Processo Seletivo DAF 2021 12


07 Dezembro 2021
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Luciana Tupinambá valoriza o contato com elementos da natureza no cotidiano escolar (Foto: acervo pessoal)

Méri Puri, Luciana Tupinambá e Diádiney Pataxó são professoras da Rede Pública Municipal de Ensino do Rio de Janeiro e valorizam as 305 etnias indígenas existentes no Brasil atual (dados do Censo do IBGE de 2010).

Elas propõem uma série de atividades que ensinam às crianças o valor das culturas indígenas (respeito à natureza e vida em coletividade, por exemplo); e garantem que qualquer professor pode, por meio de pesquisa acessível, desenvolver aulas que promovam o conhecimento e o respeito pelos povos originários do Brasil.

Autodeclaração

Méri Puri é professora do 4º ano na E.M. Azerbaijão (7 ª CRE), em Jacarepaguá. A mãe dela nasceu em um aldeamento Puri em Conceição de Castelo, no Espírito Santo. Méri conheceu o avô, remanescente da etnia Puri. Quando perguntava para a mãe sobre o povo ao qual pertenciam, a mãe dizia que Puri não existia mais. Ao longo da adolescência e da vida adulta, Méri buscou outros indivíduos descendentes de Puri e encontrou. O povo do qual descendia não estava extinto.

“Era um caso de etnocídio”, explica a professora. Desde então, Méri participa de um processo de retomada ancestral, similar a de diversos povos no Brasil, relata a professora. Esse movimento consiste em se levantar para se autoafirmar, dizer que não estão extintos, e desenvolver atividades como o Centro de Memória Puri, disponível na internet, com informações sobre a etnia em diversos suportes - audiovisual, fotos e textos.

Indígenas vivem nas cidades e em seus territórios

“Os povos indígenas estão atualmente em muitos lugares no Brasil, como eu, que sou pedagoga e professora da Rede. Indígenas não são seres mitológicos, são pessoas como as outras”, coloca Méri. Em suas aulas na E.M. Azerbaijão ela inclui os povos originários no cotidiano relacionando-os aos diversos conteúdos.

“Se é Geografia, falo de migrações dentro do Brasil, abordo o fato de que grande parte da população do Nordeste brasileiro descende de povos indígenas e sofre com o apagamento cultural”, exemplifica a professora.

Méri Puri relaciona os povos indígenas a diversos conteúdos do currículo escolar (Foto: acervo da professora)

Méri diz que a sabedoria indígena vem sendo ignorada, trazendo prejuízos para a sociedade como um todo. “Os nomes de origem indígena carregam consigo informações sobre o que designam. Jacarepaguá, por exemplo, significa ‘lagoa rasa de jacarés’. Sabendo disso, conclui-se que é uma região pantanosa onde não se deve construir edifícios pesados porque afundam”, conta Méri.

O mapa do Brasil da sala de aula de Méri possui os territórios indígenas demarcados. “Não é difícil de achar, comprei em um shopping. Com ele, trabalho diversos conteúdos. Mostro que o Rio de Janeiro era coberto de Mata Atlântica até a chegada dos europeus e que foi perdendo paulatinamente essa floresta até só restar pequenas áreas nos dias de hoje. Essa história se repete em todo o Brasil – as áreas de florestas remanescentes são todas regiões onde vivem povos indígenas, porque eles preservam o ambiente em que vivem, são os maiores protetores das florestas”, ressalta Méri.

Língua Portuguesa também pode ser contextualizada, diz Méri. “Por que falamos português? Não é só técnica a ser passada, é preciso contextualizar, trata-se da língua do colonizador”. Segundo o Censo, ainda existem no Brasil 274 línguas indígenas sendo usadas atualmente no Brasil.

Oficinas sobre culturas indígenas do Brasil

Diádiney Pataxó é historiadora pela UFRJ e mestre e doutora pela Fiocruz. Atualmente, trabalha na Gerência de Recursos Humanos da 9ª CRE. “Me reconhecer como indígena não é fácil diante dos silêncios e de toda violência que atravessam nossas histórias. Não só a minha história, mas as de muitas famílias brasileiras”, explica a educadora. “Luto contra imagens estereotipadas e pessoas que me julgam pelo fenótipo. Com muito esforço e incentivo da família, consegui chegar à universidade pública. Fiz uma trajetória acadêmica em instituições públicas e, ao mesmo tempo, tenho plena consciência da importância do trabalho feito pelos meus parentes que estão no território, fora das cidades. O trabalho de base que eles fazem, defendendo o território e a causa indígena. Acessei conhecimentos, espaços e também me reconheço a partir de minhas origens, buscando contar essa narrativa e essas histórias decoloniais para buscar respeito, para informar as pessoas. A gente luta para resistir e para existir”, resume a educadora.

Diádney atua em várias frentes, dentro e fora da Rede. Ela participa do Vozes indígenas na Produção de Conhecimento, além de coordenar o mestrado profissional em direitos humanos, justiça e saúde: gênero e sexualidade na Escola Nacional de Saúde Pública, ambos os projetos na Fiocruz. Ela também trabalha no comitê editorial Diálogos da Diáspora, voltado para o reconhecimento de autores negros e indígenas. “O fato de a minha experiência ser a partir da cidade não faz de mim menos indígena, não nega minhas raízes ancestrais”, diz ela.

Diádiney Pataxó promove oficinas para falar sobre os indígenas no Brasil atual (Foto: acervo pessoal)

Diádney começou a lecionar na Rede em 2013 como professora de História. Antes da pandemia, desenvolvia oficinas sobre culturas indígenas do Brasil em escolas da Rede. Ela pretende retomar o projeto, que consiste em rodas de conversa com livros e fotos, reunindo estudantes de diversas séries para conversar sobre o que eles sabem sobre a questão.

“O principal objetivo é mostrar para os alunos que os povos indígenas são contemporâneos deles, as culturas são diversas e muitas e não podem ser consideradas homogêneas, que cada cultura se identifica a partir de um nome, de uma cultura, de rituais, de crenças, de histórias, de narrativas particulares.

Apresento também o universo de artistas, músicos, escritores e professores indígenas. Traço esse panorama dos povos originários dentro da contemporaneidade para superar a referência constante ao passado feita pelas escolas e materiais didáticos ao longo de muitos anos”, afirma a professora.

Educação Infantil

Luciana Tupinambá é professora no EDI Claudio Cavalcanti (2ª CRE), em Botafogo. Ela promove experiências com as crianças pequenas relacionadas à natureza e também lê para elas com frequência livros de autores indígenas como os de Sulami Katy, Tiago Rakiy, Iaguarê Iamã e Eliane Potiguara, entre outros. Luciana também inclui no dia a dia escolar música, percussão e poesia.

Crianças do EDI Claudio Cavalcanti interagem com elementos naturais (Foto: acervo Luciana Tupinambá)

O trabalho se desenvolve assim: as crianças, levadas pela professora, observam árvores, formigas, flores e sementes no pátio da escola. “Elas catam elementos da natureza e trazem para mim. Um me diz ‘a folha parece um tubarão’. Outra criança fala ‘esse coco é cabeludo’. A partir da fala das crianças, sentadas, montamos uma poesia e fazemos uma música com todos esses elementos vivenciados”. Todas essas experiências são inspiradas na cultura dos povos indígenas e transmitem para as crianças valores importantes. A professora também mostra fotografias de diferentes etnias nas conversas com as crianças.

Luciana participa de um coletivo em prol da Educação para as Relações Étnico-Raciais da 2ª CRE. São encontros quinzenais on-line, que reúnem professores até mesmo de outras coordenadorias interessados no tema. Os participantes leem previamente um texto acadêmico disponibilizado. No encontro, o texto é discutido e fala-se também sobre práticas voltadas para as relações étnico-raciais em sala de aula – 150 educadores da Rede se inscreveram para participar do grupo de estudo que já está em sua terceira reunião .

As atividades desenvolvidas por Méri, Diádiney e Luciana tornam efetiva a Lei 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura indígena nas escolas. Desse modo, elas promovem o respeito à diversidade na Rede Pública Municipal de Ensino do Rio de Janeiro.

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