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A Confeitaria Colombo, aberta em 1893 e tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico do estado um século depois, já recebeu visitantes ilustres como o rei Alberto da Bélgica, em 1920, e a rainha Elizabeth da Inglaterra, em 1968 (Crédito: Secretaria de Turismo do Rio de Janeiro)

Inúmeras fotografias tiradas com os recursos que os celulares modernos ofertam confirmam: cariocas de várias regiões do Rio, como em outros cantos do mundo, fazem pose reunidos frequentemente em torno da mesa, compartilhando momentos e celebrando eventos. Diversos sabores estão presentes, e o que é oferecido é resultado das receitas elaboradas ou improvisadas, servidas em finas toalhas de linho ou nas de algodão quadriculado. Pode ser em almoços familiares despretensiosos, com aquele toque de comida caseira, ou em refinados jantares.

Lanchonetes ou bares espalhados por bairros como Benfica, São Cristóvão, Tijuca, Engenho Novo, Bangu e Copacabana também recebem os cariocas que circulam nesses espaços democráticos, em meio às iguarias e aos temas variados. Se hoje os assuntos do dia a dia são tratados pela população em geral nesses espaços informais, nos tempos em que a cidade era a capital do Império, o falar da política e das novidades acontecia nos cafés e nas confeitarias que existiam na Rua do Ouvidor ou na Avenida Central.

Receitas e mais receitas anotadas e acumuladas constroem a memória da gastronomia carioca. Para o escritor Carlos Alberto Dória, o fazer culinário é “algo tão essencial como a leitura, a escrita, a música e todas as atividades humanas que nos envolvem no cotidiano”. Vale distinguir que culinária envolve práticas, métodos e procedimentos, enquanto a gastronomia, segundo Dória, “é o conjunto de saberes sobre a construção do prazer ao comer”. E, por causa desse entendimento, os prazeres à mesa – assunto da gastronomia – estão associados à harmonia de gostos e de sabores, às pitadas de tempero, à dosagem do sal e do açúcar, ao ponto certo do cozimento do alimento ou daquele dourado atraente, visível através do vidro de um forno doméstico.

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Feijoada de feijão preto, um ícone da gastronomia carioca (Crédito: Alexandre Macieira/Riotur)

Para escritores como Guilherme Studart, o carioca é “de forma geral, naturalmente aberto a influências externas e, em matéria de gastronomia, não poderia ser diferente: ele sempre esteve disposto a experimentar novos paladares. (...) O Rio de Janeiro é reconhecidamente um celeiro de invenções gastronômicas e foi palco de diversas criações hoje famosas em todo o país”.

Outros especialistas no tema entendem que a culinária carioca traz consigo pitadas da descontração da cidade, que surgiu às margens da Baía de Guanabara e ficou conhecida, internacionalmente, pela melodia que canta o trajeto da beldade cheia de graça a caminho do mar. A pergunta, registrada em um site de culinária carioca, ganha contornos divertidos propondo a questão: onde poderiam existir pratos com nomes de embaixadores como a sopa Leão Veloso e o filé à Oswaldo Aranha?

Por outro lado, a cidade passou pela forte influência portuguesa nos hábitos alimentares de sua população. Exemplo disso é a culinária que utiliza o bacalhau como ingrediente. A gastronomia carioca apresenta contornos e intenções particulares. Como a tradicional feijoada completa que, para diversos autores, surgiu na cidade. Chefs renomados, inclusive, chegam a falar no modo carioca de fazer a feijoada. Para o pesquisador Câmara Cascudo, citado pelas autoras Dolores Freixa e Guta Chaves, a feijoada seria resultado de um prato de cozido europeu feito com feijão branco. Por aqui, o feijão preto entrou em cena, acrescido de uma variedade de carnes salgadas e acompanhado de farofa, laranja e couve.

Na versão do escritor Pedro Nava, a feijoada, segundo recortes dos jornais de época, surgiu em certo restaurante localizado no centro do Rio de Janeiro pelos idos do século XIX. O local, chamado de casa de pasto, era frequentado por estudantes e boêmios, que foram responsáveis pela divulgação do que veio a se tornar uma espécie de cartão de visitas da culinária carioca e do país. Nem o estabelecimento nem a artéria urbana, conhecida nos idos do século XVIII como Rua do Sabão e desaparecida com a construção da Avenida Presidente Vargas, existem mais; porém, a receita permaneceu.

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O Angu do Gomes começou a funcionar em 1955 em uma barraquinha. Depois, passou a ser vendido em carrinhos e se tornou um dos mata-fomes prediletos da boemia carioca. Virou restaurante em 1977 (Crédito: Alexandre Macieira/Riotur)

No universo das delícias e dos sabores, nem só de feijoada completa vive a gastronomia carioca. Histórias acompanham o conhecido Angu do Gomes, que alimentou a população que circulava pelos arredores da Praça Quinze. Outra culinária permite, diariamente, uma liberdade de escolha e de combinações alimentares: o vale quanto pesa. Consta que essa prática teria se iniciado nos restaurantes localizados no centro da cidade, onde milhares de pessoas vivenciam a pressa do dia a dia. Algum proprietário associou a ideia de uma variedade de receitas em um balcão com uma balança ao lado. Estava criada a fórmula, tida como paixão dos cariocas e que, para alguns, afugentou a monotonia dos cardápios repetidos. Consta, inclusive – e os sites especializados confirmam – que o Rio de Janeiro é a terra dos restaurantes a peso.

Mergulhando nesse universo de sabores, existem, ainda, o biscoito de polvilho que circula pelas praias da cidade, acompanhando o mate gelado, os sanduíches tradicionais vendidos no Maracanã e as balas de tamarindo. No mais? O cafezinho e a conta.


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