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V Semana de Alfabetização
25 Setembro 2017
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Da esquerda para a direita, Maria do Socorro, Kátia, Daniel, Neyla, Mônica e Herica (Foto: Sandra Machado)

Até o fim deste ano, serão divulgados os resultados de um estudo pioneiro na cidade do Rio de Janeiro. Em maio de 2012, uma parceria entre o Departamento de Extensão da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a Gerência de Educação de Jovens e Adultos da Secretaria Municipal de Educação (Geja/SME) deu origem ao Grupo de Acompanhamento e Pesquisa em Alfabetização de Jovens e Adultos (Gapa), que desde então vem buscando entender o processo de produção do sujeito da escrita e promovendo a troca de experiências e reflexões. A base do trabalho partiu dos encontros regulares entre professores do Programa de Educação de Jovens e Adultos (Peja) com os estudantes do curso de Pedagogia. Mas uma prévia do que está por vir foi compartilhada por um grupo de professores do Gapa em um auditório da Uerj, praticamente lotado, na noite de sexta-feira, 22 de setembro, no evento que fechou a V Semana de Alfabetização. 

Foco na realidade brasileira 

Maria do Socorro, coordenadora do Gapa (Foto: Sandra Machado)

“Sem desprezar autores como Piaget e Vygotsky, optamos por um mergulho na Antropologia com Darcy Ribeiro. O primeiro livro que nós lemos no grupo de pesquisa e discutimos por um ano e meio foi O povo brasileiro, que é leitura indispensável para um professor e ajuda a entender quem é o sujeito da EJA. Individualmente, cada um de nós, professores, faz a sua revolução dentro da sala de aula”, afirmou a especialista convidada, Maria do Socorro Martins Calhau, doutora em Educação pela Uerj e coordenadora do Gapa. “O aluno da EJA podia ser qualquer um de nós, um trabalhador, inserido fora da idade apropriada. Temos uma militância para trazer para dentro do trabalho realizado na escola autores como Darcy Ribeiro e Paulo Freire, em lugar dos teóricos estrangeiros, que nunca nos conheceram. Mas, ainda assim, é esperado que a gente paute as nossas aulas a partir da teoria deles. Eu mesma fui aluna da EJA, porque o trabalho chegou cedo na minha vida.” 

Kátia Moura, que esteve na Geja por 15 anos e, atualmente, atua como assistente do Secretário de Educação, César Benjamin, explicou que houve um rigoroso processo de seleção para chegar aos 15 professores do Peja mas, ao longo do tempo, por motivos os mais diversos, alguns não puderam continuar. O estudo, que inicialmente estava previsto para durar quatro anos, também sofreu interrupção de várias greves. “Nosso grupo se pergunta, frequentemente, se a gente está se colocando no lugar de quem está iniciando a escrita. Será que lemos o que o aluno escreve com o olhar dele? A todo momento, o educador precisa estar repensando a sua prática. Além disso, é importante que o aluno tenha prazer em vir para a escola.”

Oriundo do Centro Municipal de Referência de Jovens e Adultos (Creja), Daniel de Oliveira, que também é professor-orientador do Gapa e já alfabetizou crianças, fez uma analogia entre a arte culinária e o ofício do alfabetizador. “Não basta seguir a receita, porque a experiência prática faz diferença. Eu não tenho método, tenho alguns princípios. Busco pistas nos próprios alunos para desenvolver o trabalho. É fundamental para o professor da EJA apurar o hábito da escuta sensível.“

Com formação na área da Linguística, Maria do Socorro destacou que os seres humanos desenvolvem modelos mentais de acordo com a cultura em que se inserem. No caso do Brasil, em que predomina a cultura oral, o sujeito social tem uma mente narrativa, diferente da cultura letrada, que se desenvolve a partir do pensamento cartesiano ou científico. “Usamos uma língua estrangeira. Não temos língua materna, só madrasta, já que nossa língua materna foi cassada em 1817”, brincou, fazendo referência à língua geral, que foi uma evolução histórica do tupi. “Cultura oral e cultura letrada não são melhores nem piores entre si, apenas diferentes formas de compreender o mundo. No entanto, fica mais difícil para o aluno entender quando o professor estrutura sua aula em ‘caixinhas’, de forma cartesiana. É preciso preparar a aula de outro jeito.” Neste ponto da palestra, Cristina Lima, gerente de Alfabetização, interveio para lembrar um diferencial dos professores da EJA, que têm reservadas as sextas-feiras para se dedicar a estudos, como parte do seu horário de trabalho.

Rodas de atividades são recurso eficaz

“Houve um momento da pesquisa em que a gente trouxe os escritos dos alunos para o grupo analisar”, explicou Mônica Macedo, do Gapa. “Esse alunado passa por muitos processos de exclusão, dentro e fora da escola. Aí, nos perguntamos: que práticas dificultam essa expressão do aluno? Por isso as rodas de conversa e de leitura são muito importantes para ele. Se eu não dou uma bula de remédio nem um texto científico para que esse aluno leia, estou negando este direito a ele. Não se deve ter medo de mostrar toda sorte de textos, até políticos e filosóficos, porque ele vai se acostumando. Nosso trabalho é um duplo refazimento de identidade, em qualquer ensino, da creche à universidade. O mais importante é a relação entre professor e aluno.”

A coordenadora pedagógica do Creja, Neyla Tafakgi, afirmou que alfabetizar é um momento de gestação, construção e troca. “Por isso a relação entre professor e aluno tem que ser afetiva, respeitosa, honesta e verdadeira. Conhecer esse aluno é muito importante porque você abre espaço para dar voz a ele. Tenho que permitir, diariamente, a este aluno estar se posicionando. Nesse processo, ele se expõe ao professor. Como ele pensa sobre as questões do cotidiano? Outro dia, uma aluna alfabetizada revelou: ‘Professora, estou muito feliz por conseguir ler. É como se os meus olhos tivessem recebido um poder!’.

”Já a professora Herica Ferreiras preferiu, em vez de lançar mão apenas do microfone, fazer uma atividade com voluntários da plateia durante o evento, a fim de exemplificar o que queria dizer. “Entender a lógica de cada aluno afeta minha prática pedagógica. É a pista sobre como aquele aluno consegue assimilar o conhecimento. Um aprende escrevendo, outro no computador, que é uma nova cultura de conhecimento. Não existe dificuldade, existe diversidade. O professor precisa estudar e conhecer, de fato, o aluno.” 

Demonstração prática: voluntários combinaram como ensinar primeiras letras do alfabeto fazendo mímica (Foto: Sandra Machado)

Grande consenso entre os professores-pesquisadores do Gapa é que a turma da EJA deve ser sempre exposta a textos significativos, portadores de ideias e conceitos que sejam caros àqueles alunos. Com uma turma particularmente difícil, funcionou muito bem uma roda de leitura de piadas. “Eles nem faziam ideia de que ler era uma coisa que pode fazer você rir. A leitura costuma ser associada a uma oração, a uma lei, a um aviso, mas nunca ao prazer. Precisamos despertar interesse por meio daquilo que gostem, como textos de músicas. Tive um aluno, que veio da Região Nordeste e trabalhava na construção civil. Quando começou a escrever, percebi que escrevia rimando. Um dia, sentei com ele e perguntei: José, onde você aprendeu a fazer poesia? Surpreso, ele me respondeu dizendo que achava que tudo que era escrito rimava”, contou Maria do Socorro. “Rodas de leitura de cartas reais também dão muito certo. A gente lê com eles, e elas trazem sentimentos. Ajuda muito o aluno entender do que o texto é capaz.” 

A coordenadora do Gapa ressaltou, ainda, a importância de levar para a sala de aula a chamada “alfabetização planetária”, que discute sustentabilidade. “Do que adianta capacitar, se não houver um mundo daqui a 20 anos? Existe uma diretriz da Unesco para que se trate do tema em sala de aula – Agenda 2030. Orientamos para que levem isso para a casa deles, aprendendo a lidar com o lixo, com a alimentação, com o ecossistema do próprio corpo, com o consumo e a preservação da vida. Vejo como urgente ter essa discussão com nossos alunos, que têm família constituída.”

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