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Bairros Cariocas
03 Dezembro 2012
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Rua_do_Lavradio_com_legendaEm plena década de 1990, enquanto os shopping centers e os grandes condomínios fechados propunham que a população trocasse os serviços oferecidos na rua pelos ofertados nos espaços privados, vigiados por forte esquema de segurança, alguns donos de antiquários do tradicional e deteriorado bairro da Lapa decidiram promover uma feira de antiguidades nos fins de semana. O objetivo era produzir um chamariz capaz de levar público à esvaziada rua onde estavam localizadas suas lojas. Para isso, reativaram a antiga Associação dos Comerciantes da Rua do Lavradio, entidade que conferiu organização e perfil jurídico à iniciativa.

O sucesso do empreendimento, que unia diversão a memória cultural, foi tão grande que os comerciantes logo perceberam que poderiam potencializar seus negócios com a criação de casas de show, bares e restaurantes ambientados com as próprias peças de seus antiquários. Começou assim o processo conhecido como “revitalização da Lapa”, que, depois de décadas de abandono e decadência, passou a ter alguns de seus antigos casarões restaurados por empresários que iniciavam, ali, algum tipo de negócio. A nova oferta de serviços de cultura e lazer acabou por reavivar a vida noturna do bairro e abriu janelas de conciliação da classe média e dos turistas com a história de boemia do bairro.

O passado boêmio da Lapa, segundo o arquiteto Cristovão Duarte, professor da Faculdade de Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), se relaciona com o processo de ocupação da cidade – que se desenvolveu a partir das reformas feitas na região central do Rio de Janeiro pelo então prefeito Pereira Passos, na primeira década do século XX. A operação conhecida como “bota-abaixo”, que expulsou a população pobre que vivia no Morro do Castelo e nas imediações da atual Avenida Rio Branco, acabou por gerar um cinturão de pobreza ao redor do eixo nobre do Centro da cidade. De imediato, os expulsos se deslocaram para a Zona Portuária, depois, avançaram em direção à região do Canal do Mangue, para além do Campo de Santana e da Praça Cruz Vermelha.

Tais deslocamentos agravaram outro processo iniciado nas últimas décadas do século XIX: o de evasão das elites em direção à Zona Sul da cidade. Antes da reforma de Pereira Passos, a Lapa ainda era um bairro onde moravam famílias abastadas. Seu processo de povoamento foi iniciado com a construção de casarões para a Corte Portuguesa, que chegou ao Rio junto com a Família Real. Antes disso, a Lapa era apenas um imenso território vazio, cortado pela estrada do Mata-Cavalo (atual Rua Riachuelo) e com pouquíssimas edificações, LeandroJoaquim-1790-Arcos_com_legendatais como a igreja Nossa Senhora da Lapa do Desterro e o aqueduto que levava as águas do morro do Desterro (Santa Teresa) ao Morro de Santo Antônio.

Com a formação do cinturão de miséria em torno do Centro, Cristóvão Duarte afirma que “a Lapa se transformou em um bairro de gente pobre que ocupava e superlotava casas de gente rica”. Foi nesse processo, explica ele, que “proliferaram os prostíbulos, as casas de jogo, as tabernas, os night clubs e toda sorte de ofertas possíveis para a vida boêmia e desregrada”.

Mantidas em parte até os dias de hoje, tais características se contrastam com o ambiente profilático dos shopping centers e condomínios fechados, mas não incomodam os empresários do bairro. “Não vemos os pobres como pessoas que devem ser alijadas da vida da cidade. Pelo contrário, eles até conferem um certo glamour ao bairro. A população de rua é que é a parte difícil e delicada do problema. Mas isso é uma outra questão e deve ser tratada com cuidado”, diz Isnard de Oliveira Manso, presidente da Associação dos Comerciantes do Centro do Rio Antigo (ACCRA), entidade que substituiu a Associação dos Comerciantes da Rua do Lavradio e que, hoje, congrega empresários da Lapa, Cinelândia, Rua da Carioca e Praça Tiradentes.

Apesar de os empresários e novos freqüentadores da Lapa aceitarem conviver com os mais diversos matizes populacionais, o bairro, assim como toda a cidade, está exposto a outras visões de mundo. O professor da UFRJ chama a atenção para a publicidade que lançou o empreendimento imobiliário localizado no antigo terreno entre as ruas do Riachuelo e Mem de Sá:

– A propaganda enfatizava tratar-se de um condomínio fechado, dotado de todos os serviços necessários ao atendimento das necessidades dos futuros moradores, com piscinas, SPA, espaço gourmet, cybercafe, lavanderia, etc. Ou seja, o que vendiam era a possibilidade de se morar na Lapa totalmente protegido da Lapa – destaca Duarte.

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