02 Outubro 2015
0
0
0
s2sdefault
 

Hoje valorizado pelo mercado brasileiro, disputando a atenção com o que de melhor é produzido na arte contemporânea, o grafite nacional assiste a uma nova onda de renovação: o crescimento do número de artistas mulheres. Sua contribuição para a arte urbana e o reconhecimento que vem obtendo junto à opinião pública levam à reflexão sobre o papel da mulher nesse contexto.

Pamela Castro

Observando os muros pintados por garotas em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Salvador, entre outras, descobrimos que, por trás do colorido quase sempre radiante, existem questões relacionadas à mulher, à forma como é tratada pelos homens e à sociedade de modo geral.

O universo feminino retratado pelas grafiteiras tem tantas nuances quanto as artes que pintam nos muros das grandes cidades. Personagens com olhos esbugalhados, de aparência quase infantil, convivem, lado a lado, com mulheres de corpo franzino, fragilizadas pelo abandono, pela opressão e pelo abuso sexual.

Anarkia Boladona

A carioca Panmela Castro, por exemplo, inseriu-se na cena do grafite há praticamente uma década. Os primeiros trabalhos dessa artista tinham como suporte os muros do bairro da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro, onde nasceu e foi criada. Ex-aluna de Belas Artes, Panmela tornou-se conhecida pelo codinome Anarkia Boladona e pelo desafio que se impôs de erguer, no lugar mais alto que alcançasse, sua bandeira em prol do feminismo.

E isso não era figura de linguagem. O reconhecimento obtido com seus “grafites feministas” se propagou pelos quatro cantos, com ajuda da imprensa internacional, especialmente da revista norte-americana Newsweek, que incluiu o nome da brasileira na lista das “150 mulheres que movem o mundo”.

“Foi na rua e fazendo grafites que pude me descobrir. Escolho o muro, faço meu desenho, dou vida aos personagens. Gosto desse aspecto efêmero da obra, e do modo como a cidade interage com meu trabalho e decide o que fazer dele.”

Questionando a noção de liberdade sob a ótica feminina, naquilo que diz respeito ao corpo, à sexualidade e à subjetividade da mulher, Pamela diz que não imaginava aonde poderia chegar. “Quando comecei, não tinha ciência da minha temática. Fazia autorretratos sempre ‘boladona’, de cara fechada. Com o tempo, eu mudei, e meu trabalho mudou.”

A personagem já não era um autorretrato, mas uma representação de todas as mulheres e de suas histórias. “Tenho a necessidade de me expressar, mas também de compreender o universo feminino”, disse ela, em uma entrevista ao jornal Correio Brasiliense.

magcrua

Magrela

As mulheres de Panmela Castro, quase sempre com longas madeixas adornadas com flores, em nada se assemelham às de outra artista de rua, a paulista conhecida como Magrela. Ela, que há oito anos se aventura pelos muros de sua cidade, também defende, por meio da arte, uma maior visibilidade das questões que envolvem o feminino.

Influenciada pela família, aderiu ao grafite aos 23 anos de idade, depois de constatar que nenhum outro trabalho lhe garantiria o prazer advindo da arte urbana. Tentando fugir do estereótipo de “ser menina”, ela se dedicou à criação de personagens sem qualquer traço de candura. Sua arte chama atenção por mostrar mulheres tristes, com formas retorcidas, embrutecidas – reflexo de um sentimento que carrega e compartilha com muitas outras mulheres.

O estilo pessoal e inconfundível de Magrela é fruto de muita dedicação à arte de grafitar. “A maturidade como ser humano, que tem suas dores, dúvidas e angústias, é refletida em tudo o que crio. Tudo o que sinto reverbera nas obras”, conta.

Sinhá

Inspirada pelos acontecimentos cotidianos e também pela poesia, a artista de rua Sinhá costuma dizer que o grafite “é uma arma para o bem”. Sinhá é natural do Rio Grande do Norte, mas, hoje, mora e trabalha em São Paulo, onde sua arte ganha visibilidade e chama atenção pelas personagens e seus cabelos voluptuosos.

Ananda Nahu BrazilAnanda Nahu

Representante baiana da arte urbana, Ananda, diferentemente das grafiteiras citadas anteriormente, aposta no resgate cultural de personalidades femininas que marcaram as décadas de 1960 e 1970.

Egressa da faculdade de Artes Plásticas, tomou gosto por técnicas de gravura em metal, litogravura, serigrafia e fotografia. Não por acaso, sua estética se relaciona com a dos cartazes urbanos, uma grande fonte de inspiração. A reverência à mulher é uma temática recorrente em sua produção, que reverencia cantoras negras norte-americanas e também legítimas brasileiras, como Clara Nunes.

Criola

A mineira Tainá Lima, mais conhecida como Criola, tem um trabalho focado na valorização e no fortalecimento da identidade e da representatividade afro-brasileira. Questiona, também, os padrões de beleza impostos às mulheres, que se tornam escravas de estereótipos. Está na ativa há cerca de três anos e já vem fazendo toda a diferença.

Em entrevista ao Portal Namu, Criola declarou: “Meu objetivo, enquanto mulher negra e grafiteira, é contrapor a publicidade que explora um padrão de beleza europeu e não retrata a realidade da miscigenação do nosso povo brasileiro. Desejo honrar com essa arte aqueles que, um dia, tiveram sua liberdade cerceada em razão da cor, e acredito que é graças a eles que estou aqui hoje. À medida que a representatividade dos negros aumenta em todas as áreas e segmentos, os estereótipos se enfraquecem”.

tikka1

Tikka

Nem tudo é militância entre as garotas do grafite. Existem as representantes da vertente figurativa, onde o forte é a criação de personagens marcantes, atraentes ao olhar, lúdicos por excelência.

Ana Carolina, conhecida no meio do grafite como Tikka, espalha pelos muros de São Paulo a personagem que se tornou sua marca registrada: uma boneca supercolorida, com olhos grandes e feições singelas. Ela grafita há dez anos e diz que sua inspiração, desde sempre, vem de sonhos e sentimentos.

“Não tento passar algo específico. Não sei também explicar exatamente de onde vem a minha inspiração. Sei que gosto de coisas bonitas, mundos fantásticos e, principalmente, de caprichar nas expressões das personagens, de maneira que atinjam quem as vê.”

Minhau

Trilhando um caminho parecido, destinado à contemplação e à fantasia, Camila Pavaneli, que assina suas criações com o codinome Minhau, é outra que entende o grafite como uma ferramenta para deixar o mundo mais leve e divertido. É ela a criadora dos enormes gatos multicoloridos que tanto alegram os paulistanos.

Camila ingressou na arte urbana fazendo lambe-lambes, um tipo de cartaz com impressão em offset. Seu primeiro muro como grafiteira ela nunca esquece: foi pintado em parceria com o grafiteiro Chivitz, com quem é casada até hoje.

castelo Nina Pandolfo

Nina Pandolfo

Entre todas as garotas do grafite, a que talvez desfrute de maior notoriedade é a paulista Nina Pandolfo, casada com um dos irmãos da dupla mundialmente conhecida OsGêmeos. O universo da artista é extremamente delicado e onírico. A estética é tão bem-resolvida que agrada em cheio aos colecionadores de arte.

Personagens femininas – que podem ou não traduzir um autorretrato da artista – são estrelas de cenários impregnados de cor, padronagens e pequenos detalhes. Além das pinturas bidimensionais, que buscam espelhar o trabalho que realiza nas ruas de todo o mundo, a artista recria seus personagens também em formato tridimensional. A linguagem é tão poderosa que já serviu até de decoração para a fachada de um castelo na Escócia.

Pioneiras mundiais do grafite

Sasu

Conhecida pelas performances de pintura ao vivo realizadas em parceria com o marido, o também artista Kami, Sasu evoca em seus murais a iconografia e os símbolos do budismo. A inspiração vem da natureza e da representação de mandalas. Sua arte pode ser vista não somente em Tóquio, mas também em Miami, nos Estados Unidos.

Lady Pink em NYLady Pink

Considerada a primeira dama do grafite, Lady Pink nasceu no Equador e começou a carreira como artista de rua na cidade de Nova York, no final dos anos 1970. Na época, a receptividade dos “garotos” não foi das melhores. Havia, segundo ela, muito sexismo por parte deles. Driblando o preconceito, conseguiu expor sua arte em museus como o Whitney, o PS1 e o Metropolitan, nos Estados Unidos.

Swoon

Ela sempre se considerou “estranha no ninho”, por ter crescido fora do perímetro urbano. Mesmo assim, tornou-se uma das artistas mais reverenciadas de sua geração. Swoon ficou conhecida por criar retratos de amigos e familiares. Suas instalações e performances tiveram como cenário as margens de rios, como Mississippi e Hudson, nos Estados Unidos, e a cidade de Veneza, na Itália. Contrária à intervenção urbana em propriedades privadas, cria projetos apenas para áreas públicas condenadas e abandonadas, ou para outros locais, sob convite.

The Art of Miss VanMiss Van

Natural de Toulouse (França) e residente em Barcelona (Espanha), Miss Van começou a carreira criando personagens femininas com aparência felina, espalhadas por muros de todo o mundo, até conquistar as galerias de arte e dedicar-se exclusivamente a elas. Passados 20 anos desde a estreia como grafiteira, segue produzindo sua arte, fiel ao estilo e à temática que a consagraram.

Lady K

Ela imigrou para os Estados Unidos nos anos 1990 e ganhou notoriedade ao assinar o apelido Fever em muros e vagões de trens de Nova York. Hoje, dedica-se a projetos de arte-educação sobre arte urbana, trabalhando em parceria com instituições como Bronx Museum of the Arts, El Museo del Barrio, Urban Arts Partnership e The Laundromat Project. Sua arte foi exibida em dezenas de exposições coletivas e mereceu destaque nos livros Graffiti Women: Street Art from Five Continents e Burning New York: Graffiti NYC.

Lady Aiko

Com este codinome, Aiko Nakagawa despontou na cena de arte urbana depois de integrar o coletivo Faile, até o ano de 2006. Nascida em Tóquio e baseada em Nova York desde os anos 1990, transita com naturalidade pelo grafite, o stencil e a serigrafia. Sua arte é extremamente figurativa. Além da padronagem floral, assina cartoons com características bastante femininas. Já expôs em museus como PS1 e Brooklyn Museum, ambos em Nova York, MACRO Future (Roma) e Shanghai MoCA (China).

painel lady aiko em ny

Margaret Kilgallen

Margaret Kilgallen não era exatamente uma artista do grafite, embora tenha sido reconhecida como tal depois da morte prematura, aos 33 anos de idade. A arte folclórica norte-americana era sua grande fonte de inspiração. Deixou uma série de desenhos em traço nos trens abandonados na cidade californiana de São Francisco, além de centenas de murais que incorporavam técnicas de sinalização.

Gilberto de Abreu, jornalista e especialista em artes visuais.

Relacionados
Mais Recentes