22 Novembro 2016
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“Aprendendo a ler, você vê outro mundo. E as pessoas começam a ver você com outro olhar”. É assim que Ailton Santana Rezende, de 32 anos, define a experiência de estudar. Matriculado na turma de alfabetização de jovens e adultos do Ginásio Carioca Orsina da Fonseca (2ª CRE), na Tijuca, desde o ano passado, Ailton frequenta as aulas regulares à noite e também estuda informática no laboratório da unidade.

Alunos do Programa de Educação de Jovens e Adultos também aprendem informática no laboratório da unidade escolar

A vontade de aprender e a gratidão com os professores permeiam as atitudes dos alunos que, após passarem um tempo na comunidade escolar, desenvolvem um sentimento de pertencimento. “Mesmo os que eram mais retraídos hoje entram na escola sem medo; eles já sentem que têm um espaço garantido”, comenta a professora Teresa Vitória Fernandes Alves, da Sala de Leitura.

Um dos alunos que trata o Ginásio como se fosse a própria casa é Alvanir Mongin, de 76 anos, que está cursando o 8º ano. Ele retornou para a sala de aula após ter se aposentado: “não queria ficar em casa sem fazer nada ou na praça jogando, então, minha esposa me incentivou a voltar a estudar”, lembra. Hoje, Alvanir se sente mais jovem convivendo diariamente com as crianças. “Pra mim, isso aqui é uma terapia. Tudo o que for pra aprender, eu quero”, conta.

Na unidade escolar da Tijuca, o Programa de Educação de Jovens e Adultos funciona desde 2000, e a atual diretora, Kátia Daim, destaca que os alunos, quando são motivados a se expor e a falar, desabrocham e passam a se sentir incluídos na sociedade. “A educação ajuda cada um a oralizar/verbalizar as próprias histórias. A autonomia de pensamento e a verdadeira inclusão que a leitura provoca dão aos alunos condições de integrar o espaço social como produtores de conhecimento e de lutar por uma posição no mundo”, analisa. Para ela, é importante que os educadores do PEJA trabalhem as expectativas e desejos de cada estudante, valorizando as individualidades, para que, mesmo quem ache que não tem o mínimo de conteúdo, se sinta estimulado a colaborar.

O tapete produzido durante o projeto Retalhos de Vida/Retratos de Escola

O professor Geraldo da Silva, de Matemática, reforça a fala da diretora Kátia ressaltando que as classes do PEJA trabalham com a ressignificação do conhecimento, aproveitando a bagagem de vida de cada um para aplicar os conteúdos em sala. Ele pontua que esse modelo pedagógico atende as necessidades de uma parcela da população que precisa terminar a escola em menos tempo. Porém, essa redução não significa um corte de matérias. “O que justifica a redução dos anos de estudo é o aproveitamento do conhecimento prévio e da experiência de vida de cada aluno”, afirma. O professor Geraldo, que leciona no PEJA desde quando as primeiras turmas começaram no Orsina da Fonseca, também enfatiza a relevância do direito à educação: “O PEJA é mais que uma modalidade educativa, é um movimento político de conquista social”, conclui.

Trabalhos na Sala de Leitura

Na Sala de Leitura Medeiros e Albuquerque – assim nomeada em homenagem ao educador que foi o primeiro diretor da escola, em 1908 –, os discentes participam de diversas atividades lúdicas. A professora Teresa Vitória Fernandes Alves guarda diversos trabalhos do PEJA, como o tapete confeccionado durante o projeto Retalhos de Vida/Retratos de Escola. “A ação serviu como um resgate da autoestima dos alunos enquanto trabalhavam a história de vida de cada um e a valorização deles mesmos”. Já a professora da alfabetização de jovens e adultos, Gilda Maria Gil de Almeida, lembra que, durante a confecção do tapete, alunas com deficiência visual se engajaram aos outros estudantes que liam para elas, e todos se ajudaram dentro das suas próprias limitações.

A educadora Tânia Regina, acompanhada pela diretora Katia Daim e a professora Gilda Maria, da turma de alfabetização de jovens e adultos da E.M. Orsina da Fonseca

Em uma das mais recentes atividades, Teresa Vitória convidou a também professora de Sala de Leitura, Tânia Regina Almeida, do GEO Juan Antonio Samaranch, em Santa Teresa, para trabalhar com os jovens e adultos da turma de alfabetização o livro Obax (texto e ilustrações de André Neves). A educadora havia utilizado a mesma história na atividade com o 6º ano do GEO e levou as ilustrações feitas pelas crianças para que os estudantes da Orsina fizessem as intervenções que quisessem a fim de concluir os desenhos a quatro mãos.

De acordo com a educadora Tânia Regina, o compartilhamento de experiências entre os alunos do 6º ano e os do PEJA pode ser bastante enriquecedor para ambas as partes, já que as duas turmas passam por períodos de transição. As crianças seguem do 5º para o 6º ano com uma carga de conteúdo muito maior; os jovens e adultos estão se reacostumando com a rotina de estudos ou começando a estudar pela primeira vez. Com isso, inserem uma nova responsabilidade no dia a dia já repleto de obrigações no trabalho e na família.

O livro Obax conta a história de uma menina cheia de imaginação que faz uma grande viagem por vários países da África. Durante a atividade, a turma de alfabetização da professora Gilda Maria identificou e formou palavras de destaque na história, ganhou livros e organizou um sistema de troca para todos lerem diferentes histórias.

A professora Tânia conta que escolheu a obra de André Neves por ela abordar temas como africanidade, a essência do que é viver em natureza e a imaginação. Para ela, é importante ensinar aos alunos, independente da idade, que qualquer um pode sonhar e ser o que quiser.

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