31 Janeiro 2020
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Frame do documentário Heitor dos Prazeres, de 1965, dirigido por Antônio Carlos de Fontoura

O compositor, cantor e artista plástico Heitor dos Prazeres (1898-1966) é um ícone da arte popular brasileira. Filho da costureira Celestina Gonçalves Martins e do marceneiro e clarinetista da Guarda Nacional Eduardo Alexandre dos Prazeres, herdou dos pais o saber da costura, da música, da marcenaria e da confecção de instrumentos. Embora seja coincidência, sua história e sua arte parecem ter sido talhadas para a exploração pedagógica na Educação Infantil.

Nascido e criado na Cidade Nova, foi frequentador assíduo da casa da Tia Ciata, junto com figuras como Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Sinhô, Paulo da Portela e seu tio Hilário Jovino Ferreira, de quem ganhou o primeiro cavaquinho. Foi ele quem cunhou o nome “Pequena África” para designar a região compreendida entre a Pedra do Sal e a Praça Onze, habitada, predominantemente, por africanos trazidos pelo tráfico negreiro, baianos libertos e negros que combateram na Guerra do Paraguai.

Aos 20 anos, já era conhecido como Mano Heitor do Cavaco e, depois, como Mano Heitor do Estácio. Mas ele não era apenas próximo dos sambistas do Morro de São Carlos, fundadores daquela que é tida como a primeira escola de samba do Rio, a Deixa Falar, que deu origem à Estácio de Sá. Heitor também circulava pela Mangueira, por Oswaldo Cruz e outros subúrbios, de forma que, com o tempo, passou a ser apenas Mano Heitor. Na verdade, ele era uma espécie de diplomata e militante da cultura negra que surgia no Rio, nas primeiras décadas do século XX, tendo contribuído para a organização de vários blocos de carnaval e escolas de samba, a exemplo de seu tio Hilário Jovino Ferreira, que fundou vários ranchos na região central do Rio de Janeiro.

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Porta-bandeira e mestre-sala, com o estandarte da Portela. Coleção Otto Grunewalt Ferveira, 1960

Heitor dos Prazeres foi um dos fundadores da Portela, cujas cores azul e branca – dizem – foi escolha dele. Em seu site, a agremiação considera que conquistou seu primeiro prêmio em um concurso, no Engenho de Dentro, promovido por Zé Espinguela, com o samba Não adianta chorar, composto por Heitor, em 1929, quando a escola ainda se chamava Conjunto de Oswaldo Cruz. Mas, segundo a arte-educadora Glaucea Helena, gestora do Terreirão Cultural de São Paulo e pesquisadora do Museu Afro Brasil, Heitor compôs para várias escolas de samba que surgiram no período.

Bamba dos bambas

Heitor dos Prazeres conhecia todos os grandes sambistas cariocas da época e suas músicas eram gravadas pelos intérpretes de maior sucesso, a exemplo de Francisco Alves, Mário Reis e Aracy de Almeida. Na década de 1930, era presença assídua nos programas de rádio e um dos contratados do Cassino da Urca. Lá, trabalhava com a companhia de Grande Otelo e chegou a fazer shows com a célebre cantora e dançarina Josephine Baker.

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Bambas do samba: Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal. Acervo da família de Marçal, década de 1920

Pierrô apaixonado, marchinha feita em parceria com Noel Rosa, é sua música de maior sucesso, com presença garantida nos carnavais, desde 1935, quando foi gravada pela dupla Joel e Gaúcho. A popularidade de Heitor era grande. Não só porque suas músicas estavam na boca do povo, mas também porque era respeitado pela comunidade negra e admirado por grandes jornalistas, cronistas e poetas, como Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade, e figurões da sociedade brasileira, como o empresário Raymundo Otonni de Castro Maya e o diplomata Gilberto Chateaubriand.

Sobre essa popularidade, Ricardo Cravo Albin, pesquisador de Música Popular Brasileira, diz em depoimento ao documentário Heitor, carioca dos Prazeres: “Foi um dos fundadores da Portela, tanto quanto Cartola foi um dos fundadores da Mangueira [em 1928]. A diferença é que, enquanto Heitor dos Prazeres adquiriu uma popularidade notável [desde o início da carreira], Cartola ficou escondido na Mangueira, só tendo sido realçado no final dos anos 1950”. Heitor era, enfim, um bamba no meio dos bambas.

O artista plástico e a Educação Infantil

Em outro documentário, dirigido por Antônio Carlos de Fontoura, Heitor dos Prazeres lembra que, em sua infância, o que mais gostava de fazer na escola era colorir as ilustrações da cartilha Felisberto de Carvalho, adotada na época: “Elas [as gravuras] é que me seduziam. Não consegui aprender a ler e escrever até hoje [1965]. Só me interessava em desenhar e colorir”.

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Heitor começou a pintar em 1937, quando já era um nome consagrado da música popular e do mundo do samba, retratando, com tons vibrantes e movimentos ritmados, os espaços de sociabilidade negra vivenciados por ele. “Essas figuras [dos quadros] têm coisas que eu já vi e ainda existem. Não preciso de modelo, tenho tudo aquilo, do passado e do agora, dentro da minha memória”, diz no documentário Heitor dos Prazeres.

Essa característica de sua obra pictórica, com cenas pintadas a partir de suas experiências, é uma agradável coincidência com o que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe para a Educação Infantil: que o desenvolvimento humano e acadêmico das crianças dessa faixa etária parta de suas próprias vivências familiares, culturais e comunitárias. Em palestra ao Museu de Arte Moderna de São Paulo, a arte-educadora Glaucea Helena, pesquisadora da vida e da obra de Heitor, conta que ele se autorretrata em várias de suas obras, como em O poeta e a musa, ou em Pierrô e foliões, sendo o pierrô uma das fantasias que ele mais usava durante o carnaval.

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O poeta e a musa. Coleção particular, 1957

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Pierrô e foliões. Coleção particular, 1963

O artista também aborda várias cenas do cotidiano das comunidades, das crianças, do universo familiar e das festas populares, de forma que, por meio das pinturas de Heitor dos Prazeres, é possível propiciar vivências nos diversos campos de experiência da Educação Infantil, como a escuta e a fala, o eu, o outro e o nós, o espaço e o tempo, as quantidades, as relações e as transformações ocorridas de lá para cá.

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Lavando roupa. Coleção particular, 1965

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Favela. Coleção Roberto Marinho, 1965

As pinturas de Heitor dos Prazeres, na verdade, se prestam para estabelecer inúmeras conexões previstas pela BNCC para a Educação Infantil. A representação do corpo, em seus quadros, por exemplo, é sempre repleta de gestos e movimentos, muitos deles sugerindo som e dança. “A visualidade de seus quadros nasce a partir da experiência do corpo, de seu movimento”, avalia Glaucea Helena. Embora a crítica de arte (de visão europeia) classifique sua obra pictórica como arte naïf, com características ingênuas e primitivas, ela considera que Heitor tinha uma técnica refinada para representar a movimentação corporal, que consistia em cinco linhas diagonais imaginárias, em forma de zigue-zague.

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Sem título. Museu Afro Brasil, Governo de SP, 1965

A representação de figuras nas pontas dos pés e com o olhar voltado para cima propicia a criação de duas linhas extras, que potencializam o movimento e inspiram a realização de experiências que permitam as crianças relacionarem traços e formas, corpo e movimento. Ainda acerca dos traços, Heitor os utiliza para criar inúmeros detalhes, como o modelo dos sapatos e a costura das roupas, e ainda para contornar as figuras e os objetos, aproximando sua pintura do desenho. “É desleal classificar a obra de Heitor a partir de uma visão acadêmica europeia. A arte dele traz outros referenciais, esses críticos desconsideram a África”, posiciona-se a arte-educadora.

Ainda que a arte pictórica de Heitor seja classificada como naïf por uma parte da crítica, em 1943, o quadro Festa de São João caiu no gosto da então princesa Elizabeth (atual rainha da Inglaterra), que encheu a obra de elogios e a comprou. A tela integrava uma exposição beneficente realizada em Londres, em prol das vítimas da Segunda Guerra Mundial. Esse fato alavancou a carreira dele como pintor. A partir de então, suas pinturas passaram a fazer parte do circuito das principais exposições brasileiras.

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Festa de São João. Inter-American Fund, 1942

Imaginação e linguagem

A arte de Heitor dos Prazeres ainda apresenta mais uma conexão com os campos de experiência da Educação Infantil: a imaginação. Em documentário, ele relata que a pintura era seu lugar de fuga do sofrimento, das mágoas, das paixões: “Me sinto num outro mundo, num mundo de felicidade (...). Na pintura eu sonho. Sonho música, sonho alegria”.

No mundo idealizado de Heitor, todos os negros usam sapatos, artigo de luxo na indumentária dos mais pobres da época, conferindo-lhes dignidade e cidadania e diferenciando-os da condição dos escravos, que andavam descalços. Embora usasse a imaginação em sua arte, tinha forte referência com a realidade. “Não gosto de pintar o que não existe ou não existiu”, diz, no mesmo documentário.

O uso da imaginação como lugar de fuga  não significa que o olhar dele não tivesse um viés crítico. Para Glaucea Helena, a fase em que ele representa trabalhadores rurais é a que mais evidencia sua visão aguçada sobre a realidade.

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Sem título e sem data. Acervo Masp

A obra de Heitor dos Prazeres, calcada em suas experiências e vivências, apresenta várias possibilidades pedagógicas. Aqui, foi explorado o universo da Educação Infantil, mas uma das ideias expressas na BNCC – que os alunos conheçam e exercitem as mais diversas linguagens, a fim de ampliar suas capacidades de expressão, sejam elas artísticas ou linguísticas – pode ser apropriada e explorada pelos demais segmentos da Educação.

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