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História dos Esportes no Rio
11 Maio 2016
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O Fla-Flu surgiu quarenta minutos antes do nada. A frase, atribuída ao jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, passa bem a ideia da importância que o futebol tem para o carioca. Como tudo na vida, esse que é o esporte nacional por excelência também não apareceu pronto: um olhar mais cuidadoso sobre a historiografia da cidade revela a dura batalha popular pelo direito de amar o futebol.

Esporte de elite

Quando, no fim do século XIX, o futebol desembarcou no Brasil, incluído na bagagem pessoal de técnicos altamente qualificados vindos da Grã-Bretanha, ninguém poderia imaginar que o maior legado desse intercâmbio se daria no nível cultural. Oficialmente, esses homens tinham a incumbência de transferir tecnologia, sobretudo na construção de ferrovias e na implantação de fábricas, em especial as têxteis. As elites brasileiras, principalmente do Rio e de São Paulo – políticos e aristocratas ligados à economia agroexportadora, militares de alta patente, empresários do comércio e da indústria e expoentes da intelectualidade – se apropriaram dos hábitos desses estrangeiros e passaram a compartilhar com eles a prática do remo, do críquete e do football, se tornando verdadeiros sportsmen. Ficava restrito a cavalheiros desfrutar desses sinônimos de civilidade.

A direção do Andarahy arcava com todas as despesas e fornecia o material esportivo, dos uniformes às bolas e chuteiras (Fonte: cidadesportiva.wordpress.com)

Mas acontece que não existe fábrica nem construção de ferrovia sem mão de obra operária. Os trabalhadores logo começaram a mostrar habilidade e, mais do que isso, sentir prazer em bater uma bolinha, só pelo passatempo. O que gerou uma ressignificação do futebol, que deixava, com isso, de ser um elemento de diferenciação social. O mais interessante é que, estrategicamente, os dois extremos da pirâmide se organizaram para criar ligas autônomas.

Fundada em 8 de julho de 1905, a Liga Metropolitana de Football, mais tarde rebatizada de Liga Metropolitana de Sports Athleticos, reunia, de início, representantes do Football and Athletic Club, do Bangu Athletic Club, do América FC, do Botafogo FC e do Fluminense FC. Num segundo momento, o Flamengo também se integrou ao grupo pioneiro na promoção de campeonatos locais e que era considerado como agregador dos clubes “da mais fina linhagem”.

Em abril de 1907, no entanto, diversos clubes da periferia que não tinham conseguido arcar com os custos de filiação da Liga Metropolitana fundaram a Liga Suburbana de Futebol, dentre os quais Mangueira, Nacional, Riachuelo, Sampaio e Pedregulho. Essa associação alternativa era respaldada por uma imprensa local, que defendia o interesse dos moradores e denunciava o aliciamento dos craques pelos grandes da Zona Sul. Naquele ano, a presença de Francisco Carregal, filho de pai português e de mãe negra brasileira, na equipe do Bangu Athletic Club, gerou protestos, até que a Liga Metropolitana proibiu a presença de “pessoas de cor” nos times, o que fez com que o clube se desligasse da entidade. Como o futebol crescia mais e mais nos pátios das fábricas e nos campos de várzea, entre as décadas de 1910 e de 1920, ele chegou a ser praticado em mais de duas centenas de agremiações, divididas em seis ligas independentes da “Metro”.

Tentativa de segregação

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e a convocação de integrantes para o alistamento militar, desapareceram alguns dos times cariocas formados majoritariamente por britânicos, como o Rio Cricket & Athletic Association e o Paysandu Cricket Club. Alberto Silvares, que escrevia na revista Sports e era presidente do Villa Isabel FC, iniciou uma campanha pela necessidade de selecionar os indivíduos que integravam as equipes de acordo com suas profissões. Assim, apresentou, em agosto de 1915, uma proposta que dividia a formação em três conjuntos distintos.

Em Bangu, clubes dançantes exerciam forte poder de atração sobre as comunidades que já gravitavam em torno do esporte. Como o Flor da União, que congregava ex-escravos e seus descendentes, brancos pobres e imigrantes de várias nacionalidades (Fonte: cidadesportiva.wordpress.com)

Na Série A, ficariam os grupos capazes de provar que tinham uma renda mensal alta e de pagar uma igualmente alta taxa de adesão, além de ter uma secretaria própria e um campo, de acordo com o exigido no regulamento. Na Série B, estariam membros que soubessem ler e escrever, apresentassem bom comportamento e possuíssem meios de subsistência, atuando nas seguintes profissões: operários, empregados da Light, estafetas dos telégrafos, condutores e motorneiros de bondes, motoristas particulares, lustradores, engraxates, pedreiros, tipógrafos, sapateiros, carpinteiros, guardas civis, caixeiros de botequins e “todos os que recebem gorjetas”. Na Série C, seriam aceitos praças e inferiores de qualquer corporação armada, conquanto fossem devidamente alfabetizados e bem comportados.

Como pano de fundo da discussão estavam os tumultos que culminavam em pauladas, tiros e navalhadas, especialmente nas partidas disputadas pelo Bangu Athletic Club – cujo campo acabou sendo interditado pela Liga Metropolitana – e pelo Andarahy AC, originários da Fábrica Bangu e da Fábrica Cruzeiro, respectivamente. O Bangu, campeão da segunda divisão em 1914, mesmo tendo sido um dos fundadores da Liga, não gozava da simpatia de cronistas esportivos e dirigentes porque tinha negros e operários entre seus jogadores. Ocorrências violentas entre os clubes da elite costumavam ser minimizadas nos textos das reportagens, enquanto os de subúrbio eram acusados de afugentar as famílias de bem dos estádios. Até o escritor Lima Barreto observou o tratamento diferenciado, em um artigo publicado em 1921 na revista Careta, alegando: “O football é uma e mesma coisa em toda parte!”. Mas o tiro saiu pela culatra: não apenas o projeto de Silvares não foi à frente como a discussão sobre o assunto acabou favorecendo os clubes das camadas populares.

Quebra de paradigma

Dispostos a fazer do Vasco da Gama um time de referência no futebol do Rio, os comerciantes portugueses passaram por cima dos preconceitos de classe e de cor e, em 1919, contrataram de uma só vez seis jogadores do Engenho de Dentro, tricampeão da Liga Suburbana. Mais dinheiro ou um bom emprego eram usados como chamariz para a transferência do trabalhador-jogador de futebol: homens pobres que viam na oportunidade uma perspectiva de ascensão social e financeira, praticando o esporte de forma remunerada, enquanto mantinham um emprego formal simultaneamente.

Agremiações donas do próprio campo, como o Fluminense, complementavam a renda alugando a infraestrutura para a realização de jogos dos interessados (Fonte: historiadoesporte.wordpress.com)

Naquele mesmo ano, o país se sagrou vencedor no Campeonato Sul-Americano de Futebol, justamente ao sediar a competição pela primeira vez. Arnaldo Guinle, presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e do Fluminense Football Club, conseguiu incentivos para realizar os jogos na sede do clube das Laranjeiras. Graças ao investimento em reformas, a capacidade do estádio subiu para um público pagante de 18 mil pessoas.

A relação estabelecida entre a população e a seleção brasileira viria com toda força a partir de nova edição do evento na capital federal, três anos mais tarde, como parte importante das celebrações pelo Centenário da Independência. A começar pela Exposição Internacional de 1922, inaugurada no dia 7 de setembro. Os Jogos Desportivos do Centenário, também chamados de Jogos Olympicos do Rio de Janeiro, foram uma das primeiras realizações a reunir diferentes esportes na América do Sul – futebol, basquete, tênis, natação, polo aquático, esgrima, tiro, remo, boxe, hipismo e atletismo –, com provas e partidas ao longo de setembro e outubro.

Material de divulgação do Villa Isabel Football Club (Fonte: linguasoltafc.blogspot.com)

O primeiro jogo da seleção brasileira no Campeonato Sul-Americano de Futebol de 1922 aconteceu em 17 de setembro, também no estádio do Fluminense. A fim de envolver a população e contornar tensões de ordem política, surgiu a ideia de escolher, por meio de uma disputa entre as seleções estaduais, os melhores jogadores para representar o país, inclusive com atletas de fora do eixo Rio-São Paulo. Mas a final acabou sendo mesmo entre os selecionados carioca e paulista, com vitória do último, em dois jogos, realizados no Estádio do Palestra Itália (4 x 1) e do Fluminense (2 X 1), e estrondoso sucesso de público e renda.

Ao longo de toda a competição sul-americana, no entanto, a preocupação com os excessos da torcida foi constante – e em vão. Embora a legislação vigente coibisse os arroubos dos espectadores, na prática não se conseguia fazer ninguém assistir aos jogos permanecendo o tempo todo sentado. Em 22 de outubro de 1922, o Brasil foi campeão, ao bater a seleção paraguaia por 3 x 0. A imprensa teve importante papel no fenômeno de sedimentação do futebol como o mais popular dos esportes, ao celebrar os jogadores como verdadeiros heróis da nação.

Ah, sim: quanto ao primeiro Fla-Flu, ele aconteceu no dia 7 de julho de 1912, no campo das Laranjeiras. Cerca de 800 espectadores assistiram à vitória do Fluminense por 3 X 2 em uma partida das mais emocionantes, já que o selecionado de futebol do Flamengo tinha se originado de uma briga interna do, a partir de então, eterno rival.

Fontes:

JUNIOR, Nei Jorge Santos; MELO, Victor Andrade. “Recrear, instruir e advogar os interesses suburbanos”: posicionamentos sobre o futebol na Gazeta Suburbana e no Bangu-Jornal (1918-1920). In: Movimento. Porto Alegre, v. 20, n. 01, p. 193-213, jan/mar 2014.

______ Violentos e desordeiros: representações de dois clubes do subúrbio na imprensa carioca (década de 10). In: Revista Brasileira de Educação Física e Esporte. São Paulo, 2013, jul/set, 27(3): 411-22.

SANTOS, João Manuel Casquinha Malaia; DRUMOND, Maurício; MELO, Victor Andrade. Celebrando a nação nos gramados: o Campeonato Sul-Americano de Futebol de 1922. In: História: Questões & Debates, Curitiba, n. 57, p. 151-174, jul/dez 2012. Editora UFPR.

www.cidadesportiva.wordpress.com – Acesso em 9/3/2016.

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