17 Abril 2019
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Ilustração Janaína, de Mauricio Negro, feita originalmente para o livro Noções de Coisas (Global Editora), de Darcy Ribeiro (Imagem: Divulgação)

Ilustrações desempenham papel fundamental no livro infantil, cujo dia nacional é celebrado em 18 de abril. Segundo Ana Maria de Andrade, escritora, ilustradora e arte educadora, o livro ilustrado desperta a imaginação, aflora sentimentos e possibilita a construção de significados. 

“A imagem é sempre o primeiro chamado para a criança pequena, que ainda não domina a leitura verbal. Ela abre um leque de possibilidades interpretativas. A leitura de um livro infantil começa na capa e não tem limites: vai até aonde o leitor possa perceber a riqueza de detalhes que compõem a obra”, diz Ana Maria, que também é especialista em Educação e professora de Literatura Infantil. “Não basta olhar, é preciso aprender a olhar e aperfeiçoar esta habilidade. Por isso, é importante que pais e professores conduzam as crianças à observação e à interpretação das imagens”, acrescenta.

Para Mauricio Negro, ilustrador, escritor e designer, os livros ilustrados, por vezes, lembram canções. “Como leitores, nos mais harmônicos projetos editorias temos dificuldades de separar o texto, que corresponde à letra, da ilustração, que faz o papel da música”, compara Mauricio, mencionando que diferentes nomenclaturas são adotadas, ao redor do mundo, para se referir a livros ilustrados, como picture book, álbum, livro-imagem e silent book. “São obras trançadas, cujas narrativas de texto e de imagem se imbricam. A combinação entre texto e ilustrações, sobretudo quando bem equilibrada pelo projeto gráfico, é um deleite para os sentidos. Esses livros-canções são o que existe de mais encantador!”, comenta o autor.

Sobre as diferentes relações entre texto e ilustração em livros para crianças e jovens, a teórica francesa Sophie Van der Linden apresenta oito variantes: livro com ilustração, primeiras leituras, livros ilustrados, histórias em quadrinhos, livros pop-up, livros-brinquedo, livros interativos e livros imaginativos. Entre essas, é válido destacar a distinção entre livros com ilustração e livros ilustrados, cujas nomenclaturas são semelhantes. Segundo Van der Linden:

Livros com ilustração: obras que apresentam um texto acompanhado de ilustrações. O texto é espacialmente predominante e autônomo do ponto de vista do sentido. O leitor penetra na história por meio do texto, o qual sustenta a narrativa.

Livros ilustrados: obras em que a imagem é espacialmente preponderante em relação ao texto, que, aliás, pode estar ausente (livro-imagem). A narrativa se faz de maneira articulada entre textos e imagens.  

Ilustração do livreto Viúva Zilda, de Luciana Peralva (Imagem: Divulgação)

Autora de livretos infantis, disponibilizados em seu blog, Luciana Peralva fala sobre o papel da imagem na literatura infantil. “No livro-imagem, a imagem conta a história, ela é a essência. No livro ilustrado, há uma interação, uma conversa entre texto e imagem. A imagem pode dizer o que não está no texto, e esse é o mais interessante: não precisam dizer exatamente o mesmo. No livro com ilustrações, a ilustração está ali para complementar, mas não é essencial”, explica Luciana, que é escritora, designer e ilustradora.  

O processo de criação de um livro infantil

A produção de um livro infantil, segundo Ana Maria de Andrade, compreende quatro dimensões: a escrita, a imagem, o projeto gráfico e a edição, sendo o diálogo entre os profissionais de cada área fundamental para a produção de um livro de qualidade. “É uma criação compartilhada, onde o texto é submetido a diferentes olhares. Considera-se que escritor e ilustrador são coautores, à medida que a ilustração não é uma explicação, nem ornamentação do texto”, ressalta. 

Ainda que possa ser mais comum, nem sempre o processo de criação tem início com o texto. De acordo com os autores, não há fórmula; depende de cada projeto e de cada artista.  

Em destaque, um dos livros de Ana Maria de Andrade. Em suas obras, a autora aplica técnicas a partir do reaproveitamento de materiais: dobraduras, recorte e colagem de revistas antigas etc. (Imagem: Divulgação)

“Cada obra é um novo desafio. Normalmente, não há um ‘briefing’ dos escritores sobre a ilustração. Os autores contemporâneos sabem que os ilustradores são capazes de surpreender, narrar de outro jeito e até brincar com as palavras. E todos se beneficiam disso. Mas, claro, nada impede o diálogo, quando necessário. O engraçado é que para o público, muitos livros ilustrados parecem ter nascido prontos e juntos, quase que por mágica”, comenta Mauricio Negro. 

“No meu caso, normalmente penso no texto primeiro e, depois, no projeto gráfico e na ilustração, que andam juntos. Mas depende de cada um e de cada livro. Já aconteceu de eu partir de uma ilustração para pensar em uma história”, diz Luciana Peralva.

 

Para quem são os livros ilustrados?

“Livro ilustrado é sinônimo de literatura infantil. Mas seria uma condição necessária desta arte?”. A questão é levantada pelo australiano Shaun Tan, ilustrador, escritor e cineasta, no artigo Para quem são os livros ilustrados?, no qual ele discorre sobre o assunto e defende que os livros são para todos.

“Não há motivo para uma história ilustrada de 32 páginas não ter, com adolescentes e adultos, o mesmo apelo que tem com as crianças. Afinal, outras mídias visuais, tais como o cinema, a televisão, a pintura e a escultura, não sofrem destes preconceitos limitantes de público. Por que os livros ilustrados sim?”, observa Shaun Tan, no artigo traduzido por Érico Assis.  

Voltado para adolescentes, o livro Um divagar em alta velocidade (Editora Quase Oito), de Luciana Peralva, é a primeira obra da autora publicada por uma editora (Imagem: Divulgação)

Na opinião de Luciana Peralva, é muito difícil definir a faixa etária à qual um livro é destinado. “O livro é para todos que gostem dele. Adultos também se encantam pela literatura infantil e isso é muito legal. Consideramos infantil, mas os livros também falam com os adultos. Suas mensagens dialogam com a experiência pessoal de cada um e sua identificação com a história.” 

A autora lamenta a ausência de imagens em muitos dos livros destinados a adultos. “Infelizmente, conforme crescemos, os livros vão ficando menos coloridos, com menos imagens, até ficarem puro texto. A leitura imagética fica em segundo plano. E, por isso, é tão importante dar atenção ao livro ilustrado, fazer esse resgate, perceber a sutileza das imagens e voltar a lê-las. O livro ilustrado é para todos os que se encantam com a experiência que ele traz”, defende Luciana.

Para Mauricio Negro, o livro ilustrado é o mais democrático e inclusivo entre todos. “Ele acolhe todo mundo, tenha a idade, o gênero, o repertório, a origem, o extrato e o contorno que for. As estatísticas são claras: os livros ilustrados, aqueles considerados como literatura infantil, são os campeões de vendas”, destaca.

Mauricio ressalta que isso não significa que livros "para adultos" não possam ter ilustrações, mas que essa produção visual implica em custos de mão de obra e impressão extras, problema que tem sido contornado, segundo ele, por editoras independentes, que lançam obras sob demanda, a partir de soluções alternativas e caminhos mais específicos, com menos intermediações no processo.

“Ainda assim, os livros ditos para adultos não atingem a amplitude da produção literária infantil. Dizemos ‘para crianças’, como possibilidade inicial. O livro infantil é para todos, a começar da criança. E pressupõe também uma partilha.”

 

Fontes:

ANDRADE, Júlia Parreira Zuza. O Papel da Ilustração no Livro-Ilustrado: Uma Discussão sobre Autonomia da Imagem. Anais do SILEL. Volume 3, número 1. Uberlândia: EDUFU, 2013.

TAN, Shaun. Para quem são os livros ilustrados?. Tradução Érico. Editora Cosac Naiff. 

VAN DER LINDEN, Sophie. Para ler o livro ilustrado. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

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