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Nos arredores do centro da cidade, a igreja da Irmandade de Nossa Senhora da Glória, concluída em 1739. Óleo sobre tela de 1790 (Crédito: Leandro Joaquim/Museu Histórico Nacional – Iphan)

Pesquisadores como historiadores, geógrafos, arquitetos e urbanistas promovem, há algum tempo, importantes estudos ligados à evolução das cidades. Tratando do tema e observando as populações, decifram enigmas, resgatando, aprofundando, enriquecendo e preservando o conhecimento sobre esses espaços. É o caso da região central de uma cidade, que frequentemente corresponde ao seu centro histórico – local onde inicialmente a população se concentrou e se expandiu. Foi assim com o Rio de Janeiro. A partir de sua fundação até idos do século XVIII, os moradores se aglutinavam nessa área, à exceção de algumas poucas moradias erguidas em propriedades tipicamente rurais, que sediavam engenhos, fazendas e chácaras.

No decorrer do século XVII, com o aumento da população, a parte central da cidade, localizada nas terras do entorno do Morro do Castelo, ganhou maior movimentação. Seus habitantes desceram as ladeiras, abriram caminhos (mais tarde transformados em ruas) e ocuparam as zonas onde os terrenos eram mais secos, erguendo moradias. Com o crescimento dos habitantes, a malha urbana estendeu-se, de maneira livre e desordenada, em direção aos trechos mais baixos da várzea, onde existiam charcos, lagoas e mangues. Aterros, necessários, foram construídos e, progressivamente, foram alcançados e ocupados os terrenos próximos ao mar. Os residentes, então, passaram a nomear o antigo espaço urbano como Cidade Velha, e o da várzea como Cidade Nova, ou, apenas, Cidade.

Mais trilhas foram abertas, conduzindo, muitas vezes, os fiéis até as igrejas – presença marcante na arquitetura urbana, sinalizando a religiosidade da população. Caminhos que deram origem às ruas, nessa fase ainda sem calçamento, aumentavam na área central da cidade, que se expandiu em direção às terras da Glória, do Catete e do Rossio, hoje Praça Tiradentes.

O crescente comércio marítimo transformou o porto e as imediações do Largo do Carmo, atual Praça Quinze de Novembro, em centro econômico e administrativo do Rio setecentista. Nas primeiras décadas do século XVIII, os modestos e caóticos trapiches de madeira, em cujas pontes apenas atracavam navios à vela, de cabotagem (navegação ao longo da costa de um mesmo país), ganharam importância. Esses trapiches, para se adaptarem a nova realidade que permitisse a atracação de embarcações maiores, passaram por importantes reformas. Aos poucos, as chácaras que ocupavam os morros da Saúde e da Gamboa, próximos ao mar, passaram a ser loteadas, dando lugar a caminhos estreitos e a pequenas habitações, onde foram morar os trabalhadores do porto.

Um olhar atento ao centro do Rio permite resgatar parte da história da cidade. Construções como o Mosteiro de São Bento, os Arcos da Lapa, o Chafariz do Caminho da Glória (Rua da Glória, entre a Cândido Mendes e a Conde de Lage), a Irmandade Imperial de Nossa Senhora da Glória do Outeiro e algumas ruas, que tiveram sua origem nos primeiros caminhos traçados em direção às várzeas, como a Ladeira da Misericórdia e a Rua Direita (hoje, Primeiro de Março), contam um pouco do começo de tudo. Essa região da cidade é uma mistura do passado e do presente. Tempo: calendário. As cidades não devem abandonar a sua história. E o Rio de Janeiro preserva a sua.


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