04 Julho 2018
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Atividade, em Sala de Leitura, com coordenadores pedagógicos e professores articuladores. Divulgação, Pnaic-EI RJ

Cerca de 300 coordenadores pedagógicos e professores articuladores da Rede Pública Municipal de Ensino participaram dos cursos de formação, presenciais e semipresenciais, promovidos pela coordenação do Pacto Nacional de Alfabetização na Idade Certa – Educação Infantil (Pnaic-EI), na cidade do Rio de Janeiro. As ações foram iniciadas em meados do segundo semestre de 2017 e culminaram com o seminário O Que Se Espera da Educação Infantil Diante de um Mundo Letrado, realizado no dia 30 de maio na Escola de Formação Paulo Freire (EPF).

Segundo Ézila Martins, coordenadora do Pnaic-EI na Rede Municipal do Rio, a formação dos multiplicadores – coordenadores pedagógicos e professores articuladores – obedeceu às diretrizes do Ministério da Educação (MEC). Ela ressalta que tais orientações não têm nada a ver com a antecipação dos conteúdos previstos para os anos iniciais do Ensino Fundamental. “É preciso frisar isso. Por desconhecimento, muitos pensam de forma equivocada”, diz.

No seminário ocorrido na EPF, Cátia Cirlene – da Gerência de Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação (SME) e doutoranda da Uerj –, não deixou dúvidas a respeito das diretrizes adotadas: “É preciso avançar sobre a ideia de que a EI é uma mera preparadora para a alfabetização, para a decifração dos códigos da escrita. Não podemos nos limitar a isso, porque só ler e escrever não é suficiente para responder às demandas contemporâneas. Hoje, não basta decifrar, tem que saber transitar pelos mais diversos textos, gêneros e temas”.

A partir desse entendimento e das especificidades das crianças de 0 a 6 anos, os cursos oferecidos pelo Pnaic-EI aqui no Rio buscaram ampliar a formação teórica dos educadores, a fim de dotá-los de práticas diferentes daquelas em que oralizam, repetidamente, as letras e as sílabas para os alunos memorizarem. Isso porque se entende que o mundo letrado é amplo e não restrito à transcrição do código da fala.

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Ézila Martins, coordenadora do Pnaic no Rio de Janeiro. MultiRio

“É preciso ter em mente que a faculdade da linguagem é inata e não se resume à fala e à escrita. As expressões faciais, as imagens, os sons, os gestos, as interações, as quantidades... Tudo é texto. Tudo é lido pela criança. Precisamos compreendê-la melhor, interagir cada vez mais com ela, para, a partir disso, ampliar todas as suas potencialidades e o seu conhecimento”, explica Ézila.

Para entender a criança e o universo em seu entorno (aquele que ela busca decifrar, no dia a dia, por meio da leitura das diferentes linguagens), o Pnaic-EI propõe que o professor acesse os conhecimentos que ela já produziu. Isso significa que a criança precisa ser valorizada e reconhecida como sujeito de seu próprio conhecimento. “Há muitos ganhos nessa proposta de prática pedagógica, porque o interesse pela aprendizagem é facilitado quando ela nos afeta, quando faz sentido na nossa vida. Uma pena que o curso tenha tido apenas 120 horas”, lamenta a coordenadora do Pnaic no Rio.

Literatura Infantil

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Literatura infantil expande a compreensão de mundo das crianças. Divulgação, Pnaic-EI RJ

A professora da Rede Elisabeth Martini, doutora em Literatura Comparada pela Uerj, também participou do seminário e recordou que a construção cultural da infância como uma fase distinta da vida é relativamente recente, iniciada no século XIX. “É muito difícil para o adulto conseguir entrar na lógica infantil. Ainda assim, devemos enxergar a criança como potência”, reforça.

Para buscar maior diálogo com esse universo, o material didático oferecido pelo Pnaic – a coleção Leitura e Escrita – dá ênfase à literatura infantil. Por transitar entre a fantasia e a realidade, acredita-se que ela tem potencial para expandir a compreensão de mundo e a vivência das crianças. Elisabeth Martini ainda ressalta que também funciona como ponte entre crianças e adultos. “Algumas pessoas questionam se a literatura infantil é uma arte menor. Não! Ela é uma arte que não exclui ninguém. Sob este ponto de vista, a literatura adulta é mais restritiva do que a infantil”, defende.

Prática e produtos da MultiRio

A professora dividiu a mesa com dois profissionais da MultiRio: o assessor de animação e artes gráficas, Marcelo Salerno, e o animador Frata Soares. Eles explicaram o processo de concepção de alguns dos produtos da empresa voltados às crianças, como as séries de animação Cantigas de Roda e Que Medo!, esta última também composta por livros com o recurso da realidade aumentada.

“Procuramos sempre respeitar as características do público infantil. Por isso, sempre o ouvimos e não subestimamos sua capacidade”, diz Marcelo. “Buscamos falar sobre temas complexos sem impor certezas e conceitos fechados. E nunca deixamos de considerar o papel do professor, que vai ser o mediador do conteúdo com as crianças”, explica Frata.

Para Ézila Martins, os produtos da MultiRio para o público infantil são textos não escritos que expõem conteúdos da maneira como eles são vividos pelas crianças. A partir deles, vários fios da meada podem ser puxados, sendo, portanto, um convite à reflexão na Educação Infantil.

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Os animadores Frata Soares e Marcelo Salerno e a professora de Literatura Elisabeth Martini. MultiRio

Em consonância com as propostas do Pnaic-EI, as produções da MultiRio usam diferentes linguagens. Cantigas de Roda, por exemplo, utiliza canções infantis populares para abordar temas como a perda de um animal de estimação ou a chegada de um irmão mais novo. Já a série Que Medo! fala sobre receios comuns entre os pequenos: de médico, de monstros, do primeiro dia de aula e do escuro. Os livros da série utilizam o recurso da realidade aumentada, oferecendo uma inovação tecnológica na literatura infantil.

A professora de EI do Colégio Pedro II de Realengo, Tatiana Mello, também compôs a mesa do seminário O Que Se Espera da Educação Infantil Diante de um Mundo Letrado. Contou como, a partir de um aluno ter ido com uma peruca de índio à escola, foram acionadas redes de conhecimento que a turma tinha sobre os indígenas, compondo uma grande narrativa, no decorrer das semanas. E disse que precisou conversar muito com os pais para lembrar-lhes que o processo de aprendizagem das crianças pequenas é diferente das que têm mais de 7 anos.

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