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Palácios da Cidade
09 Fevereiro 2017
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O primeiro pavimento do Palácio do Catete, destinado aos serviços gerais e às primeiras recepções, é todo revestido de granito; enquanto o segundo, reservado às festas, e o terceiro, com os aposentos particulares, possuem fachadas de mármore rosa (Fonte: Museu da República)

“As grandes janelas, as grandes portas, as grandes águias no alto, de asas abertas.” O trecho de Esaú e Jacó, publicado por Machado de Assis em 1904, descreve a visão que se tem, ainda hoje, do Palácio do Catete. No texto, o fundador da Academia Brasileira de Letras ainda se refere ao Palácio do Catete por seu nome original: Palácio Nova Friburgo, assim chamado porque foi o Barão de mesmo nome quem encomendou a construção. Apenas em 1960, com a transferência da capital federal para Brasília, é que o então presidente de República Juscelino Kubitschek assinou o decreto para a criação do Museu da República, que funciona no local. Enquanto a nomenclatura atual faz menção ao bairro onde está localizado o palácio, a anterior, Palácio das Águias, foi adotada a partir de 1910, ano em que foram colocadas no topo do prédio as esculturas, projetadas por Rodolfo Bernardelli.

Preciosidade arquitetônica

Em lugar de ter sido edificado no centro do terreno, como seria de se esperar, o Palácio do Catete fica na esquina da Rua do Catete com a Rua Silveira Martins. Tudo porque a baronesa de Nova Friburgo, Laura Clementina da Silva Pinto, se ressentia da vida rural na Fazenda Gavião, em Cantagalo, e desejava um contato mais próximo com o burburinho das ruas metropolitanas. Mas, para entender todo o impacto que a residência dos nobres exerceu por tanto tempo sobre a população carioca, a ponto de ter sido, durante décadas, a residência oficial do presidente da República, é preciso voltar um pouco mais no tempo. Exatamente ao ano de 1854, quando o português Antonio Clemente Pinto, rico cafeicultor, recebeu do imperador Pedro II o título nobiliárquico pelos serviços prestados à economia nacional. Como o evento gerou a necessidade da transferência da família para a corte, ele escolheu uma propriedade situada no chamado Caminho do Catete, no qual já existiam as palmeiras que se vê no jardim ainda hoje. Os lotes ficavam no então chamado Largo do Valdetaro. Embora a estrada desse acesso a chácaras e casas de campo de vegetação exuberante, desde a primeira década do século XVIII havia registros de enchentes provocadas pelo efeito da chuva sobre o Rio Carioca, inclusive com a necessidade de aterramento das terras mais pantanosas. Quatro anos mais tarde, o barão encomendou um projeto ao arquiteto alemão Carl Friedrich Gustav Waehneldt, que desenhou uma planta inspirada no estilo neorrenascentista dos palacetes urbanos de Florença e de Veneza.

Na Sala dos Símbolos, o trabalho de madeira tem dois tons, com detalhe em formato de estrela de cinco pontas e círculo (Fonte: Site Parquet)

A obra, realizada em meio a chácaras num terreno que se estendia até a Praia do Flamengo, só foi concluída em 1867. Foram contratados artistas de renome para a época, como o escultor português Quirino Antônio Vieira, que cuidou dos ornamentos e fachadas, e seu compatriota estucador Bernardino da Costa, autor das portas do térreo. Entre os pintores que contribuíram para a decoração dos ambientes estão Gastão Tassini, Mario Bragaldi e Emil Bauch, alemão que ficou responsável por várias telas expostas na residência, inclusive um retrato do Barão e da Baronesa de Nova Friburgo. Quase todo o material foi importado da Europa, à exceção das madeiras-de-lei utilizadas na confecção dos pisos de parquet, tabuados ou tacos que formam um sem-número de desenhos decorativos. Há, também, farta utilização de ladrilhos hidráulicos.

Aposentos de Getúlio Vargas (Fonte: Museu da República)

Existem, ao todo, 35 saletas, salas e salões. Há um Salão Nobre dedicado ao deus grego Apolo, uma capela, uma sala inspirada na cidade de Pompeia, e mais uma que se inspira no Palácio de Alhambra, na Espanha. O conjunto arquitetônico, que engloba uma área de 32.936,88 metros quadrados, inclui um chafariz, obras de arte, estátuas e candelabros das Fundições Val d’Osne, da França. Durante algumas décadas, toda essa beleza esteve circunscrita à apreciação dos convidados dos proprietários, escolhidos a dedo entre a alta sociedade carioca. Com a morte do casal, em 1890, os herdeiros venderam o palácio para a Companhia Grande Hotel Internacional. Mas, após a falência da empresa, o conselheiro Francisco de Paula Mayrink, um dos principais acionistas, comprou o prédio, que acabou hipotecado ao Banco da República do Brasil. Todavia, ainda levaria muito tempo até que as portas do Palácio do Catete fossem abertas ao público.

Salão Mourisco, no qual, terminado o jantar, os convivas do Barão de Nova Friburgo se reuniam parar fumar e jogar, enquanto as mulheres se dirigiam para o Salão Pompeano (Fonte: Museu da República)

Comprado pelo governo federal em 18 de abril de 1896, durante o mandato do presidente Prudente de Moraes, foi reformado sob a coordenação do engenheiro Aarão Reis e se tornou sede da Presidência da República. O norte-americano Adolfo Aschoff garantiu uma grande inovação tecnológica para a época: a instalação de energia elétrica. A usina do palácio era alimentada a carvão. Para assegurar o transporte do combustível, foi construído um ramal para a linha férrea do bairro. Anos mais tarde, a construção foi transformada em garagem da Presidência e, atualmente, funciona como Museu do Folclore. Um pavilhão se tornou um coreto e foram construídas dependências para os empregados. A novidade da iluminação foi assunto da crônica de Agenor de Roure, que publicou: “Como se vê, não será por falta de luz que os nossos presidentes hão de andar às tontas e às escuras! Impossível que, tão bem iluminado, o antigo Palácio Friburgo continue a ser uma sad house”. No total, 16 presidentes passaram pelo Palácio do Catete.

O corpo do presidente Rodrigues Alves, morto em 1919, foi velado no Palácio do Catete (Fonte: Museu da República)

A reforma contemplou a renovação de pinturas da casa, que passou a incluir obras de expoentes como Antônio Parreiras e Décio Villares. No andar térreo, uma obra do pintor Pedro Bruno, chamada de A Pátria, está instalada no Salão Ministerial e busca representar o sentimento republicano. Quanto aos jardins de 24 mil metros quadrados, originalmente projetados pelo paisagista Auguste François Marie Glaziou, estes passaram por uma repaginação, que ficou sob a responsabilidade de um aluno do mestre francês, Paul Villon, que incluiu um lago artificial e chafarizes. Além de espécies ornamentais, como a palmeira imperial e o pau-brasil, existem, também, árvores frutíferas variadas – mangueiras, jambeiros, caramboleiras, tamarineiros e abacateiros. A reinauguração do prédio aconteceu no dia 24 de fevereiro de 1897. Mais tarde, em 1938, o palácio e seus jardins foram tombados pelo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Visitação necessária

O Palácio do Catete foi palco de situações decisivas – declaração de guerra à Alemanha, em 1917, e ao Eixo, em 1942 –, mas também de eventos de pura comoção nacional, como o velório do presidente Afonso Pena, em 1909. Ainda hoje, um dos mais visitados locais do museu está no terceiro piso: o quarto de dormir do presidente Getúlio Dornelles Vargas, no qual ele se suicidou, em 24 de agosto de 1954, com um tiro no coração. Desde 1960, o Museu da República, ali instalado, existe para preservar, pesquisar e levar ao público qualquer informação pertinente à república brasileira. O setor educativo do museu desenvolve projetos voltados para alunos do Ensino Básico e seus professores, com material didático de apoio, oficinas, visitas guiadas e colônias de férias gratuitas.

As coleções do acervo reúnem peças da família do Barão de Nova Friburgo e materiais de uso profissional e particular de vários presidentes da República, chegando a dez mil objetos, cem mil documentos – entre manuscritos, mapas e fotografias –, nove mil títulos de livros e periódicos, vídeos e CD-ROMs. Merecem destaque a Coleção Memória da Constituinte, a Coleção Canudos, a Coleção Nilo Peçanha e a Coleção Família Passos, que conta com registros de texto e imagens da vida do prefeito do Rio de Janeiro. Além disso, são realizadas exposições de arte contemporânea na Galeria do Lago, e existem, também, um cinema, uma livraria, um auditório para 80 pessoas e um parque infantil. Nos jardins do Palácio do Catete acontece, anualmente, a Primavera dos Livros, maior feira editorial independente do país.

Serviço:

Atmosfera bucólica dos jardins é indissociável do palácio (Fonte: Museu da República)

Museu da República

Rua do Catete, 153 – Catete

Telefone: (21)2127-0324

Funcionamento: de terça a sexta-feira, das 10h às 17h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 18h.

Ingressos: R$ 6,00 (entrada franca às quartas-feiras e aos domingos).

Professores, maiores de 60 anos e crianças até 10 anos não pagam.

Estudantes e menores de 21 anos têm 50% de desconto.

Horário do jardim: diariamente, das 8h às 18h, com fechamento às 19h durante o horário de verão.

 

Fontes:

FRANÇA, Renata Reinhoefer. As Janelas do Imaginário. In: Revista de História.com.br, edição 6/7/2011.

PORTELLA, Isabel Sanson. Análise Tipológica dos Padrões dos Pisos de Parquet dos Salões do Palácio Nova Friburgo / Palácio do Catete. In: A casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro. Universidade Nova de Lisboa/UFRJ, 2014.

SÁ, Claudia. Parque do Museu da República. Lume Arquitetura.

SALADINO, Alejandra; OLIVEIRA, Carlos. Um Jardim da Res Publica: Desafios e Algumas Propostas Possíveis para a Preservação e a Valorização do Jardim Histórico do Palácio do Catete. In: Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio – PPG-PMUS UniRio/MAST – vol. 5 no. 2 – 2012.

Site do Museu da República

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