CampodeSantana
O Campo de Santana, antigo Campo da Cidade, e sua Praça de Touros (ao centro) no ano de 1818. Do período colonial ao início do século XX, as touradas foram bastante populares no Rio (Crédito: domínio público / Franz Josef Frühbeck)

Talvez os preços dos tecidos de luxo vindos da Europa subissem, pensavam as sinhás e as sinhazinhas, em tempos de festejos. Alfaiates e costureiras, por sua vez, seguindo a moda, sonhavam em aumentar seus ganhos com as encomendas recebidas dos mais abastados. Os candeeiros de azeite iluminavam, noite afora, as moradias desses comerciantes, que escreviam, a pena de pato, os cálculos dos possíveis e prováveis orçamentos, contabilizando. As expectativas cresciam.

Em datas especiais, pelos idos do século XVIII, eram organizados festas e folguedos de rua, agitando a cidade e impulsionando o comércio, em contraste com os fatos diários – para muitos, nem sempre felizes. Representavam o reverso do cotidiano da população, quase imutável. Gritava-se, aclamava-se. Soavam clarins e tambores rufavam! Festas! Festas! Festas! A notícia se alastrava, tomando conta do Rio de Janeiro. Nesses dias de folguedos, deitava-se bem tarde: às 8h da noite.

O Campo da Cidade (Campo de Santana) era o local onde mais animadamente se comemoravam as festas públicas, com danças, fogos de artifício, leilão de prendas, mastro da cocanha (pau de sebo), cavalhadas e comilanças. Ali aconteciam as cavalhadas: trazidas de Portugal, eram uma espécie de torneio entre pessoas que usavam trajes coloridos, repesentando, de um lado, os mouros (infiéis) e, do outro, os cristãos (católicos), e que terminava com o aprisionamento dos primeiros. Os cavalos, enfeitados com espelhos e pérolas falsas, compunham a cena. Surgiam as bandeiras de santos como São João, Santo Antônio e São Pedro, levadas por indivíduos que portavam roupagens de cores diversas.

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Cortejo burlesco da serração da velha, em Portugal. O folguedo da tradição medieval lusa foi trazido para as ruas do Rio pelos colonizadores. Detalhe de ilustração publicada na Revista Occidente nº 8, abril de 1874. (Crédito: domínio público / Manuel Macedo)

Além das cavalhadas, havia as touradas (a programação tinha como principal atração homens que, em arenas montadas no Campo da Cidade, desafiavam os animais trazidos da Europa), as congadas (folias de origem africana que, na cidade, se revestiam de caráter cristão) e a serração da velha (cortava-se uma tábua, fingindo-se serrar uma velha – crítica direcionada à mulher vista como má filha, má mulher, má sogra, má avó...). 

Os mais pobres participavam dessas comemorações, iniciadas no final da tarde, representando, segundo o escritor Luiz Edmundo, uma espécie de ilusão, uma felicidade passageira, que encobria todas as dificuldades vivenciadas pela maior parte da população do Rio de Janeiro (e das demais regiões do Brasil) naqueles tempos.

Talvez o vice-rei Marquês do Lavradio (Luís de Almeida Soares Portugal Alarcão d’Eça Melo Silva Mascarenhas, 1769-1779) jamais tenha compreendido que as festas populares refletiam uma espécie de clamor dos despossuídos contra as adversidades a eles impostas. Segundo a historiadora Mary Del Priore, “tais comemorações constituíam um grito desafiador contra as dificuldades da árdua vida na colônia, representando um exutório das tensões acumuladas contra as autoridades, fossem elas o senhor de escravos, a Igreja Católica ou o próprio governo português, que ele mesmo representava”.


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