12 Junho 2015
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Vivemos um desses raros momentos em que um novo estilo de humanidade é inventado
(Pierre Lévy)

artigo placasAs crianças e jovens que estão nas salas de aula de hoje são autênticos representantes da chamada geração Z. Quando eles nasceram, o planeta já estava repleto de tecnologias fascinantes e poderosas. Apropriaram-se delas com naturalidade, “zapeando” sem parar por canais de TV, videogames com animações de impacto, telefones celulares, monitores de alta definição, tablets, iPhones, iPods, blogs e wikis, computadores cada vez mais velozes, redes digitais concebidas sem previsão de qualquer tipo de limite.

Por mais que encontrem informação disponível de vários modos nessa diversidade de dispositivos, esses jovens não podem, no entanto, prescindir de um ambiente educacional, no qual recebam ajuda e orientação para sistematizar o conhecimento, aprender conteúdos significativos com um foco específico e desenvolver competências para a vida pessoal, profissional, social e cidadã.

A questão é se a escola, instituição criada a partir de necessidades de gerações de outros séculos, e de outros modelos de relação com o conhecimento, pode assumir adequadamente essa função, hoje. Certamente, ela precisará fazer mudanças em vários âmbitos, e muitas delas não tão simples. Talvez precise até mesmo reinventar suas práticas e seu papel.

Neste artigo, proponho algumas ideias nesse sentido – que de maneira alguma esgotam todas as nuances envolvidas nas necessidades educacionais da geração Z e na construção da escola das próximas décadas.

A geração Z – algumas características

Usar categorias para descrever grupos humanos é algo sempre limitado e, muitas vezes, superficial. Por outro lado, a identificação de traços comuns entre gerações pode ajudar a orientar as discussões e a ampliar o entendimento de fenômenos que têm certa complexidade.

Consciente dessa limitação e do risco de simplificação que uma análise desse tipo pode conter, proponho algumas características que são muitas vezes identificadas nos jovens representantes da geração Z.

Nesta caracterização breve, não há qualquer juízo de valor. Afinal, seria leviano e antropologicamente absurdo imaginar que uma geração pudesse ser “boa” ou “ruim”, “melhor” ou “pior” que as anteriores. Nenhum comportamento social nasce espontaneamente, ele se desenvolve em boa parte com influência do contexto em que crescemos. Ora, o que a geração Z pensa, faz e valoriza é, em certa medida, resultado de sua percepção e interação com o ambiente que a cerca. No seu caso, com o conjunto de mudanças sociais e culturais associadas à presença das tecnologias digitais em nossa sociedade.

A geração do zapping

O conceito “Z”, que vem de zapping, diz bastante sobre essa geração. Zapear é o ato de mudar contínua e rapidamente de canal de televisão ou de rádio, buscando, em tese, algo interessante, ou simplesmente por hábito de pular para outra programação – em geral, com auxílio do controle remoto. Talvez o nome se origine da onomatopeia “zap!”, que sugere um salto, ou mudança repentina.

Zapear, para a geração Z, é uma prática comum e, em muitos casos, uma necessidade. O curioso é que essa relação fragmentada com o tempo e a informação – abrir muitas janelas, sem se aprofundar em nenhuma, e buscar sempre novidades – muitas vezes vale também para outros âmbitos: os relacionamentos, o estudo, o emprego formal.

artigo smartphoneO ramo das tecnologias explora bem essa característica, transformando o jovem no seu consumidor mais voraz e oferecendo-lhe novidades em intervalos de tempo cada vez menores. Já na escola, os professores costumam se queixar da desatenção e da dispersão desses mesmos jovens.

A avidez por informação tem, do outro lado da moeda, o desinteresse, como se não fosse possível concentrar-se para estudar alguma coisa em profundidade – até porque a rápida obsolescência de tudo coloca qualquer dedicação em xeque.

É uma geração que demonstra dificuldade em atividades que exigem concentração. Um exemplo que ajuda a comprovar esse perfil é o alto número de jovens que afirma que lê pouco ou não lê nenhum livro por ano, e que muitas vezes não termina os livros que começou a ler.

Nas empresas, muitos percebem a dificuldade de vínculo. Em muitos jovens, não parece haver interesse em permanecer muitos anos em uma mesma instituição, a não ser que seja para dar grandes saltos na carreira, em pouco tempo.

Seu mundo é tecnológico e virtual, e, em muitos casos, assim também são os relacionamentos. Sempre me chamou a atenção o anúncio que aparece na internet em um site que oferece um “matching” entre jovens. Diz ele: “Clique aqui e comece a namorar em 5 minutos”.

Esse é um retrato de certa necessidade de viver na urgência imediata dos próximos instantes. Como se fosse possível resolver tudo simplesmente apertando um “Enter”. O zapping vale também para os relacionamentos, nos quais se pula de uma pessoa para outra com relativa facilidade, e nos quais os vínculos são muitas vezes frágeis, superficiais ou passageiros.

A geração silenciosa

O jovem contemporâneo, conectado na web e, às vezes, desconectado do mundo, multifacetado em perfis de redes sociais, rodeado de amigos e seguidores no mundo virtual do Facebook, Twitter, TumbIr, Google+, Formspring, etc., tem ao mesmo tempo habilidades pouco desenvolvidas no âmbito presencial.

Sua competência interpessoal é, em muitos casos, limitada. Percebe-se uma falta de expressividade na comunicação verbal, às vezes mesmo com pouco repertório linguístico, ao mesmo tempo que aparece uma certa dificuldade de ouvir – sobretudo explicações longas ou alguém que fale por mais de cinco minutos.

Alguns os chamam de “geração silenciosa”, porque os jovens estão sempre com fones nos ouvidos, falam e escutam pouco. Uma atitude que alguns estudiosos relacionam com certo egocentrismo e individualismo, como se a pessoa pudesse se desligar de tudo o que não lhe interessa, seja isso um site da internet, uma aula da escola ou o grupo familiar.

Já nasceram num mundo em que a globalização era uma realidade, portanto, lidam bem com a desterritorialização, seja quando se reduzem as fronteiras entre países, ou quando se pensa de um modo interdisciplinar. Mas, nesse contexto, esse jovem aparece pouco atuante politicamente. Nas redes sociais, dificilmente o assunto discutido diz respeito a decisões de governantes ou a questões de políticas públicas e cidadania.

Escrevi certa vez que a interatividade pode banalizar o voto (Ramal, 1998). Hoje esse exemplo é ainda mais claro no Twitter, na prática relativamente comum de “subir uma hashtag”, também conhecida como “twitaço”.

O twitaço é uma espécie de “movimento” reivindicatório realizado através do microblog Twitter, no qual, em geral a partir de combinações prévias, um grupo posta hashtags, ou seja, palavras ou mensagens prefixadas com um sinal de hash (#). Pela repetição dessas palavras, postadas por um grande número de usuários, a hashtag pode aparecer nos top trends mundiais ou do país, ou seja, na lista de “tendências de discussão” que o Twitter informa em tempo real.

Não é objeto deste artigo discutir a validade social e política dos twitaços. Mas chama a atenção, em certos casos, a distância entre o twitaço e o impacto concreto no mundo real que efetivamente ocorre, ou não.

artigo midiasAcompanhei “movimentos” de jovens que, mobilizados com alguma situação, lançam uma hashtag e convocam a comunidade para “subi-la”. Um exemplo: em um dia em que aconteceu um fato violento em uma região da cidade em que morava, um jovem propôs “subir a tag #paznacidade”. Como em uma espécie de euforia, se a causa é avaliada como justa, toda a “twitosfera” adere, progressiva e rapidamente, a esse twitaço. O autor insistia: “Vamos, estamos quase lá”. “Twitem, deem RT” (retweet, ou seja, republicação do tweet). Em questão de minutos, a tag subiu e apareceu entre as tendências de discussão no país. E, quando esta alcançou o primeiro lugar, o jovem anunciou: “Obrigado, amigos, chegamos lá, valeu”.

Essa sensação de “dever cívico cumprido” simplesmente porque uma hashtag subiu sugere justamente que, assim como em outros planos, a geração Z imaginasse ser possível resolver tudo ficando detrás do monitor.

A geração Homo Zappiens

Veen e Wrakking chamam essa geração de Homo Zappiens: segundo eles, aparentemente uma nova espécie humana, “que atua em uma cultura cibernética global” (2011). Há muitas diferenças entre o seu modo de se relacionar com o conhecimento e o das gerações anteriores, mas podemos destacar três que interessam decisivamente à escola.

Primeiro: o Homo Zappiens se comunica permanentemente, mesmo que, como apontamos, de um modo não necessariamente presencial. Antes de ir para a escola, muitas crianças já conectam seus computadores e começam conversas no MSN. Ao chegar em casa, ou mesmo ainda no trajeto para casa, continuam conversas com colegas com quem acabaram de falar na sala de aula.

Segundo: essa geração não usa a linearidade. Quando quer jogar um game novo, não passa primeiro pela tela de instruções, começa a jogar e, se tiver dúvidas, encontra rapidamente respostas por meio de interação on-line com outros jogadores. A lógica de gerações anteriores, em que primeiro se aprende, para um dia talvez utilizar o que se sabe, não é mais válida – aprende-se no “just in time”, à medida que se precisa do conhecimento para resolver desafios em tempo real.

Terceiro: a geração Z é a da simultaneidade. Ela prefere e talvez precise fazer várias coisas ao mesmo tempo. Não vale mais o sistema de gerações anteriores: primeiro fazer isso, depois aquilo. Ela desenvolveu uma notável habilidade para lidar com dispositivos diferentes e em alta velocidade.

Para a geração Z, que escola?

A geração Z não é um conceito abstrato. Ela está presente todos os dias nas salas de aula de todo o país. Cabe à escola questionar o que pode fazer para cumprir seu papel de instituição educativa e verificar como ajudar o jovem contemporâneo a ler de forma abrangente e crítica o mundo em que se insere, significar a sua relação com o conhecimento, com as pessoas e as coisas e, talvez, até mesmo ajudá-lo a definir seu projeto de vida.

Não se trata, porém, de interpretar a geração Z a partir de nossa óptica e nossas normas. É verdade que toda geração faz um pouco isso, no movimento de educar seus filhos. Mas é preciso perceber, ao mesmo tempo, o potencial do que os jovens realizam, as habilidades valiosas que desenvolvem no uso das tecnologias e entender quais são as novas competências – conhecimentos, habilidades e atitudes – que essa geração precisará para viver bem no seu mundo.

Proponho aqui apenas três perguntas, entre muitas outras que me faço ao pensar na escola das próximas décadas.

O currículo da escola não deveria ser mais hipertextual?

Em vez de conteúdos isolados e distantes da realidade, na matriz epistemológica das redes de conhecimento, penso em uma escola que organizasse o conhecimento em redes de saberes.

Essas redes poderiam se materializar na organização curricular como unidades ou conjuntos temáticos organizados a partir de uma lógica não conteudista e não linear, por meio de estratégias didático-metodológicas que rompessem com os modelos formais de sequenciação de conteúdos, constituindo árvores de saberes.

Nesse “currículo em rede”, o aluno seria estimulado a pesquisar e aprender com autonomia intelectual, em percursos próprios, orientados por educadores. Ao ter percursos próprios, teríamos os diferentes ritmos. Com isso, aescola se tornaria menos lenta e mais ágil.

O professor seria uma espécie de arquiteto cognitivo, responsável por traçar as estratégias e planejar os métodos mais adequados para que o aluno chegasse à construção ativa do conhecimento. Como o aluno, ele também precisaria se apropriar com segurança e destreza de todos os recursos tecnológicos, transformando sua sala de aula em um ambiente de aprendizagem interativo e conectado com o mundo.

Será que isso implicaria ensinar o jovem a estudar pedindo que desligue todos os aparelhos eletrônicos por algumas horas? Dificilmente. Mas com certeza envolveria pesquisas mais consistentes sobre motivação e cognição, que levassem em conta o funcionamento da mente de sujeitos da cibercultura – uma sociedade não linear, hipertextual e multimidiática.

artigo mundo geracaoZ

A aprendizagem não deveria acontecer em redes cooperativas?

Isso implica incorporar as tecnologias como ambientes de aprendizagem. Mas não tem a ver com aulas de computador ou laboratórios de informática. Trata-se de recriar a escola para o contexto da cibercultura, esse “conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atividades, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço”. Trazer para dentro de seu espaço esses modos de pensamento, problematizá-los, ressignificá-los.

O professor seria um “dinamizador da inteligência coletiva”, ajudando grupos de estudantes a ressignificar o link (laço) entre saberes, disciplinas, e também entre pessoas. Certamente, a formação da dimensão afetiva e interpessoal deveria estar inclusa. Os jovens seriam motivados a trabalhar em cooperação – mas não só no mundo virtual – e a estabelecer diálogos e parcerias produtivas, em uma síntese multidimensional e polifônica, com respeito entre si e “educando uns aos outros em comunhão”, como imaginou Paulo Freire muito antes da internet.

A escola não deveria trabalhar integrando mais a família, em um currículo impregnado de valores?

A escola hoje já trabalha temas “transversais”. Educação para a paz, para o trânsito, para a igualdade entre os sexos, meio ambiente, entre muitas outras, são estudadas em projetos interdisciplinares nas salas de aula em diversos níveis escolares.

Será esse modelo suficiente para ajudar cada jovem da geração Z a descobrir-se como agente de construção da história, ser político e social, cidadão engajado em transformações que promovam o bem-estar de toda a comunidade?

Estou convencida de que deveríamos pensar em um modelo mais ousado, no qual o professor, além de orientar percursos de aprendizagem, atuasse como educador, estimulando a consciência crítica e cuidando da formação ética. Nesse contexto, o professor, certamente em um trabalho articulado e conjunto com a família, desde a Educação Infantil (que é a base de tudo), poderia ajudar crianças e jovens a atribuir (novos) sentidos às tecnologias e usá-las a serviço de um mundo justo, da dignidade humana e do desenvolvimento sustentável.

A geração Z, repito, não é um conceito abstrato. Detrás desse conceito estão milhares de jovens cheios de energia, vitalidade e emoção, capazes de se envolver em projetos que possam valer a pena. Como todo jovem, desejam ser acolhidos e compreendidos. E trazem em si um mundo de potencialidades.

A indústria da tecnologia e do entretenimento conseguiu seduzi-los com a aventura dos games e das mídias. Estou certa de que a escola saberá converter-se em um espaço capaz de seduzir para outra aventura, ainda mais gratificante: a do conhecimento.

Para isso, não é necessário desligar fones nem desconectar plugues das tomadas. Talvez seja preciso começar conhecendo um pouco mais o seu mundo, recriar os modos pelos quais conversamos com os jovens, e dando-nos a oportunidade de descobrir e reinventar, juntos, o que existe para além do monitor.

Andrea Ramal é Doutora em Educação pela PUC-Rio, autora de Depende de Você como Fazer de Seu Filho uma História de Sucesso, Editora LTC.

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