18 Março 2021
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Foto: Marcos Cola, para Pixabay (Creative Commons)

O uso de máscaras no Brasil é legalmente obrigatório enquanto durar a pandemia de Covid-19. Mas, muitas são as dúvidas dos responsáveis sobre como usá-las de modo correto, principalmente, em crianças. A partir de qual idade? Como orientar os pequenos? O que é correto para evitar o contágio e o que não é? Os alunos presenciais devem usar máscaras mesmo nas aulas de Educação Física? E como ficam os estudantes com necessidades especiais em relação a essa questão?

Pediatras da Coordenação de Saúde na Escola, da Gerência da Área Técnica da Saúde da Criança e do Adolescente, e da Coordenação de Reabilitação da Pessoa com Deficiência - todos setores da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, se reuniram e responderam às perguntas enviadas pelo Portal MultiRio.

Portal MultiRio: Qual é a recomendação para o uso de máscaras por crianças e adolescentes no contexto da pandemia de Covid-19?

Equipe Secretaria Municipal de Saúde do RJ: A Covid-19 é uma doença infecciosa causada pelo novo coronavírus (SARS-Cov-2), que se transmite principalmente de pessoa para pessoa através de gotículas respiratórias. As gotículas são pequenas gotas de saliva e secreção que são eliminadas e propagam-se pelo ar ao tossir, espirrar, falar, gritar ou cantar e podem atingir a boca ou o nariz das pessoas que estão por perto. Essas gotículas também se depositam sobre as superfícies e contaminam o ambiente.

Pessoas infectadas com o novo coronavírus são capazes de espalhar o vírus para outras que estejam próximas, e essa transmissão pode ocorrer mesmo na ausência de sintomas. O período de maior capacidade de transmissão do vírus se inicia em média um dia antes do aparecimento dos sintomas.

Já está bem demonstrado com base em estudos anteriores à atual pandemia que as máscaras, quando bem colocadas sobre o nariz e a boca, são uma barreira simples que ajuda a evitar que gotículas respiratórias atinjam outras pessoas. Devido à grande capacidade de transmissão do novo coronavírus, especialmente no período antes ou no início dos sintomas, o uso generalizado das máscaras passou a ser uma importante estratégia no combate à pandemia, somada a outras medidas de proteção. Cada vez mais temos provas de que o uso de máscaras é uma maneira fundamental de proteção e bem-estar de cada pessoa na luta contra o coronavírus.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), onde há transmissão comunitária da Covid-19, como é o caso do Brasil, indica o uso de máscaras sempre que as pessoas saírem para ambientes coletivos fora de casa. Em nível federal, a Lei nº 14.019, de 2 de julho de 2020 torna obrigatório o uso de máscaras de proteção individual para pessoas acima de 3 anos em espaços públicos e privados durante a pandemia do novo coronavírus e fala sobre excepcionalidades em casos de pessoas com deficiência. Crianças menores de 2 anos não devem usar máscaras devido ao risco de sufocamento.

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Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e a Academia Americana de Pediatria recomendam o uso a partir de 2 anos de idade, medida essa também apoiada pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Em outros países, as recomendações variam. No Rio de Janeiro, a orientação da Secretaria Municipal de Saúde, apoiada pelo seu Comitê Especial de Enfrentamento à Covid-19 (CEEC), é de que as máscaras devem ser usadas a partir dos 3 anos de idade.

PM: Quais são os principais cuidados que responsáveis devem ter sobre o uso de máscaras para essa faixa etária?

SMS: A criança e o adolescente devem estar confortáveis ao utilizar a máscara. Caso o adulto perceba que a criança está ajustando a máscara toda hora ou que ela não está corretamente ajustada no rosto, é preciso procurar outra máscara que fique bem ajustada. Veja se a criança está respirando bem.

PM: Há algo a notar sobre o tipo ou o modelo a ser usado?

SMS: Utilize uma máscara feita para crianças e adolescentes, que garanta o ajuste adequado ao tamanho do rosto. Ela deve cobrir completamente o nariz e a boca, ficando confortável sob o queixo e nas laterais do rosto, sem deixar espaços frouxos que deixem entrada e saída de ar. Caso a criança ou adolescente use óculos, encontre uma máscara que se ajuste bem ao nariz ou que tenha um arame, para ajudar a reduzir o embaçamento das lentes ao respirar. Evitar o uso de batom, outra maquiagem ou base durante o uso da máscara.

Evitar também os tecidos que possam irritar a pele, como poliéster puro, vinil ou outros sintéticos, que dificultem a respiração. As máscaras de tecido antiviral não têm maior capacidade de filtrar o vírus do que as comuns. A ação antiviral do tecido interfere apenas no risco de transmitir o vírus para a mão ao tocar na máscara. Não escolha máscaras que tenham válvulas e aberturas, porque permitem que partes do vírus escapem. As máscaras de Tecido Não Tecido (TNT) podem ser utilizadas, desde que não causem alergia ou outros problemas. Recomenda-se gramatura de 20 - 40 g/m². As máscaras de TNT não podem ser lavadas e devem ser descartadas após o uso.

A população pode produzir as próprias máscaras com tecidos. É importante que tapem o nariz e a boca sem deixar espaço para o ar sair pelas laterais. Devem possuir três camadas: uma de tecido não impermeável na parte frontal, tecido respirável no meio e um tecido de algodão na parte em contato com a superfície do rosto. Após 3 horas ou quando a parte interna da máscara estiver úmida ou suja, deve ser trocada, sendo guardada em saco de papel, plástico ou pano. É necessário lavá-las diariamente. As máscaras de pano devem ser descartadas ao observar perda de elasticidade das alças de fixação, ou deformidade no tecido que possa causar prejuízos à barreira. As máscaras descartáveis devem ser desprezadas após cada uso.

PM: Quais são as recomendações para responsáveis por crianças pequenas?

SMS: As máscaras NÃO devem ser usadas por crianças com menos de 2 anos de idade ou por qualquer pessoa com dificuldade para respirar. Até os 2 anos, as vias aéreas são mais estreitas, o que dificulta a respiração com a máscara. Além disso, os bebês e algumas crianças com deficiência têm muita saliva. É preciso levar em conta também se o nariz estã fechado por causa de secreção. Por outro lado, os menores de 2 anos podem ter dificuldade de tirar a mãscara se não conseguirem respirar bem.

Em crianças saudáveis maiores de 2 anos o risco de sufocação é pequeno, pois elas já possuem coordenação motora e capacidade de reação, o que permite retirar a máscara rapidamente, caso se sintam desconfortáveis.

De qualquer forma, crianças abaixo dos 6 anos não devem permanecer com máscara sem a supervisão de um adulto, e o protocolo de retorno às atividades escolares da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro só prevê uso obrigatório a partir dos 3 anos de idade, que é a idade estabelecida na lei federal citada anteriormente.É necessário orientar a não colocar a máscara em volta do pescoço ou na testa e não compartilhar a máscara, ainda que ela esteja lavada.

PM: Para realizar exercícios físicos, como nas aulas de Educação Física, as crianças devem usar máscaras?

 

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SMS: A prática da atividade física com amigos traz benefícios tanto físicos quanto psicológicos para crianças e adolescentes. Melhoram a saúde cardiovascular, a força, a composição corporal e a forma física geral. Os benefícios psicológicos incluem o aumento da socialização com amigos e o retorno a uma rotina mais estruturada. Esses benefícios físicos e psicológicos trazem importante contribuição para o crescimento e desenvolvimento dessas crianças e adolescentes e se somam aos benefícios que a atividade física traz para o sistema imunológico, de defesa do organismo.

Deve-se dar preferência para atividades ao ar livre mantendo as medidas sanitárias de prevenção à Covid-19, com o distanciamento entre os alunos, o uso de máscaras e limpeza dos ambientes.

Caso tenha alguma criança com deficiência que não possa usar a máscara, o docente, a partir de cuidados e articulações necessárias, deverá manter o distanciamento necessário entre todos os alunos da atividade, higienização das mãos, garantindo que o aluno participe das atividades de forma segura.

PM: Como orientar e conscientizar as crianças para o uso das máscaras?

SMS: As crianças vão aprender mais facilmente a utilizar a máscara com ensinamentos, a repetição, e exemplos fornecidos de forma alegre e natural.
Tenha paciência para ensiná-las a usar as máscaras com carinho e responsabilidade. Isso pode ser feito de forma lúdica, utilizando brinquedos (bonecas/bonecos) para ensinar o uso correto do acessório.

Acolha a criança e tenha um momento de escuta, evitando criticá-la ou repreendê-la quando ela demonstrar medo. Se ela sentir que o adulto a compreende e que a ajuda a enfrentar a situação, fica mais fácil de ela desenvolver habilidades de enfrentamento dos receios e do desconhecido.
Elas devem participar da escolha das máscaras, mas sempre lembrando que estejam adequadas às normas preconizadas. Coloque a máscara algumas vezes dentro de casa para que a criança observe como o adulto faz e, pela prática do uso, se acostume com isso e, aos poucos, deixe de apresentar dificuldades para o uso. Enquanto estiver usando máscaras, olhe no espelho e fale sobre isso com a criança. Os adultos devem demonstrar alegria em colocar suas máscaras e evitar reclamações. O seu uso pode ser comparado à higienização das mãos, como algo que se faz para se manter seguro. Fale de forma que a criança entenda. Por exemplo, o adulto pode explicar que existe um “bicho malvado” que "faz dodói" e que as máscaras são o “escudo de super-herói” que protegem as pessoas contra ele. Para crianças a partir de 3 anos, pode-se já tentar introduzir os conceitos de germes ou micróbios.

Oriente a limpeza das mãos antes e após o uso da máscara e ensine a tirá-la do rosto. Com cuidado, deve-se retirar as cordas atrás da cabeça ou das orelhas, pegando apenas pelas alças, sem tocar no meio da máscara. Não colocar as mãos nos olhos, nariz e boca ao tirar a mãscara e lavar as mãos imediatamente depois.

PM: Quais são as orientações para crianças com necessidades especiais?

SMS: É fundamental a atenção para as deficiências de natureza física, mental, intelectual ou sensorial. As orientações sobre os cuidados a serem seguidos devem levar em consideração questões específicas relacionadas a cada deficiência. De acordo com a Lei Federal nº 14.109/2020, o uso de máscaras pode ser dispensado “no caso de pessoas com transtorno do espectro autista, com deficiência intelectual, com deficiências sensoriais ou com quaisquer outras deficiências que as impeçam de fazer o uso adequado de máscara de proteção facial, conforme declaração médica, que poderá ser obtida por meio digital (...).”

Crianças com deficiência física com comprometimento neurológico (motor e/ou cognitivo), ausência dos membros superiores e deficiência intelectual com dificuldade de compreensão podem necessitar da assistência de terceiros para colocar e retirar a máscara. As crianças cegas ou com baixa visão precisam de atenção redobrada, porque utilizam constantemente as mãos para reconhecerem o ambiente e para se movimentarem, necessitando atenção especial em relação à limpeza das mãos.

PM: Os alunos podem ajudar na multiplicação de práticas de prevenção à Covid-19?

SMS: Os alunos são excelentes multiplicadores do que aprendem e vivenciam. Desde os alunos da Educação Infantil até os mais velhos, eles reproduzem em casa e em outros ambientes as novidades que aprenderam. Isso já foi visto com inúmeros assuntos e, por muitas vezes, são os únicos capazes de mudar a realidade das pessoas com quem vivem.

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