o sistema conceitual de programação Dynabook, que foi inicialmente discutido em Xerox PARC.

Essas discussões levaram, ainda, ao desenvolvimento do protótipo Alto, que explorou pela primeira vez os elementos de Interface Gráfica do Usuário (GUI) e que influenciou a criação de interfaces de usuário a partir dos anos 1980.

Piaget, então, revelou sua teoria cognitiva ao propor a existência de quatro estágios de desenvolvimento cognitivo no ser humano: sensório-motor (de 0 a 1 ½ ou 2 anos), pré-operatório (de 1 ½ ou 2 anos até 6 ou 7 anos), operatório concreto (de 7 ou 8 anos até 11 ou 12 anos) e operatório formal (de 11 ou 12 anos em diante).

Sensório-Motor
O bebê começa a construir esquemas de ação para assimilar mentalmente o meio. A inteligência é prática. As noções de espaço e tempo são construídas pela ação. O contato com o meio é direto e imediato, sem representação ou pensamento.

Pré-Operatório
Neste período, após a experimentação ativa que ocorreu no estágio anterior, a criança internaliza as ações realizadas e adquire a habilidade verbal e simbólica com requintes de imitação. A motricidade também ganha movimentos finos e a criança já consegue correr, subir, pular e descer.

Nesse estágio, começa a dar nomes para os objetos, consegue fazer representações mentais destes e raciocinar intuitivamente, mas ainda não consegue realizar operações lógicas. No entanto, procura objetos através das trajetórias em que foram escondidos. É uma fase essencialmente egocêntrica.

Operatório Concreto
A criança começa a formar conceitos de tempo, espaço, velocidade, ordem e casualidade, sendo capaz de relacionar diferentes aspectos e abstrair dados da realidade. Possui lógica consistente e habilidade de solucionar problemas concretos.

A criança já desenvolve a capacidade de representar uma ação no sentido inverso de uma anterior. Esse estágio é ainda dividido em dois subestágios: pré-operacional (de ± 2 a 7 anos) e das operações concretas (de ± 7 a 12 anos).

Operatório Formal
em tempo_real_02A representação agora permite a abstração total e a busca por soluções a partir de hipóteses, e não apenas pela observação da realidade. A motricidade ganha movimentos complexos e finos. O adolescente começa a raciocinar de forma lógica com enunciados puramente verbais.

Nesse momento, já temos base para uma breve reflexão, uma análise do produto que busque por elementos que o enquadrem em determinado estágio. Logo de início, podemos observar que as faixas etárias não irão divergir com as propostas pelo governo, mas se complementar.

Será ainda curioso observar como determinados jogos podem ser usados para acompanhar e estimular o desenvolvimento da criança dentro da faixa etária, mas, antes, é preciso entender em detalhes a teoria da epistemologia genética – e, para aqueles futuros fãs do trabalho de Piaget, uma visita às livrarias e aos sebos, onde se pode encontrar muitos originais e experiências interessantes sobre essa teoria.

Eduardo Azevedo é mestre em Educação e diretor do Núcleo de Tecnologia da Informação da MultiRio 

Leia mais sobre o assunto em Classificação Indicativa: Guia Prático