ACESSIBILIDADE
Acessibilidade: Aumentar Fonte
Acessibilidade: Tamanho Padrão de Fonte
Acessibilidade: Diminuir Fonte
Youtube
Facebook
Instagram
Twitter

Presença alemã nas esquinas e nos sabores do Rio
SÉRIE
Rio Multicultural - reportagens
10 Junho 2014 | Por Fernanda Fernandes
Compartilhar pelo Facebook Compartilhar pelo Twitter Compartilhar pelo Whatsapp
 
FEDERACAO

Já dizia o arquiteto alemão Ludwig Mies Vander Roh, referência no século XX e inspiração para muitos profissionais brasileiros até hoje: menos é mais. Ele se referia à arquitetura, mas a apropriação pode ser feita para pensar a influência da imigração alemã na cidade do Rio de Janeiro – ainda que esses imigrantes tenham vindo em menor número do que os oriundos de países como Itália, Espanha e Portugal.

No Brasil, os alemães influenciaram a arquitetura, a culinária e a industrialização. A inovação tecnológica veio com o uso racional do solo e os engenhos movidos a água. Foram os alemães, também, que introduziram o cultivo do trigo e a criação de suínos no país.

Na alimentação, trouxeram as carnes salgadas e defumadas, as linguiças, as salsichas, a cerveja e o chope, palavra originada do alemão Schoppen, uma unidade de medida equivalente a cerca de meio litro.

Do Brasil para o Rio

A presença alemã se destaca em vários bairros da cidade. Na Gávea está localizada a sede da Sociedade Germania (Gesellschaft Germania) – a mais antiga associação cultural e recreativa de caráter étnico surgida no país; a Lapa abriga a Escola Superior de Desenho Industrial (hoje integrada à Uerj), primeira instituição a oferecer um curso de Design de nível superior no Brasil, inspirada e criada sob influência alemã; o bairro do Méier recebeu esse nome em referência ao dono das terras daquela região, Augusto Duque Estrada Meyer (acompanhante do imperador dom Pedro II), de ascendência e sobrenome alemães; no Rio Comprido, o Hospital do Amparo foi fundado por alemães em 1912; e também o atual Hospital Central da Aeronáutica , antes Hospital Alemão, e, na época, considerado o hospital de mais alto padrão técnico do Rio de Janeiro. Inaugurado em 1957, o Instituto Cultural Brasil Alemanha, hoje também conhecido como Goethe-Institut, fica no Passeio. E isso sem falar nos bares e restaurantes especializados na culinária típica alemã, como a Adega do Pimenta, em Santa Teresa, o Bar Brasil e o Bar Ernesto, na Lapa.

Alemanha dentroNo Rio, a Alemanha virou até samba, no carnaval em 2013, quando a Unidos da Tijuca homenageou o país no enredo Desceu Num Raio, É Trovoada! O Deus Thor Pede Passagem pra Mostrar Nessa Viagem a Alemanha Encantada, que retratou a cultura e a contribuição alemã em diversos campos de conhecimento. O desfile marcou o lançamento informal do ano Alemanha + Brasil 2013-2014, que visa a promoção de negócios, apresentação de oportunidades e discussão de estratégias de cooperação entre os dois países.

Em 3 de outubro de 2012, data em que se celebra a unificação da Alemanha, o Cristo Redentor brilhou em preto, vermelho e dourado. Mas toda essa influência vem de longa data, quando os primeiros imigrantes germânicos chegaram ao Brasil...

Por que os alemães vieram?

Para entender esse processo imigratório é preciso analisar as condições da Alemanha e do Brasil naquela época. No século XIX, a Europa passou por grandes transformações sócio-político-econômicas. Na primeira metade dos anos 1800, as consequências da Revolução Francesa, da Abolição da Escravatura e da Revolução Industrial resultaram numa difícil condição de vida para os povos de língua alemã.

A industrialização, iniciada na Inglaterra no século XVIII, trouxe efeitos negativos aos artesãos, já que a máquina produzia mais e melhor. A vacinação em massa da população acelerou o crescimento populacional e não havia emprego para tanta gente. A guerra da Alemanha com a França, embora tivesse terminado em 1815 com a derrota de Napoleão, não mudou as péssimas condições pelas quais o país passava tanto nas cidades como no campo. Assim, movida pela esperança de vida melhor, uma parte da população partiu para as Américas.

Pelo lado do Brasil, apesar de precisarmos de mão de obra para a agricultura, esse não foi o fator determinante para a vinda dos alemães. O fato é que o governo pretendia promover o “branqueamento” da população, principalmente no Sul. Havia, também, um interesse político por parte da família real portuguesa, que queria estabelecer laços de amizade com povos germânicos para que Portugal tivesse apoio contra o império francês. Assim, no Brasil do século XIX, abriram-se excepcionais condições para a imigração europeia.

Os primeiros imigrantes

Os primeiros alemães vistos como imigrantes se estabeleceram no Rio de Janeiro a partir de 1808, atuando no comércio de exportação e importação. Até 1822, vinham atraídos, principalmente, pela abertura dos portos, que viabilizou suas atividades comerciais. Eram negociantes, artistas, naturalistas e cônsules, além de mercenários aliciados para as forças armadas brasileiras.
Os imigrantes germânicos, ou seja, dos muitos países que existiam naquela época na atual Alemanha e Áustria, foram predominantes durante a primeira fase da colonização, que durou até 1830. Um dos principais fatores que explicam essa preferência é o fato de a imperatriz d. Leopoldina, esposa de d. Pedro I, ser austríaca e, portanto, de origem germânica.

Durante o Primeiro Império, a entrada desses imigrantes era feita pelo Porto do Rio de Janeiro e, daqui, eles eram encaminhados aos seus locais de destino, principalmente no Sul do país. Isso aconteceu porque o imperador dom Pedro I, movido por questões de segurança nacional, diante das sucessivas disputas territoriais naquela área de fronteira, criou um programa de imigração para lá. Contingentes mais representativos aportaram nessa região a partir de 1824, ano em que foi fundada a colônia agrícola de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.

Nessa época, muitos imigrantes também foram para Nova Friburgo, na região serrana do Rio, onde havia sido instaurada uma colônia suíça. Sem condições de abrigar tantos novos moradores, por volta de 1840, parte deles foi para Petrópolis. Até hoje essa cidade apresenta marcas da presença alemã, que vão desde quarteirões que ficaram conhecidos pelo nome de localidades alemãs (para que os colonos se sentissem à vontade e lembrassem da terra natal) até a Bauernfest – Festa do Colono Alemão –, que exalta as tradições, cultura e gastronomia germânicas.

Na cidade do Rio, a maioria dos alemães morava em regiões mais centrais e urbanas. Boa parte deles foi para Santa Teresa, por ser um local mais alto, mais fresco e, ao que se acreditava, distante do risco da malária. Naquela época, a doença era um grande problema sobretudo no centro da cidade, onde existiam mangues que atraíam o mosquito transmissor. Muitos alemães também foram para o Rio Comprido, visto como uma área residencial tranquila, mas não muito distante do centro. A abertura de novas paróquias nos subúrbios refletiu a dispersão das famílias alemãs e de seus descendentes pela cidade do Rio, expulsas das zonas nobres pela especulação imobiliária.

Reflexos da Segunda Guerra Mundial

Em 1942, navios da Marinha Mercante Brasileira foram torpedeados por supostos submarinos alemães. Com isso, apesar de simpatizar com o Eixo fascista (Alemanha, Itália e Japão), o então presidente Getúlio Vargas se viu obrigado a assinar a Carta do Atlântico, em que rompia relações diplomáticas e comerciais com esses países. A medida trouxe muitas consequências aos alemães e descendentes que viviam no país.
Se antes já havia certa antipatia, depois da guerra declarada tudo piorou. Muita gente foi presa e acusada injustamente, até por interesses pessoais. Alemães que ocupavam cargos mais altos foram afastados, residências foram apedrejadas e destruídas e eles sequer podiam falar a própria língua.

edit fachada hcaA Escola Allemã (Deutsche Schule), criada em 1862, ficou sob intervenção, passando, depois, a chamar-se Colégio Cruzeiro – hoje com unidades no Centro e em Jacarapaguá. O Hospital Alemão, no Rio Comprido, tornou-se Hospital Itapagipe – nome da rua onde está localizado –, até ser incorporado à Aeronáutica e chamar-se Hospital Central da Aeronáutica. A sede da Sociedade Germania, na Praia do Flamengo, foi confiscada e entregue a União Nacional de Estudantes (UNE).

O Bar Luiz, na Rua da Carioca, especializado em culinária alemã, também sofreu com o clima de revolta instaurado. Aberto em 1887, com o nome de Zum Schlauch, na Rua da Assembleia, depois de algumas variações no nome, passou a ser chamado de Bar Adolph, uma referência ao antigo dono, o carioca Adolph Rumjaneck. A mudança ocorreu devido a uma lei de 1915, que proibia que estabelecimentos comerciais tivessem letreiros com nomes em língua estrangeira. Quando foi para a Rua da Carioca, o bar novamente teve que mudar de nome, já que muitos achavam que se tratava de uma homenagem ao ditador alemão Adolf Hitler.

Essa associação equivocada fez com que, em 1942, jovens estudantes do Colégio Pedro II, no Centro, fossem até o local determinados a depredar o bar, tamanha a revolta frente às mortes de brasileiros no episódio do torpedeamento dos navios. Lá, foram impedidos de agir por intervenção de Ary Barroso, compositor e apresentador de um conhecido programa de calouros da Rádio Tupi, que tomou a defesa do Bar Adolph, explicando o mal entendido. “Diga ao Seu Luiz que é bom ele ir pensando em um novo nome para o bar”, teria falado o locutor da gaitinha após o acontecido.

Todo esse quadro inibiu por alguns anos a presença alemã no Rio de Janeiro, mas, a partir de 1950, mais instituições e sociedades foram criadas e ampliadas.

Alemão no morro

A origem do nome Morro do Alemão – no complexo de mesmo nome, localizado na Zona Norte da cidade – está, na verdade, em um imigrante polonês. Na década de 1920, Leonard Kaczmarkiewicz adquiriu terras na Serra da Misericórdia, na então região rural da Zona da Leopoldina. A população local referia-se ao proprietário como “o alemão” e, assim, a área ficou conhecida como Morro do Alemão.

É inegável: do Império aos dias atuais, o Rio ainda tem um “quê” de alemão.

 
Compartilhar pelo Facebook Compartilhar pelo Twitter Compartilhar pelo Whatsapp
MAIS DA SÉRIE
texto
Os indígenas e a construção do Rio de Janeiro

Os indígenas e a construção do Rio de Janeiro

22/10/2018

O carioca deve boa parcela de sua identidade aos Tupinambá e Temiminó.

Rio Multicultural - reportagens

texto
A presença polonesa no Rio de Janeiro

A presença polonesa no Rio de Janeiro

21/01/2015

Em um passeio pela Cidade Maravilhosa, é possível notar a presença e as marcas do país de Nicolau Copérnico, Frédéric Chopin e do Papa João Paulo II.

Rio Multicultural - reportagens

texto
O legado indígena na cidade e no povo carioca

O legado indígena na cidade e no povo carioca

11/08/2014

Você sabe por que a pessoa que nasce no Rio é chamada de carioca? Confira essa e outras incontáveis influências dos primeiros habitantes da cidade em nossa cultura.

Rio Multicultural - reportagens

texto
Chineses no Rio de Janeiro

Chineses no Rio de Janeiro

05/08/2014

A comunidade, presente na cidade desde a vinda da família real portuguesa, tem, hoje, mais de 10 mil imigrantes, que enriquecem a vida carioca com sua cultura milenar.

Rio Multicultural - reportagens

texto
A farta cultura árabe em terras cariocas

A farta cultura árabe em terras cariocas

22/07/2014

Comércio, indústria, construção civil, medicina e política são apenas algumas das áreas em que os sírio-libaneses têm deixado sua marca na vida da cidade.

Rio Multicultural - reportagens

texto
Africanos fazem parte da alma carioca

Africanos fazem parte da alma carioca

07/07/2014

O número de negros – escravos e livres – no Rio de Janeiro do século XIX era o maior entre as cidades das Américas. 

Rio Multicultural - reportagens

texto
Arigatô, Nippon!

Arigatô, Nippon!

24/06/2014

A cultura japonesa integra o dia a dia do cenário carioca, seja na arte, na gastronomia ou nos festejos da cidade.

Rio Multicultural - reportagens

texto
Britânicos hábitos cariocas

Britânicos hábitos cariocas

16/06/2014

Alguns pesquisadores afirmam que a primeira partida de futebol, no Brasil, foi promovida por um escocês que trabalhava em Bangu. Na verdade, os britânicos influenciaram uma série de costumes do Rio do Janeiro.

Rio Multicultural - reportagens

texto
Judeus no Rio de Janeiro, uma experiência plural

Judeus no Rio de Janeiro, uma experiência plural

27/05/2014

Com personalidades de destaque nos mais diversos ramos de atuação, imigrantes e seus descendentes vêm influenciando a vida carioca, do comércio à cultura, há gerações. 

Rio Multicultural - reportagens

texto
Espanhóis no Brasil: o início da luta por uma jornada de trabalho mais humana

Espanhóis no Brasil: o início da luta por uma jornada de trabalho mais humana

06/05/2014

Os "braceros", como eram chamados, foram responsáveis pelo início da organização da massa trabalhadora na cidade do Rio de Janeiro, na virada do século XIX para o XX. 

Rio Multicultural - reportagens

texto
Os imigrantes italianos e a Cidade Maravilhosa

Os imigrantes italianos e a Cidade Maravilhosa

15/04/2014

Segundo estudos, mesmo antes da segunda metade do século XIX já havia italianos no Rio de Janeiro, a serviço da corte portuguesa.

Rio Multicultural - reportagens

texto
França-Rio de Janeiro: uma ligação antiga

França-Rio de Janeiro: uma ligação antiga

01/04/2014

No início eram corsários; depois, vieram os artistas; por fim, profissionais especializados, com seus produtos chiques, ao gosto da elite brasileira. Resultado? O charme francês ainda vive entre nós.

Rio Multicultural - reportagens

texto
Rio, uma cidade portuguesa com certeza

Rio, uma cidade portuguesa com certeza

17/03/2014

Aqui, começa a série Rio Multicultural sobre os diversos povos que originaram o carioca do século XXI. Africanos, indígenas e imigrantes contribuíram para a identidade cultural da cidade, mas os portugueses têm papel privilegiado, pois, após o Grito da Independência, nenhum outro fluxo migratório para a cidade foi tão intenso quanto o deles.

Rio Multicultural - reportagens

texto
Hospedaria da Ilha das Flores: porta de entrada virou museu de imigrantes

Hospedaria da Ilha das Flores: porta de entrada virou museu de imigrantes

26/12/2013

O Rio de Janeiro é uma cidade multicultural. Na matéria inaugural da série sobre os imigrantes que deram origem à população carioca, conheça a primeira parada, na Ilha das Flores.

Rio Multicultural - reportagens