13 Fevereiro 2020
0
0
0
s2sdefault
 
A literatura auxilia no ensino de Ciências nos anos iniciais do Ensino Fundamental (foto: arquivo do professor Ricardo Fernandes)

Ricardo Fernandes aceitou o desafio proposto pela formação em Ciências para professores do Ensino Fundamental I, promovida pela SME-RJ em 2019, e usou o pensamento científico no processo de alfabetização da sua turma do projeto Carioquinha (correção de fluxo). “Fiquei bastante assustado ao chegar à formação e me inteirar do tema. Pensei: tenho uma turma inteira para alfabetizar e eles propõem isso?". Para surpresa de Ricardo, os alunos ficaram empolgados com a possibilidade e avançaram no desenvolvimento da leitura, da escrita, da Matemática e da resolução de conflitos.

“A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) demanda o ensino de Ciências desde os anos iniciais. A SME-RJ está oferecendo formação para auxiliar os professores a realizarem o que é recomendado pelo documento em sala de aula”, explica Alexandre Souza, doutor em Biotecnologia pela UFRJ, professor de Ciências na Rede Pública de Ensino do Rio de Janeiro desde 2003 e, atualmente, atuando na formação de professores.

Ricardo Fernandes detalha como foi colocar em prática as ideias propostas na formação. A turma de 23 alunos, entre 10 e 14 anos, elegeu o tema universo para explorar. No decorrer do ano, o professor trabalhou diversos conteúdos, como estrelas, planetas e alienígenas. Mas a primeira matéria escolhida pelos estudantes foi buraco negro. O professor recorreu ao site da agência espacial americana (Nasa, em inglês) e fez um poema com palavras-chave para aproximar o fenômeno dos estudantes. Além disso, a turma assistiu a vídeos e trocaram ideias sobre o aprendizado. No final, produziram um texto coletivo – outro poema, agora sob a ótica dos estudantes. Dependendo do tema investigado, o professor utilizou um suporte diferente com informações interessantes para a faixa etária. Para falar sobre a lua e suas fases, por exemplo, Ricardo lançou mão do livro A Orquestra da Lua Cheia, de Jens Rassmus; além de canções.

A segunda competência geral estabelecida pela BNCC  para a Educação Básica diz que se deve “exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das Ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas”.

Na formação de professores, Alexandre Souza procura não alimentar a diferenciação entre os termos alfabetização (aquisição dos conhecimentos básicos das Ciências, a forma como o pensamento científico se estrutura, a partir da apropriação do método científico) e letramento científico (desenvolvimento de habilidades para usar o conhecimento intrínseco do pensar científico, relacionando-o com a vida, com o meio em que o indivíduo se insere socialmente). Alexandre ressalta que muitos autores os consideram, inclusive, sinônimos. “O ensino de Ciências deve levar os alunos a entender e a participar da cultura científica, fazendo com que eles pratiquem seus valores, suas regras e principalmente as diversas linguagens das Ciências. Usar as linguagens falada e escrita para construir, descrever e apresentar os processos e argumentos científicos”.

Ensino Fundamental II

Claudia Vargas, professora de Ciências do Colégio Pedro II, campus Realengo, coloca em prática desde 2015 o que chama de ensino por investigação. “Os alunos buscam o conhecimento pesquisando, e eu, como professora faço a mediação do percurso. A metodologia tradicional de ensino é mais expositiva: o professor detém e expõe o conhecimento e os alunos apenas o recebem e devem absorvê-lo. Mesmo as aulas práticas de Ciências no laboratório costumam ser muito verticalizadas, com o professor demonstrando o experimento. Em vez disso, procuro ensinar a aprender de forma cada vez mais autônoma, a pensar de maneira crítica, a compreender como é construído o conhecimento científico, a buscar informações científicas para a tomada de decisões. Alfabetização científica é desenvolver no aluno a habilidade de acessar o conhecimento, aprendê-lo e usá-lo para a vida. É claro que ensino conceitos consolidados também, mas não só isso”.

Para desenvolver essa metodologia de trabalho, Claudia se baseou em textos de autores brasileiros, como os de Ana Maria Pessoa de Carvalho, da USP. Em 2019, a professora lecionou para o 7º ano e, em 2020, acompanhará a mesma turma no 8º ano. O conteúdo para o primeiro trimestre é corpo humano. A professora parte de um tema que fomente engajamento, adesão. Nesse caso, evolução. “Procuro um tema que contextualize e dê sentido ao que vai ser estudado. Trago vídeos, textos, faço perguntas para nortear a leitura. Dependendo do tema, pode haver experimentos e saídas pedagógicas. Depois da pesquisa, há debate em grupo, onde cada um apresenta suas ideias.  Finalmente, cada aluno produz algo individualmente escrito, que pode ser um resumo, um folder, um cartaz etc”.

Os professores que quiserem se aprofundar no tema podem acessar diversos textos de autores nacionais disponíveis na internet, inclusive para a Educação Infantil. Abaixo, disponibilizamos alguns links indicados por Alexandre Souza, responsável por cursos de formação de professores na SME-RJ, e pela equipe da Articulação Pedagógica da MultiRio:

1)    Alfabetização Científica e o ensino de Ciências nos anos iniciais: slogan ou realidade no cotidiano escolar

2)    Alfabetização científica e o ensino de Ciências na Educação Infantil: a construção do conhecimento científico

3)    Indicadores de alfabetização científica: uma revisão bibliográfica sobre as diferentes habilidades que podem ser promovidas no ensino de Ciências nos anos iniciais

4)    Que letra a Ciência ensina? O letramento científico na Educação Básica

Mídias Relacionadas
Relacionados
Mais Recentes