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O Rei Samba
SÉRIE
Rio de Música
10 Fevereiro 2015 | Por Sandra Machado
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ismaelReconhecido como a música popular do Brasil por excelência, o samba não atingiu esse status à toa, sendo resultado, fundamentalmente, do esmero e da perseverança com que os precursores do gênero lidaram com sua arte – de início, marginalizada. Diante da repressão policial à realização de suas festas, fossem elas religiosas ou de entretenimento, os negros, pobres e excluídos, respondiam com uma forte rede de solidariedade, que primava sempre pela troca de experiências e pela inventividade.

Quando o Rio de Janeiro era a capital do império, levas de negros vindos da Bahia procuraram a cidade, após uma série de rebeliões ocorridas em Salvador, que tiveram seu auge em 1835, com a Revolta dos Malês. Da mesma forma, o Rio exerceu sua força de atração, intensificando as migrações rurais das populações beneficiadas pela série de leis abolicionistas, já a partir da Lei do Ventre Livre, de 1871. O convívio de várias etnias negras – em especial bantos, jêjes e nagôs – fez da metrópole o lugar ideal para a ocorrência de uma mistura musical única.

A fusão ia se dando especialmente nos zungus da zona portuária, onde levas de “baianos” conviviam com os recém-chegados do continente africano. Zungus eram casas coletivas, ocupadas por negros fugidos ou alforriados, geralmente localizadas na Pedra do Sal. Não há consenso em torno do nome. Há quem afirme ser o termo originado do quimbundo nzangu, cujo significado é “confusão barulhenta”, ou mesmo do idioma quicongo na palavra nzungu, que quer dizer “panela”. Alguns historiadores atribuem, no entanto, a origem de zungu às chamadas “casas de angu”, organizadas pelas quitandeiras negras, que não apenas socorriam os necessitados com o alimento principal da dieta
macacodos escravos, mas também transformavam os zungus em verdadeiros pontos de resistência cultural, promovendo os cultos, os batuques e os jogos de capoeira.

As despretensiosas rodas, realizadas na casa da Tia Ciata, na Praça Onze, e na Pedra do Sal, no Morro da Conceição, ainda nos últimos anos do século XIX, se desdobraram em um sem-número de subgêneros espalhados não apenas pela cidade, mas por todo o país. Na região, conhecida como Pequena África, o compositor Ismael Silva fundaria, já durante a República, a primeira escola de samba carioca: a Deixa Falar, que saiu entre 1929 e 1931, durante a fase de estruturação dos futuros desfiles. Mesmo a remodelação urbanística completa da Praça Onze, nos anos 1940, que poderia ter sido interpretada como uma desvantagem, acabou funcionando como uma diáspora, a propagar o samba pelos subúrbios cariocas casee associá-lo, definitivamente, à alma da cidade.

Para uma segunda fase, de conquista de público em âmbito nacional, contribuíram as emissoras de rádio, com catalisadores como o Programa Casé, e, também, a indústria fonográfica. O mais célebre dos discos é justamente aquele que inaugurou, com seu registro na Biblioteca Nacional, o reconhecimento do gênero: o samba Pelo Telefone, gravado em 78 rpm. Pesquisadores atribuem o sucesso, absoluto no carnaval de 1917, a uma criação coletiva, que teria acontecido em uma reunião do rancho Rosa Branca na casa da Tia Ciata, na qual estariam presentes não apenas Donga, mas também Sinhô e Hilário Jovino, baiano responsável por transferir as festas de ranchos e pastoris, realizadas tradicionalmente na época do Natal, para o carnaval.

“Até então, a palavra samba era usada como sinônimo de festa”, explica Pedro Paulo Malta, lembrando seu uso no samba Com Que Roupa, primeiro grande sucesso de Noel Rosa. Para o pesquisador de MPB, é espúria a discussão sobre se o samba tem origem baiana ou carioca, assim como a celeuma em torno da suposta esperteza de Donga, ao assumir, sozinho, a autoria do primeiro samba gravado. “O que foi visto pela história como um ato de esperteza também tem o seu lado bonito: foi Donga quem deu uma ‘certidão de nascimento’ àquele gênero que estava nascendo. E ele precisava de um parceiro respeitado como intelectual para referendar a obra”, ressalta Malta, numa referência ao Sinhojornalista Mauro de Almeida, que teria assinado a obra sem uma efetiva participação autoral.

Coube a outro jornalista, Mario Filho, a honra de propor, por intermédio do seu recém-criado jornal O Mundo Esportivo, a disputa coletiva entre as escolas de samba, ou seja, o primeiro desfile, realizado na Praça Onze. Diante do prestígio do evento, que rapidamente conseguiu não apenas angariar uma forte adesão popular, mas também a vinda de turistas, nada mais restou às autoridades do que encerrar a repressão policial. Segundo o Dossiê das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, publicado pelo Centro Cultural Cartola, apenas três anos depois do primeiro desfile a prefeitura oficializou a apresentação, estabeleceu subvenções financeiras às agremiações e passou a distribuir uma revista publicada em francês, inglês e espanhol com informações para os visitantes que, naquela época, já elevavam a taxa de ocupação dos hotéis da cidade durante o carnaval.

Originalmente, a palavra samba designava algumas danças de roda trazidas de Angola e do Congo pelos escravos. Sua raiz vem de semba, que no idioma quimbundo dos bantos significa “umbigada”. Para fazer um bom samba, é preciso reunir um elenco de respeito: tamborim, violão, pandeiro, cavaquinho, cuíca, surdo, repique, tarol e chocalho, a serem executados com uma típica marcação binária e com o ritmo sincopado. Mas, principalmente, contar com o talento de pioneiros como Donga, Sinhô, Ary Barroso, Lamartine Babo, Braguinha, Ataulfo Alves, Noel Rosa e seu parceiro Ismael Silva, ou de seu desafeto Wilson Baptista, numa riqueza que se renova há gerações, para a alegria geral da nação.

 
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