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Hospedaria da Ilha das Flores: porta de entrada virou museu de imigrantes
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Rio Multicultural - reportagens
26 Dezembro 2013 | Por Sandra Machado
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refeitorioAo longo de muitas décadas, os imigrantes chegaram pelo mar e passaram seus primeiros dias nas hospedarias públicas. De 1883 a 1966, uma ilha na Baía de Guanabara abrigou a primeira Hospedaria de Imigrantes do Brasil: a Ilha das Flores.

Criada pelo governo imperial, ela atendia ao programa de incentivo à vinda de imigrantes como força de trabalho, não apenas em substituição à mão de obra escrava, mas também para o cultivo do café. Por ali passaram italianos, portugueses, espanhóis, alemães, austríacos, russos, poloneses, franceses, ingleses, suecos, suíços, chineses, árabes, letões e judeus, entre outros grupos.

De acordo com os registros do Arquivo Nacional, apenas nos anos iniciais de funcionamento, entre 1883 e 1914, teriam estado na hospedaria cerca de 500 mil imigrantes. O segundo maior movimento aconteceu mais tarde, de 1946 a 1960, com aproximadamente 50 mil refugiados da Segunda Guerra Mundial, que aportaram no Rio de Janeiro. Em 1966, a hospedaria fechou e passou a pertencer à Marinha do Brasil.

No dia 13 de novembro de 2012, foi inaugurado, ali, o Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores, fruto de uma parceria entre a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Faperj) e a Marinha, que também mantém na área o Comando da Tropa de Reforço do Corpo de Fuzileiros Navais. O acesso é pela BR-101, no limite entre os municípios de Niterói e de São Gonçalo, já que a ligação com o continente foi aterrada na década de 1980.

Para conhecer o museu na Ilha das Flores, é preciso fazer o agendamento pelo telefone (21) 3707-9504 ou pelo site. Durante o verão, por causa do calor, as visitas acontecem sempre às terças-feiras, às quintas-feiras e aos sábados, das 9h às 13h.

Origem do nome

No início do século XIX, a Ilha das Flores pertencia a Delfina Felicidade do Nascimento Flores e se chamava Ilha de Santo Antônio. O nome atual deve ter relação com o fato de ser conhecida como a “ilha da Dona Flores”. Em 1857, foi comprada por José Ignácio Silveira da Motta, conselheiro e senador do Império. Ali, o novo proprietário investiu em cultivos agrícolas e na piscicultura. Em 1883, o governo imperial adquiriu o arquipélago formado pelas ilhas Ananás, Mexingueira e das Flores, na qual foi instalada a Hospedaria de Imigrantes.

Migrações múltiplas, modelo único


recepcao2“No decorrer do século XIX, na medida em que chegavam imigrantes, foram criados ‘abrigos’ para a recepção dos europeus em várias partes do continente americano, como São Paulo, Buenos Aires e Halifax (Canadá). A mais conhecida é Ellis Island, localizada em Nova York. Estima-se que 40% dos cidadãos norte-americanos de hoje têm ancestrais que passaram por lá”, explica Luís Reznik, professor da Uerj e da PUC-Rio e coordenador do Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores.

Segundo o pesquisador, os imigrantes que chegaram ao Brasil pela hospedaria não ficavam necessariamente na cidade do Rio, mas seguiam para várias partes do país. “As hospedarias abrigavam quem não tinha contatos certos, como parentes, contrato de trabalho estabelecido ou laços comunitários.” Os imigrantes permaneciam, em média, uma semana naquele que era o ponto de partida para sua aventura no Novo Mundo.

“A Ilha das Flores não foi um espaço de quarentena. Pelo contrário: os que chegavam doentes não deveriam ir para a hospedaria”, conta Reznik. Uma das principais preocupações era proteger os recém-chegados das epidemias que existiam na cidade do Rio de Janeiro ao longo do século XIX, como febre amarela, varíola, tuberculose e malária. Os imigrantes europeus, por exemplo, navegavam por cerca de 15 dias até chegar à Baía de Guanabara. Tão logo o navio atracava, recebiam a visita da inspeção sanitária. Na sequência, eram levados em embarcações menores, da Praça Quinze ou da Praça Mauá, para o cais da Ilha das Flores.

Primeiros dias de Brasil

trampolimApós o registro na recepção, os estrangeiros recebiam um protocolo de identificação, que era seu primeiro documento no Brasil. Depois, faziam um exame médico no Pavilhão Clínico, composto de hospital – inclusive com atendimento odontológico –, maternidade e duas enfermarias. Intérpretes facilitavam a comunicação entre os imigrantes e os funcionários. No refeitório, com capacidade para receber até 3.500 pessoas, eram servidas três refeições por dia. Havia, ainda, uma lavanderia, carpintaria, posto telegráfico e um balcão de empregos.

Ao todo, eram três pavilhões destinados a adultos do sexo masculino e um para abrigar mulheres e crianças, que chegavam em menor número. Cada prédio tinha capacidade para alojar mais de mil pessoas. Malas e baús com os pertences dos recém-chegados ficavam no porão dos dormitórios. O extravio de bagagem, no entanto, também era bastante comum.

Alguns funcionários moraram na ilha por tanto tempo que seus filhos acabaram se tornando funcionários também. Além de conhecer o conjunto arquitetônico da hospedaria propriamente dita, hoje é possível ter acesso às histórias das famílias de moradores e de hóspedes, visitar os dormitórios, o refeitório, as casas dos funcionários e a capela, que só ficou pronta em 1948.

Pela Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores passaram familiares e personalidades que, mais tarde, viriam a dar contribuições para a cultura e para o esporte brasileiro. Helene Schmidt, que veio da Alemanha, era avó dos velejadores e medalhistas olímpicos Lars e Torben Grael. A atriz Elke Maravilha também esteve na hospedaria, ainda menina, com os pais, refugiados da Rússia.

Hoje, o Rio de Janeiro vive uma nova era de chegada de estrangeiros, em especial estudantes. A propósito de políticas públicas a serem implementadas, de forma a tornar a cidade uma metrópole cada vez mais multicultural, o professor Luís Reznik afirma: “Temos que buscar medidas de solidariedade e humanitarismo para acolher os novos imigrantes, especialmente os refugiados”.

 
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