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Vacinas e sistema imunológico
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Detetives da Ciência
01 Janeiro 2010 | Por MultiRio
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Uma seringa cheia de líquido com uma afiada agulha na ponta. Isso te faz lembrar de alguma coisa? Provavelmente sim: de algumas vacinas que você já precisou tomar, quando era bem pequeno ou mesmo um pouco maior. Para alguns, a experiência é doída, seguida até de chororô. Para outros, é só um incômodo que passa rapidinho. Mas é difícil achar alguém que goste de tomar injeção!

Apesar de não ser lá muito agradável sentir a agulha espetar, tomar vacinas é uma das medidas mais importantes para prevenir doenças contagiosas, ou seja, que podem passar de pessoa para pessoa ou de um animal para uma pessoa. E, já diz o ditado, é muito mais fácil prevenir do que remediar.

As vacinas protegem o corpo humano contra vários vírus e bactérias que causam doenças graves, como tétano e tuberculose. E essa proteção não é apenas individual, pois a pessoa vacinada não só não fica doente como também não transmite o vírus ou bactéria para outra pessoa. Assim, quanto maior o número de pessoas vacinadas em uma comunidade, mais difícil é que um membro desta comunidade fique doente.

Como as vacinas funcionam? - Quando tomamos uma vacina, o líquido injetado vai diretamente para a nossa corrente sanguínea. Lá, o vírus ou bactéria – mortos, vivos ou representados por uma parte do seu material genético – entra em contato com as nossas células de defesa. Para essas células, a presença do vírus ou bactéria é interpretada como uma ameaça e, por isso, é preciso combatê-los.

Nosso sistema de defesa – mais conhecido como sistema imunológico –, então, trabalha para produzir anticorpos contra o microrganismo invasor. Os anticorpos se ligam ao microrganismo causador da doença e sinalizam onde está o perigo, para que as células de defesa entrem em ação, identifiquem e eliminem os tais causadores de doença.

Depois de acabar com a invasão de vírus ou bactérias, o sistema imunológico fica com uma espécie de “memória” da invasão. Isso significa que, se algum dia nosso organismo entrar novamente em contato com o mesmo tipo de microrganismo, nossas células de defesa já saberão como controlar a invasão antes que a doença se manifeste. Os cientistas chamam isso de imunidade.

Às vezes, após tomar uma vacina, algumas pessoas podem sentir coisas como febre, cansaço, dor e vermelhidão no local onde foi aplicada a injeção. Isso acontece porque a vacina estimula a produção de anticorpos e a defesa do nosso organismo. Apesar de serem incômodas, essas reações passam logo e não fazem mal.

Diferentes tipos de vacinas - Hoje, existem várias formas de se produzir vacinas. As principais são as vacinas atenuadas e as vacinas inativadas.

O primeiro tipo consiste em cultivar microrganismos em laboratório e eliminar artificialmente sua capacidade de causar doenças. Isso acontece, por exemplo, na vacina contra o sarampo: os cientistas conseguiram criar, em laboratório, uma espécie de vírus mais fraco, chamado atenuado. Embora ele não seja suficiente para deixar uma pessoa doente, ele é capaz de gerar imunidade contra a doença. Outras vacinas produzidas com essa técnica protegem contra doenças como caxumba, rubéola e febre amarela.

Já as vacinas inativadas são produzidas a partir de microrganismos mortos ou apenas algumas partes desses microrganismos. Vacinas assim são usadas contra gripe, difteria, tétano, coqueluche e raiva.

Há ainda outras formas mais modernas de produzir vacinas, como as vacinas conjugadas, que unem partes dos microrganismos a proteínas que ajudam a aumentar a resposta imune, e as vacinas recombinantes, feitas a partir de microrganismos geneticamente modificados. Além disso, existem as vacinas combinadas, que protegem contra várias doenças ao mesmo tempo – uma ótima forma de diminuir o número de agulhadas e aumentar nossa imunidade!

Por fim, vale lembrar também que nem todas as vacinas são aplicadas sob a forma de injeção: a vacina contra poliomielite – conhecida como paralisia infantil –, por exemplo, vem em forma de gotinha.

Um pouco de história - A palavra vacina vem de vaca, e não é por acaso. A primeira vacina do mundo foi descoberta em 1796, pelo cientista britânico Edward Jenner. Ele descobriu que, se os seres humanos recebessem injeções de material retirado das lesões de varíola das vacas, tornavam-se imunes a essa doença. Poucos anos mais tarde, sua descoberta foi posta em prática e várias pessoas começaram a ser vacinadas.

Hoje, embora ninguém goste de tomar injeção, todo mundo sabe o quão importantes são as vacinas. Mas nem sempre foi assim. Se voltarmos um pouquinho no tempo – mais precisamente até o ano de 1904 – veremos que a vacinação já foi motivo para uma grande revolta.

Um episódio curioso aconteceu no dia 10 de novembro daquele ano, na cidade do Rio de Janeiro, quando o jornal A Notícia publicou um texto sobre a Lei de Vacinação Obrigatória, aprovada poucos dias antes. Ela foi feita porque, embora a vacina contra a varíola – doença grave que matava muitas pessoas – já estivesse disponível no Brasil há cem anos, muita gente não se vacinava. Com a nova lei, a população era obrigada a se vacinar e o certificado de vacinação era exigido em todo canto: para fazer matrícula nas escolas, para conseguir um emprego público, para viajar e até para casar e votar.

Muita gente ficou insatisfeita com isso. Pelo menos 15 mil pessoas assinaram listas contra a obrigatoriedade da vacina. Outras resolveram fazer passeatas e comícios, que foram duramente reprimidos pela polícia. No dia 13 de novembro do mesmo ano, houve uma verdadeira rebelião. O povo construiu trincheiras nas ruas e enfrentava a polícia a tiros. Havia incêndios por toda parte.

A confusão durou até o dia 19 e, ao final, 945 pessoas tinham sido presas, 110, feridas e 30, mortas. O episódio ficou conhecido como Revolta da Vacina.

Essa revolta aconteceu não só pelo medo da injeção, mas também por outros motivos. Houve até quem espalhasse o boato de que a vacina, produzida a partir de líquidos extraídos de vacas doentes, deixava todo mundo com cara de bovino!

Havia também outras preocupações, mais sérias. Naquela época, a população mais pobre do Rio de Janeiro estava revoltada com uma série de medidas tomadas pelo governo. As campanhas do cientista Oswaldo Cruz – que desde 1903 era diretor geral de saúde pública – eram rígidas e, ajudadas por policiais, invadiam casas, interditavam prédios e retiravam doentes à força. O povo costumava chamar o regulamento sanitário de Código de Torturas! A obrigatoriedade da vacina, então foi a gota d’água para começar a revolta.

No fim das contas, a obrigatoriedade da vacina foi suspensa e o resultado foi uma epidemia de varíola que matou milhares de pessoas.

Um caso de sucesso - Foi preciso que muitas pessoas morressem para que a população se convencesse da importância de tomar vacina contra varíola. No mundo inteiro, a doença fez vítimas, até que os países resolveram se unir com um objetivo em comum: acabar de vez com a doença. Foram realizas intensas campanhas de vacinação, que, anos depois, trouxeram um ótimo resultado: a varíola foi a primeira doença na história a ser erradicada, ou seja, a deixar de existir graças à vacinação da população mundial.

Outras doenças estão na mira das campanhas de vacinação, mas é muito difícil acabar com elas definitivamente. É preciso que o mundo inteiro trabalhe para isso, pois, se o esforço for de um país só, as doenças transmitidas de pessoa para pessoa podem ser levadas de um lugar ao outro por viajantes que não tomaram a vacina.

No Brasil, o responsável por cuidar para que todos os cidadãos – ricos e pobres, jovens e velhos, que moram no litoral ou no sertão – sejam vacinados contra as principais doenças é o Programa Nacional de Imunizações, criado em 1973. Seus esforços já ajudaram a controlar doenças como febre amarela urbana, poliomielite e sarampo. Porém, elas não estão completamente eliminadas: só estão sob controle graças às vacinas e, por isso, mesmo que o número de casos seja cada vez menor, é preciso continuar vacinando a população.

Hoje, logo que nasce, toda criança brasileira deve receber a vacina BCG – contra formas graves de tuberculose – e a vacina contra hepatite B – essa última deve ser reforçada com um mês de vida. Aos dois meses, é hora de tomar a primeira dose das vacinas contra poliomielite e rotavírus e da vacina tetravalente – contra difteria, tétano, coqueluche, meningite e outras infecções. Essas duas vacinas são aplicadas novamente aos quatro e seis meses. Em algumas regiões, como a Amazônia, é preciso tomar também a vacina contra febre amarela. Com um ano de idade, chega a vez da tríplice viral, vacina que protege, com uma espetada só, contra sarampo, rubéola e caxumba.

Mas não são só os bebês que precisam tomar vacina. Algumas vacinas, como a de febre amarela e a dupla – contra difteria e tétano – têm validade de dez anos e devem ser reaplicadas após esse período. Adolescentes e adultos também precisam tomar vacina contra hepatite B e idosos, contra gripe e pneumonia.

Para que ninguém se esqueça do que precisa tomar, é preciso guardar com cuidado a caderneta de vacinação e seguir o calendário de vacinas proposto pelo Programa Nacional de Imunizações. E um detalhe importante: todas as vacinas do calendário básico de vacinação são oferecidas gratuitamente pelo Ministério da Saúde por meio dos postos de vacinação espalhados por todo o país.

 

 
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