Processo Seletivo DAF 2021 12


16 Maio 2022
 

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) da SME-RJ está implementando o novo currículo para essa modalidade de ensino durante o ano de 2022. O Ensino Fundamental e a Educação Infantil também estão em processo de revisão das respectivas orientações curriculares, com a perspectiva de homologação dos documentos pelo Conselho Municipal de Educação em 2024.

O Portal MultiRio conversou com Geisi Nicolau, gerente da EJA; Catia Cirlene, gerente da EI; e Michelle Valadão, coordenadora do EF sobre a atualização curricular de suas áreas de atuação.

Foto. Quatro alunos escrevem em apostilas, sentados ao redor de uma mesa. Há também sobre a mesa, estojos escolares. Os quatro são negros. Da esquerda para a direita, há uma mulher de meia idade acima do peso, usando óculos e os cabelos presos. A seguir: um homem jovem, um rapaz usando óculos e outro rapaz. Todos usam blusa branca do uniforme escolar. Atrás deles, há dois armários e um quadro de cortiça com cartazes.
Alunos do Centro Municipal de Referência da Educação de Jovens e Adultos (Foto: acervo professora Amanda Rosa)

 

Educação de Jovens e Adultos

“O antigo currículo da EJA era pautado em competências e habilidades sob uma perspectiva tradicional. O que está sendo lançado e implementado em 2022 possui uma proposta crítica e é estruturado em eixos - do trabalho, do ambiente e da cultura.

Dentro desses eixos, as novas orientações curriculares para a EJA desenvolvem objetivos gerais e específicos”, explicou Geisi Nicolau. Ela disse também que o trabalho desenvolvido com os alunos busca ampliar a capacidade de leitura de mundo desses sujeitos. A EJA é aberta a todos com mais de 15 anos e oferece matrícula durante todo o ano letivo.

Para que os professores possam ensinar a turmas tão diversas, a EJA trabalha com dia letivo e não com tempo de aula. Assim, em cada dia da semana, o professor aborda um único componente curricular: um dia para Língua Portuguesa, outro para Matemática, e assim por diante, contemplando todos os componentes curriculares, incluindo História e Geografia, Ciências, Linguagens artísticas, Língua Estrangeira, e Educação Física. O documento prévio para a elaboração do novo currículo foi feito de forma colaborativa, partindo das escolas em 2019, seguindo para as CREs e chegando ao Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos (CREJA).

Os profissionais do Creja trabalharam e consolidaram as informações, enviando o documento novamente para as escolas para que os professores tomassem ciência das alterações e as avaliassem de forma sistemática. Os centros de estudos nas escolas, compostos por profissionais que atuam nas escolas junto à EJA, puderam validar ou não, com ou sem ressalvas, sendo a redação final aprovada por 70% dos participantes. Dos 30% restantes, houve algumas ressalvas incorporadas ao texto. O Conselho Municipal de Educação homologou o novo currículo da EJA em 2021 e o documento está sendo implementado de forma monitorada.

Foto. Grupo de estudantes da Educação de Jovens e Adultos caminha no saguão do cinema. Ao fundo, a lanchonete do cinema, que possui na parede acima um cartaz com imagens de filmes e pessoas com óculos 3D e pacote grande de pipoca nas mãos.
A EJA levou cerca de 500 alunos para assistir ao filme Medida Provisória, de Lázaro Ramos, nos cinemas (Foto: Acervo Geisi Nicolau)

 

O objetivo é verificar como os professores estão se apropriando das orientações em sala de aula. Os professores poderão sinalizar durante três devolutivas ao longo do ano se consideram as orientações adequadas ou não e fazer ressalvas. A previsão é que no final de 2022, a Gerência da EJA possa fazer uma revisão no currículo baseada nessas devolutivas sobre o uso cotidiano do documento em sala de aula. “Muito do que está consolidado e legitimado nas orientações curriculares 2022 da EJA já vinha sendo feito pelos professores da Rede. O documento dá força a práticas existentes, como a participação cidadã no território onde o aluno vive e transita. Outro ponto é dar acesso às tecnologias da informação”, detalhou Geisi.

Parcerias dão acesso à cultura

Por meio de parcerias, a EJA procura ampliar as experiências culturais de seus alunos. Uma das iniciativas são as aulas-passeio. Em abril, por exemplo, 260 alunos da EJA assistiram gratuitamente em salas de cinema ao filme Medida Provisória, de Lázaro Ramos. Para julho e agosto, estão programados espetáculos de dança da coreógrafa Débora Colker. Irão aos espetáculos de dança 1.100 alunos da Rede Pública Muncipal de Ensino do Rio de Janeiro, entre alunos da EJA e também do Ensino Fundamental II. “A EJA é forte no município do Rio de Janeiro, constituindo-se em política pública, conforme estabelece a Constituição Federal e a LDB. Não somos apenas um projeto. Ao longo do tempo, nos perguntamos o que fazer com o aluno que se alfabetiza, como dar seguimento ao apendizado? Esse norte fez com que avançássemos até chegar no currículo que temos hoje, que busca promover a cidadania por meio da educação dos que não puderam tê-la no momento adequado”, contextualizou Geisi Nicolau.

Amanda Rosa, professora do Centro Municipal de Referência da Educação de Jovens e Adultos – Creja, no Centro do Rio de Janeiro, disse que, depois do interesse por aprender a ler e a escrever, informática é o conteúdo que os alunos mais solicitam. “Usamos o laboratório de informática para a inclusão tecnológica, ensinando a enviar email e publicar em um blog por exemplo”, disse ela. Amanda leciona atualmente para duas turmas, uma com 13 e outra com 10 alunos, ambas compondo-se de adolescentes, idosos, e adultos (empregados, desempregados e em situação de vulnerabilidade social). Amanda contou que o projeto roda de leitura está abordando a cultura negra, por meio de livros como a história de vida de Laudelina, empregada doméstica que lutou pelos direitos trabalhistas da categoria. Outra biografia vista pelos alunos foi a de Carolina de Jesus, autora de Quarto de despejo. Amanda disse que essas histórias geram identificação com os alunos, facilitando o aprendizado da leitura, da escrita etc.

Foto. Três estudantes leem sentados em cadeiras de um braço. Estão um ao lado do outro. Em primeiro plano, à direita, um deles segura o livro de modo que vê-se a capa, cujo título é Laudelina. Todos têm a cor de pele escura e usam máscaras pretas cobrindo o nariz e a boca. Usam blusas brancas de uniforme. Ao lado do rapaz, há uma senhora usando óculos com os cabelos amarrados e um homem jovem com a mão na testa. Na parede atrás deles, vê-se parte de um mapa, um reservatório de álcool em gel e uma parte de uma cortiça.
O projeto roda de leitura da EJA aborda a cultura negra, como a biografia de Laudelina, empregada doméstica que lutou pelos direitos trabalhistas da categoria (Foto: professora Amanda Rosa)

 

Educação Infantil

Em 2021, a EI já contava com um novo currículo elaborado de acordo com a BNCC. No entanto, com a prática ao longo do ano, a coordenadoria da Primeira Infância percebeu a necessidade de que o documento fosse além do que era apontado pela BNCC para a educação nacional, tendo orientações mais específicas para a realidade e as potencialidades cariocas, como a cultura pujante. “Estamos elaborando um documento que traga explícito o que são campos de experiência por exemplo. A intenção é empoderar as crianças cariocas trazendo orientações mais específicas para esse público determinado”, explicou Catia Cirlene de Oliveira, gerente da EI.

Segundo Catia, a pergunta norteadora para essa revisão do currículo é: o que pode a criança na EI do Rio de Janeiro?, levando-se em conta que a etapa possui objetivos diferentes dos definidos para a Educação Fundamental.

Ainda em 2022, será enviado a cada profissional da EI um material impresso para reflexão, com temas que constituem essa etapa na atualidade. “É preciso ampliar o olhar e perceber a EI articulada tanto à sociedade (família, comunidade, escola e território) quanto às outras etapas educacionais, assim como, pensá-la a partir da literatura, das artes e do corpo. É necessário levar em conta também como é possível avaliar o desenvolvimento dos alunos, inclusive os da educação especial”, detalhou Catia.

A partir dessa reflexão inicial, haverá a proposta da criação de fóruns regionais de discussão nas CREs, para que em 2024 seja consolidada a revisão do currículo. “Um documento orientador que estimule os profissionais a atuarem para além do simples desenvolvimento biológico, estimulando as múltiplas habilidades das crianças. Orientar para o que de fato possa acontecer de positivo no espaço escolar, com proposições de experiências que desenvolvam as potencialidades das crianças cariocas na primeira infância”, resumiu Catia.

Ensino Fundamental

Michelle Valadão, coordenadora do EF, disse que o redesenho curricular do Ensino Fundamental também está previsto para acontecer até 2024. Para isso, os profissionais da coordenadoria contam com uma parceria com a UFRJ. “Histórica e tradicionalmente, a cada ciclo de gestão, a Rede Municipal de Ensino do Rio faz uma revisão do currículo para subsidiar os professores em sala”, explicou Michelle.

Para o segundo semestre de 2022, está programada a leitura crítica do currículo carioca vigente por grupos de trabalho. “Faremos uma pesquisa, em parceria com nossa Rede, para aprofundamento de alguns eixos que orientem a revisão curricular. O objetivo é um diagnóstico sobre o que precisa avançar no currículo carioca para o Ensino Fundamental”, disse Michelle.

A coordenadora apontou três eixos balizadores deste processo:

1) Transversalização das relações étnico-raciais, com sua implementação em todos os componentes curriculares.

2) Inclusão como desenho universal do currículo e como política pública de ensino.

3) Multiletramentos (alfabetização informacional e educação midiática).

Outras questões a serem levadas em consideração, segundo Michelle, são gênero e sustentabilidade.

A coordenadora ressaltou que são metas ambiciosas, mas que devem funcionar como alvos a serem atingidos. O planejamento de revisão curricular do Ensino Fundamental prevê a redação do novo documento para 2023 e a revisão final, com a homologação no Conselho Municipal de Educação em 2024.

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