12 Junho 2019
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Jogos Estudantis: disputas do futsal feminino começaram em maio (Foto: Alberto Jacob Filho)

Marta, Formiga e Andressa estão entre os jogadores de futebol (de ambos os sexos) mais admirados por alunas da Rede Municipal que integram equipes femininas de futebol de salão (futsal) com melhor desempenho nos Jogos Estudantis, torneio realizado pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME-Rio). Entre 14 meninas entrevistadas, 13 citaram pelo menos uma dessas três atletas da seleção brasileira de futebol como sua maior inspiração na modalidade. 

A cobertura e maior divulgação do futebol feminino, sobretudo com a transmissão inédita da Copa do Mundo na TV aberta, vêm aproximando as estudantes da Rede Pública Municipal de Ensino do universo profissional dessa modalidade esportiva. É no que acredita o professor Bruno Gaspar, da E.M. Jornalista Carlos Castelo Branco (10ª CRE), em Santa Cruz, campeã invicta no futsal feminino (categoria infantil) nos Jogos Estudantis 2018.

“A maioria das nossas alunas não tem fácil acesso à TV a cabo e à internet para acompanhar os torneios femininos. A mudança que estamos presenciando neste ano, com a transmissão da Copa do Mundo e até de partidas nacionais na TV aberta, facilita esse contato. É um meio de divulgação que tende a incentivá-las ainda mais”, comenta, ressaltando que a maior parte das atletas tem o sonho de seguir uma carreira profissional no futebol e que algumas já foram até convidadas a treinar em clubes da Zona Oeste.

A preparação para os Jogos Estudantis nas escolas

A Escola Municipal Olímpica Carioca (Emoc) Juan Antonio Samaranch (1ª CRE), em Santa Teresa, esteve no pódio do futsal feminino nas categorias infantil e infantojuvenil na última edição dos Jogos Estudantis. O professor Marco Avellar explica que o método de trabalho básico é o mesmo para meninos e meninas. “Em termos de treinamento, não há diferenciação. Mas, dependendo do calendário das competições, priorizamos a parte específica de jogo, em que são relembradas jogadas e posicionamento, para a equipe feminina ou para a masculina”, explica.

Segundo ele, a escola atende muitos alunos de comunidades que, em geral, possuem uma boa vivência esportiva básica, vinda das brincadeiras. “No futebol, já chegam com um diferencial a mais. Recebo joias brutas com um enorme potencial de crescimento e desenvolvo isso”, diz orgulhoso. 

Futebol feminino versus futebol masculino: alunas falam sobre diferenças entre o futebol jogado por meninos em comparação ao praticado por meninas
Imagem: GEA/ MultiRio

 O fato de a escola ser vocacionada para o esporte possibilita que os treinos aconteçam até quatro vezes por semana (caso do 8º e 9º ano), diferente de outras escolas da Rede, que não dispõem desse tempo no cronograma. É o caso da E.M. Rodrigo Otávio (11ª CRE), na Ilha do Governador.

“O tempo é escasso. Observo as meninas que têm maior habilidade e faço, nas aulas regulares, com a turma delas mesmo, um treinamento para aperfeiçoar fundamentos. Então, nos reunimos uma vez antes de começarem os Jogos, para elas trabalharem em grupo. Ano passado, tivemos essa experiência e, em nossa primeira participação na competição, a equipe de futsal feminina foi campeã na 11ª CRE e ficou em quarto lugar na etapa regional. Neste ano, entraram algumas meninas novas, mas mantivemos a base do time, e conseguimos conquistar título na 11ª CRE”, comemora o professor Bruno Visconti.

Cronograma dos Jogos Estudantis 2019 

Equipe de futsal feminino da E.M. Rodrigo Otávio
O professor Bruno Visconti com as atletas da E.M. Rodrigo Otávio (Foto: Página do Facebook da escola)

Aproximadamente 280 escolas participam dos Jogos Estudantis neste ano, segundo Paulo Mendes, supervisor do torneio. As modalidades coletivas começaram em maio, com disputas de futsal e de handebol dentro de cada coordenadoria regional de educação (CRE). Até o final de agosto, serão disputados basquetebol e voleibol. As finais, com os campeões de cada CRE, serão a partir de setembro. 

As modalidades individuais entram em cena no segundo semestre: xadrez e judô em agosto, atletismo em setembro, tênis de mesa e badminton em outubro. “O judô é a novidade, entrou neste ano a partir da proposta de uma liga. Estamos buscando, ainda, um local para as competições”, diz Paulo Mendes.

Futebol: um universo ainda machista

Na opinião de Bruno Visconti, treinador da E.M. Rodrigo Otávio, infelizmente ainda há uma cultura na qual futebol é “coisa de menino”, apesar de isso estar mudando. “Se eu permitir e não demonstrar que elas têm espaço, os meninos querem tomar conta de tudo. Mas eu observo as alunas que têm preferência por futebol, tento incentivar e extrair o melhor delas para que não haja uma restrição, para desconstruir a ideia de que meninas jogam queimado e meninos futebol. Cabe a nós, professores, mostrar que elas têm o mesmo direito de jogar e que podem fazer bonito, para que se sintam donas de si e confiantes em uma área dominada por homens”, comenta Bruno, ressaltando que algumas alunas treinam em escolinhas de futebol e projetos sociais na comunidade onde vivem. 

A visão machista no universo do futebol atinge não apenas as alunas. A professora Rafaella Romano, da Emoc Felix Mielli Venerando (1ª CRE), no Caju, conta que percebe um estranhamento por parte de professores de outras escolas quando se dão conta de que ela é a treinadora do futsal. “Observo os olhares e ouço algumas piadinhas. Perguntam em tom irônico ‘ah, mas você que é a professora?’ e saem rindo. Já aconteceu de vencermos um campeonato e o treinador da outra equipe nem sequer me cumprimentar ao final da partida. As alunas são as primeiras a perceber e sempre comentam.” 

Equipe de futsal feminino da E.M. Jornalista Carlos Castelo Branco
Equipe de futsal feminino da E.M. Jornalista Carlos Castelo Branco, com os professores Bruno Gaspar e Silvestre Cirilo (Foto: Arquivo pessoal do professor Bruno Gaspar)

Rafaella, que é jogadora de futsal e participa de campeonatos amadores com sua equipe, ressalta que muitas vezes os meninos são mais habilidosos porque tiveram a oportunidade de jogar futebol desde pequenos. “Eles cresceram sendo incentivados, diferente das meninas, que ainda hoje são proibidas de jogar por familiares. No ano passado, por exemplo, uma aluna teve que sair do time porque a mãe achava que futebol era coisa de homem e não quis que ela jogasse.”  

Na Emoc Felix Mielli Venerando, a professora comanda a eletiva de futsal, cujas alunas integram as equipes que disputam competições. No Jogos Estudantis, a escola vai representar a 1ª CRE na etapa regional. Assim como em outras escolas da Rede, as meninas da Felix Mielli Venerando também estão competindo no Intercolegial, cujo calendário foi criticado por impedi-las de acompanhar a estreia da seleção brasileira feminina na Copa do Mundo.

“As alunas ficaram bem chateadas porque marcaram nosso primeiro jogo no mesmo dia e horário da partida do mundial. Elas ainda comentaram que isso não aconteceria se fosse a Copa do Mundo de futebol masculino”, conta a professora. 

Equipes de futsal feminino das escolas Juan Antonio Samaranch e Felix Mielli Venerando
Equipes de futsal feminino das escolas municipais olímpicas cariocas Juan Antonio Samaranch, de uniforme laranja, e Felix Mielli Venerando, de uniforme azul (Foto: Alberto Jacob Filho)

 

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