Ciência e filosofia, política e religião. Na base de todo conhecimento organizado se esconde, bem lá no fundo, o sonho de um mundo melhor. A disseminação das tecnologias digitais em escala global não foge à regra. Por isso mesmo, o momento de analisar as mudanças pelas quais todos estamos passando, em razão do fenômeno, é agora. Sociedade em transição é o primeiro episódio da série Em Tempo Real e abre o fórum para discussão.

Jane McGonigalEm seu primeiro livro, A Realidade em Jogo (Ed. Record), a game designer norte-americana Jane McGonigal propõe que o processo de gamificação tem tudo para alavancar, coletivamente, o senso de comunidade, em especial entre os mais jovens. Claudio D’Ipolitto, consultor em Economia Criativa do Inovelab/UFRJ, faz referência à autora, para quem os jogos em que se está “consertando o mundo” são potencialmente revolucionários. “Que bom se a gente pudesse usar um pouquinho dessas horas de videogame para consertar o concreto, porque a realidade está quebrada também.”

Identificar problemas presentes na vida social, simular e discutir possíveis soluções, tornando tudo mais fácil de aplicar, é uma possibilidade e tanto oferecida pelos dispositivos virtuais. A neurocientista Susan Greenfield, da Universidade de Oxford, compara o impacto do mundo digital sobre os pensamentos e os sentimentos aos dilemas contemporâneos em relação às alterações climáticas. “Está em nossas mãos fazer alguma coisa.”

Mas não é apenas sob o ponto de vista social que as tecnologias de comunicação e informação vêm efetuando mudanças. Da mesma forma, elas existem em relação a aspectos fisiológicos e cognitivos. “A criança desliga a TV ou o computador e vai dormir. Este sono já está prejudicado, porque o cérebro fica acelerado e não passa pelos mecanismos naturais para o relaxamento. A orientação é de, pelo menos, uma hora de intervalo entre desligar um aparelho e ir dormir”, recomenda a neuropediatra do Projeto ELO/UFRJ, Priscila Martins.

tecnoativismoProblema driblado por Sylvia Moreno com uma fórmula do tempo de seus avós. “Às sete horas da noite desligo tudo e faço o que eu chamo de Ciranda do Livro, que meus filhos adoram. Eles têm uma biblioteca na cabeceira da cama, de ponta a ponta da parede.” Para a empresária, seria um erro tentar banir a tecnologia do cotidiano das crianças. “Ela está presente desde o momento em que a gente acorda, de manhã, com o toque do celular.”

A afinidade da garotada por jogos de computador tem, ainda, uma explicação biológica, segundo Priscila Martins. “Uma característica da tecnologia, em geral, é a rapidez da resposta e da gratificação. Se esse mecanismo de recompensa interno está desregulado, pode levar a um abuso da atividade e até à sensação de dependência, mas apenas caso comece a haver uma interferência sobre o dia a dia.”