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Carmen Miranda, a pequena notável
SÉRIE
Heróis e Heroínas do Rio
02 Setembro 2016 | Por Beatriz Calado*
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O figurino e os acessórios eram as marcas de Carmen, considerada a primeira artista multimídia do país (Crédito: Wikimedia Commons)

Uma explosão de cores, formas e gestos. Quem assistia à cantora Carmen Miranda nos palcos não tinha como não perceber o figurino que compunha o visual pelo qual ela ficou conhecida: roupas extravagantes – algumas até curtas para a época –, chapéus enfeitados, bijuterias e sandálias plataformas de 20cm, para disfarçar o 1,52cm de altura. Tudo somado ao batom vermelho nos lábios.

Dona de um estilo único, Carmen era ousada nas performances e tornou-se um símbolo da indústria cultural nas décadas de 1930, 1940 e 1950. Além de cantar, dançava requebrando os quadris e balançando as mãos, e também atuava. Essas habilidades fizeram com que ela se tornasse a primeira artista multimídia do país, levando a cultura brasileira ao exterior.

A artista foi uma excelente intérprete, tendo eternizado canções de músicos brasileiros consagrados, como Lamartine Babo, Ary Barroso, Dorival Caymmi e Pixinguinha. Ao cantar, fazia questão de enfatizar a letra R e de acrescentar palavras inexistentes na canção original.

Portuguesa abrasileirada

Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em 9 de fevereiro de 1909, na cidade de Marco Carnavases, em Portugal. Com dez meses, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, indo morar na Lapa, reduto da boêmia carioca. O nome artístico foi dado pelo tio, ainda na infância, em homenagem à ópera Carmen, do compositor francês Georges Bizet. Estudou na Escola Santa Tereza, lugar em que o lado artístico começou a aflorar. Lá, participou de festas escolares e do coral, além de realizar discursos e declamações.

Aos 16 anos, desistiu dos estudos e começou a trabalhar como balconista em uma loja de roupas, no centro do Rio. No emprego, aprendeu a fazer chapéus, habilidade que mais tarde seria fundamental para que passasse a confeccionar os próprios adereços. Em 1926, fez a primeira aparição no cinema, como figurante no filme A Esposa do Solteiro, de Paulo Benedetti.

A convite de uma cliente para quem criava enfeites de cabeça, Carmen se apresentou, em 1929, em uma festa beneficente no Instituto Nacional de Música. Encantado com o desempenho da jovem moça, o músico baiano Josué de Barros decidiu ajudá-la a iniciar a carreira de cantora. A primeira gravação foi a marchinha de carnaval YáYá YóYó, do próprio Barros.

Cartaz do filme Alô Alô Carnaval, em 1936 (Crédito: Wikimedia Commons)

O nascimento de uma artista

Carmen passou a se apresentar em emissoras de rádio, principalmente na Educadora, Sociedade e Mayrink Veiga. Os primeiros discos foram gravados pela RCA Victor, com as faixas Triste Jandaya e Dona Balbina, e pela Brunswick, com as canções Não Vá Simbora e Se o Samba É Moda. Mas foi com Pra Você Gostar de Mim (ou Taí), de Joubert Carvalho, que, em 1930, alcançou o sucesso. O hit vendeu mais de 35 mil exemplares em apenas um mês, confirmando o talento da cantora.

Após o primeiro sucesso, a vida profissional se intensificou. Em 1931, viajou pela primeira vez a Buenos Aires, onde se apresentou com Francisco Alves e Mário Reis, no Cine Broadway. No ano seguinte, realizou turnês pelos estados da Bahia e de Pernambuco para divulgar as canções de carnaval gravadas pela RCA Victor. No ano de 1933, assinou um contrato com a Mayrink Veiga, a rádio mais importante da época, tornando-se a primeira cantora a realizar tal feito. A indicação veio do radialista César Ladeira, que a apelidou de Pequena Notável.

Nessa década, participou ainda dos filmes Estudantes e Alô Alô Brasil, em 1935, e de Alô Alô Carnaval, em 1936. Começou a se apresentar no Cassino da Urca com a irmã Aurora Miranda. Em 1936, foi para a Rádio Tupi, voltando, no ano seguinte, para a Mayrink Veiga.

O Que é Que a Baiana Tem?

Em 1939, Carmen estrelou o filme Banana da Terra, produzido por Wallace Downey. Junto com Dorival Caymmi, que tinha acabado de chegar ao Rio, cantou O Que É Que a Baiana Tem?, composição dele. Naquele mesmo ano, gravaram um disco com esse hit e a faixa A Preta do Acarajé.

O sucesso de O Que é Que a Baiana Tem? foi tão grande que até hoje Carmen é lembrada pelas roupas que usou e por sua performance. É difícil desassociar a figura da artista das saias rodadas, dos colares em excesso, do batom vermelho e do jeito único de balançar o corpo. Após o filme, continuou a se apresentar vestida de baiana, mas dessa vez no teatro. Foi por sua atuação com a música de Caymmi que Carmen viajou a trabalho para os Estados Unidos pela primeira vez.

A Pequena Notável, colocando suas mãos na calçada da fama, em Los Angeles (Crédito: Wikimedia Commons)

Carreira internacional

Acompanhada pelo grupo Bando da Lua, que tocava em seus shows, ela se apresentou em Boston e Nova Iorque. Mesmo sem saber falar inglês, a cantora contagiava as plateias por onde passava. E fez sucesso também com o filme Serenata Tropical, que marcou o início de sua carreira cinematográfica naquele país.

Voltou ao Brasil em julho de 1940, quando, em uma apresentação no Cassino da Urca, recebeu críticas da imprensa e da elite brasileira de que estaria americanizada. Como resposta ao tratamento recebido, gravou a canção Disseram Que Eu Voltei Americanizada, além das faixas Voltei Pro Morro, Diz Que Tem e Disso É Que Eu Gosto, com temáticas nacionalistas.

Carmen retornou aos Estados Unidos em 1941 e teve suas mãos e pés gravados na Calçada da Fama, no Teatro Chinês, em Los Angeles. Até hoje ela é a única artista sul-americana a deixar essa marca no local. Nos EUA, fez participações em programas televisivos e radiofônicos, além de shows em boates e teatros. Sua carreira no cinema ganhou mais projeção nas dezenas de longa-metragens durante os 14 anos em que permaneceu naquele país, entre eles, Uma Noite no Rio (1941), Entre a Loira e a Morena (1943), Sonhos de Estrela (1945) e Copacabana (1947). A artista também fez shows pela Europa e voltou outras vezes a Buenos Aires, lugar que sempre a recebeu muito bem.

Carmen e David Sebastian, seu marido (Crédito: Wikimedia Commons)

Foi durante o tempo em que morou no exterior que conheceu o marido David Sebastian. Eles se casaram em 1947 e não tiveram filhos. Um fato curioso marcou o casamento dos dois: um ano depois da oficialização, a cantora anunciou que estava esperando um filho e já tinha até escolhido o nome. Entretanto, dias depois do comunicado, ela foi internada e perdeu o bebê. Algumas pessoas acreditam que a gravidez era falsa e não passava de uma desculpa para não voltar ao Brasil, onde receberia uma condecoração da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.

Bye Bye, Brasil

Devido à rotina pesada de trabalho, Carmen precisou fazer uso de medicamentos para conseguir cumprir os contratos. Por recomendação médica, retornou ao Brasil em 1954, passou por tratamento e voltou para os Estados Unidos, onde retomou a vida atribulada que tinha antes.

Sua última aparição pública foi no programa The Jimmy Durante Show, em 4 de agosto de 1955. No dia seguinte, Carmen Miranda, uma das maiores artistas brasileiras, foi encontrada morta, em Los Angeles, aos 46 anos de idade, vítima de um infarto. O velório aconteceu na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, e o sepultamento, dia 13 de agosto, no Cemitério São João Batista.

Símbolo da identidade nacional. 

Enquanto esteve viva, a artista foi considerada uma representação da mulher nacional e contribuiu para divulgar a ideia do nacionalismo brasileiro. Quando se mudou para os Estados Unidos, alguns historiadores acreditam que ela passou a representar o estereótipo da mulher brasileira e latino-americana, sobretudo nos filmes de que participou lá. Há quem afirme, também, que a cantora fez parte da Política da Boa Vizinhança, entre o Brasil e os Estados Unidos, no contexto da Segunda Guerra Mundial, tornando-se um ícone pop entre os dois países, que tentavam manter boas relações.

Homenagens

Na cidade do Rio de Janeiro, em 1976, a Pequena Notável ganhou um museu dedicado a sua obra, no Parque do Flamengo, com um acervo de mais de três mil itens.

No bairro da Ilha do Governador, há um busto em sua memória, e a artista empresta seu nome, também, a uma unidade escolar, um Espaço de Desenvolvimento Infantil, na Barra da Tijuca.

Fontes: Sites: Carmen Miranda, Dicionário MPB e Secretaria de Cultura do Governo do Estado.

 


* Beatriz Calado, estagiária, com supervisão de Regina Protasio.

 
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